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Doda Miranda fala do Athina Onassis International Horse Show e afirma que está “só na quarta Olimpíada”

O cavaleiro que colocou o Brasil no circuito internacional do hipismo diz que sempre foi competitivo, mas tinha medo de cavalos quando era criança

Por Rafael Lemos 26 ago 2010, 08h58

Fui educado para ser bastante competitivo. Tudo que a gente fazia em casa era em clima de competição, fosse jogar pingue-pongue ou ver quem tomava o sorvete mais rápido. Então, quando passei a montar, meu objetivo era ganhar

O medalhista olímpico Álvaro de Miranda Neto – ou apenas Doda Miranda – não briga pelo título do Global Champions Tour (GCT) deste ano, torneio de hipismo do qual o Athina Onassis International Horse Show, evento que ele promove no Rio, é uma das fases. Mas nenhum outro cavaleiro sairá desse torneio se sentindo mais vencedor do que ele. Idealizador do AOIHS, que encerra o campeonato e leva o nome de sua esposa, neta e única herdeira do bilionário armador grego Aristóteles Onassis (1906-1975), Doda diz que o mais importante para ele é confirmar que o Brasil está inserido no circuito mundial de hipismo – foram três anos só para convencer os organizadores do GCT sobre a viabilidade da inclusão de uma etapa brasileira. Nesta entrevista, ele fala da competição, de seus planos, conta que tinha medo de cavalos quando era criança e lembra como foi o acidente que sofreu em 2008: “Achei que ia morrer.”

Com qual cavalo você vai correr?

É o Ashley Drossel Dan. Chamo só de Dan. Esse cavalo a gente adquiriu há dois meses. E me adaptei muito rápido a ele. É um cavalo que saltou a Olimpíada de Pequim com um cavaleiro australiano. A classificação final dele não foi muito boa, mas o cavaleiro era mais amador. Temos tido bons resultados, mas ainda falta um pouco de conjunto. Esse foi um dos motivos por que eu quis trazê-lo ao Brasil. Ele é o cavalo que eu gostaria de levar ao Mundial, então vai ser bom para poder acertar os últimos botões e estar preparado para o Mundial.

Como é a relação entre cavaleiro e cavalo?

O importante é estabelecer um vínculo com o animal. Não é só conhecer o cavalo e saber montá-lo muito bem. É conhecer o cavalo na rotina, no dia-a-dia. É olhar o cavalo na porta da cocheira e sentir se ele está com um bom aspecto. Por isso é importante o cavaleiro montar logo cedo, de manhã. Porque se você sente que o cavalo não está tão bem, conversa com o tratador, chama o veterinário. Pelo meu sentimento no dia, eu pergunto para o tratador se o cavalo se alimentou bem ou como ele estava durante a noite. Aí, posso falar para o veterinário, que pode dar uma vitamina ou até cortá-lo da competição. Eles são nossos melhores amigos. O que é interessante é o fato do teu grande parceiro não falar. Então, a comunicação é 100% sentimento. Essa é a diferença de um cavaleiro normal para um que se destaca. É ser um horseman, o homem do cavalo. Respeitar o cavalo como se fosse você. Qualquer dúvida, eu me coloco no lugar do cavalo. E se fosse eu que estivesse passando por isso?

A sua relação com os cavalos começou ainda na infância. Você tinha medo deles?

Eu tinha muito medo. Comecei a montar com uns 7 anos, quando ia para Caxambu, MG, nos fins de semana com meus pais. Só que eu gostava tanto que eu passei a pedir ao meu pai para todo final de semana sair de São Paulo para Caxambu. Meu pai falava que eu só queria ir para lá montar. Então achou melhor ficar sócio de um clube, que foi o clube Santo Amaro. Quando eu cheguei lá, já com 9 anos, tomei um susto. Estava acostumado a ver aqueles cavalos de Caxambu, magrinhos. E, de repente, vi um cavalo tratado, um atleta. Aquilo me deixou bastante assustado. E fiz meu primeiro teste, que foi muito ruim, porque eu estava com medo. Meu pai perguntou ao treinador qual a impressão dele sobre quanto tempo eu levaria para poder participar de uma prova. E ele respondeu que uns quatro anos. Meu pai falou: ‘Em quatro anos, a gente ensina até um macaco a andar de cavalo’. Depois de um ano, ganhei meu primeiro campeonato, o Troféu Pão de Açúcar, um torneio nacional. Eu estava entrando na categoria mirim, mas competi com muitos meninos mais velhos. A evolução foi muito rápida. Mas contei muito com o apoio do meu pai, que me ensinou sempre a importância da dedicação, da determinação e da vontade de ganhar. E também de tirar o meu medo. Muitas vezes, ele se jogava de cima do cavalo para me mostrar que tinha que aprender a rolar. Ele me botou no judô para eu aprender a cair. E minha mãe também. Lembro que um dia, quando tinha uns nove anos, eu estava com medo de galopar. Ela, de bolsa e roupa normal, disse: ‘Deixa que eu monto’. Montou e galopou, meio desajeitada. Pedi para ela descer e fui montar.

Athina Onassis confere as instalações do Athina Onassis International Horse Show
Athina Onassis confere as instalações do Athina Onassis International Horse Show VEJA

Você já pensava que poderia ir tão longe no esporte?

Sempre fui educado em casa para ser bastante competitivo. Tudo que a gente fazia em casa era em clima de competição, fosse jogar pingue-pongue ou ver quem tomava o sorvete mais rápido. Quando passei a montar, meu objetivo era ganhar. Só que num momento mais à frente, meu pai falou que eu entraria em uma fase na escola na qual seria normal amigos me chamarem para sair e que rolaria bebida. Ele então me pediu para escolher se eu queria ser um campeão ou montar por hobby. E eu disse que queria ser um campeão. Abri mão de muitas coisas. Inclusive escolas que não apoiavam o fato de eu ter que faltar mais do que os outros alunos. Aos 15 anos, cheguei a mudar de escola três vezes no mesmo ano.

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Você sofreu um acidente grave há alguns anos. Como foi essa experiência?

Tive uma queda muito feia há dois anos, em Aachen, na Alemanha. Ali, eu achei que não ia escapar. Realmente, achei que pudesse morrer. Eu estava com uma égua que não tinha muita experiência. Ela saltou antes da hora, enroscou as duas patas dianteiras na vara, e eu caí de cabeça. Senti um estalo forte no pescoço. Mas o pior é que, depois que rolei com a égua, ela levantou e eu fiquei preso embaixo dela com as duas pernas. Esse foi um momento muito difícil porque fiquei de três a quatro minutos com o cavalo galopando e a ferradura perto do meu capacete. A ferradura dava cascudos no meu capacete. Foi duro. Mas, graças a Deus, o pessoal da pista foi muito rápido. Eles conseguiram não estressar o animal, pará-lo e cortar a minha cela. Por milagre, não tive nada. Uma semana depois, ganhei, com a mesma égua, um Grande Prêmio em Estoril.

O que vocês aprenderam ao longo desses anos de Athina Onassis International Horse Show?

Acho que hoje o Rio de Janeiro entrou como o nosso segundo ano em São Paulo. A grande dificuldade foi quando mudamos de São Paulo para o Rio. Num lugar novo, você não está acostumado com nada. É o primeiro ano que eu fiquei totalmente afastado da organização, mas é o ano que fiquei mais satisfeito. É difícil você encontrar um evento tão bom no mundo inteiro. Talvez, exista um ou dois no mesmo nível. O que fiz desde o início foi exigir um padrão de qualidade muito alto. Passei dois anos anotando num caderno o que eu gostava e não gostava nos maiores eventos do mundo. Um exemplo bobo é quando você está num paddock, fazendo aquecimento, e, na maioria dos concursos, não tem como saber o que está acontecendo na pista. É como na Fórmula-1. Você tem que ver o resultado, tem que ter imagem. Tem que ter tudo isso próximo do atleta para poder facilitar e deixá-lo entrar na pista com todas as informações. Em muitas competições, não dá para ir ao banheiro. Tem que procurar um cantinho. É um absurdo. Hoje, eu só me envolvo na programação esportiva, como os tipos de prova, quantos cavalos vão saltar, programação técnica, horário de trabalho dos funcionários.

O evento é lucrativo?

O nosso objetivo é que seja lucrativo. A gente fica muito feliz quando consegue, pelo menos, empatar, mas não quer ficar tendo prejuízo. Porém, o mais importante é conseguir trazer para o Brasil um evento desse nível e mostrar para o mundo todo a capacidade que a gente tem de organizar. Inclusive, tendo as Olimpíadas aqui em 2016, acho isso muito importante. Lembro que quando eu falava para os cavaleiros sobre a ideia de fazer um concurso no Brasil, todo mundo perguntava: ‘Mas como vai fazer no Brasil?’. Hoje, tem briga para vir ao Brasil. Eu sabia do risco de ter prejuízo, das exigências desses cavaleiros e dos patrocinadores. O que eu quero dizer é que nunca fiz esse concurso para ganhar dinheiro. Sei que no começo posso perder. Se no futuro conseguir empatar minhas contas e estiver fazendo uma coisa boa para o meu país, terei alcançado meu objetivo. Para esse ano, acredito que vá conseguir empatar.

Existe a possibilidade de fazer o evento nas instalações de Deodoro (Complexo de Deodoro, que abrigou os Jogos Pan-Americanos de 2007), como evento-teste para as Olimpíadas?

Existe essa posibilidade. O lugar é muito bom, já testado nos Jogos Pan-Americanos. Acho que o local lá é ideal para os Jogos, mas fica um pouco distante do tipo de evento que a gente quer fazer. Colocamos não só o esporte, mas moda, entretenimento. Tem que ter um acesso um pouco mais fácil para as pessoas poderem vir. Inclusive, seria muito mais barato fazer esse evento em Deodoro porque você já tem a estrutura praticamente toda pronta. Mas acho que, estrategicamente, foi uma decisão correta manter o concurso aqui na Hípica (Sociedade Hípica Brasileira, que fica em bairro nobre do Rio). É algo que a gente pensa, mas tem que ser avaliado ao fim de cada ano. Tem que conversar com os patrocinadores.

Você pretende disputar as Olimpíadas do Rio?

Claro. E o legal do nosso esporte é que dá para pensar não só em 2016, mas em 2020, 2024, 2028, 2032… O Nelson Pessoa, pai do (cavaleiro) Rodrigo Pessoa, saltou o Campeonato Mundial na nossa equipe com 62 anos. Como a parte física fica mais por conta do cavalo e o cavaleiro entra mais como um piloto, é um esporte que nos permite sonhar com muitas Olimpíadas. O canadense Ian Millar saltou nove Olimpíadas, por exemplo. Eu estou só na quarta.

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