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‘É difícil pensar a vida sem Niemeyer’, diz amigo há 40 anos

Segundo o engenheiro José Carlos Sussekind, que trabalhava com o arquiteto desde os anos 1970, a sua maior prioridade era a individualidade dos projetos

Por Meire Kusumoto 6 dez 2012, 11h28

José Carlos Sussekind era ainda um garoto de 20 e poucos anos quando conheceu Oscar Niemeyer, no início da década de 1970. Na época, o arquiteto já possuía muitas credenciais, entre elas a de criador de Brasília. Sussekind, por outro lado, estava no último ano do curso de engenharia na PUC-RJ e estagiava no escritório de Joaquim Cardoso, na época responsável pelos cálculos de todas as obras de Niemeyer. Quando Cardoso morreu, Niemeyer decidiu dar uma chance a Sussekind, e a parceria vingou. Até a morte do arquiteto, na noite desta quarta-feira, eles ainda tocavam projetos juntos.

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“Começamos com uma relação estritamente profissional, mas, um segundo depois, eu já estava encantado com ele. Tive o privilégio de fazer parte do círculo de amigos e, com o passar dos anos, a geração dele foi morrendo e, por ser mais novo, fui dos únicos a restar. Tivemos uma relação muito próxima. Quando nos reuníamos, falávamos 20 ou 30 minutos sobre trabalho e ficávamos de 2 a 3 horas batendo papo. É difícil separar o trabalho da amizade, foram mais de 40 anos juntos”, disse Sussekind ao site de VEJA.

“Existe aquela empatia entre as pessoas, e eu acho que isso aconteceu com a gente. Nós tínhamos muitos gostos em comum, muitas curiosidades em comum, como o pendor por cachorros e por doces portugueses. Tínhamos uma relação estreitíssima, é difícil pensar a vida sem ele”, afirmou.

Arquitetura — Segundo o engenheiro, o que Niemeyer mais prezava era a individualidade de cada projeto. “Ele era muito profissional e não se repetia. Ele falava: ‘Podem gostar ou não do meu projeto, eu só não quero que fique igual a qualquer outro’. Ele tentava inovar a cada trabalho. Dava muita importância para a estrutura. Se tivesse estrutura, dizia que a arquitetura dele já estava lá, com grandes espaços, grandes vãos, sem minúcias e detalhes. Era muito audacioso.”

Embora tenha desenvolvido muitas obras marcantes ao longo da carreira, Niemeyer levava uma coisa de cada vez. “Os projetos eram levados por etapas, apesar da incrível velocidade de criação dele. O processo de criação era sem sofrimento, ele fazia tudo com muita convicção e prazer. Tinha intuição de proporção, do que a estrutura precisava. Imaginava que podia ser feito e realmente podia, eu estava lá para dar uma espécie de bênção”, conta Sussekind.

De acordo com o engenheiro, Niemeyer estava sempre trabalhando, mesmo enquanto estava internado no hospital. “Sentado ou deitado, ele estava sempre pensando em coisas novas. A gente ia retomar projetos novos. Ele amava a vida loucamente. Nunca chegou a dizer ‘Não dá mais’. Ele queria ir embora para o escritório. Nunca o ouvi falar sobre a possibilidade de morrer. Ficou lúcido até o final.”

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