Documentário da Globo mostra intimidade de Preta Gil em seus últimos dias
Filme documental Preta - Eu não ando só será exibido na Globo nesta segunda-feira, 20, após Quem Ama Cuida
Nesta segunda-feira, 20 de julho, completa-se um ano da morte da cantora Preta Gil (1974-2025), vítima de um câncer colorretal. Com depoimentos de amigos e familiares da artista, incluindo Gilberto Gil, pai de Preta, o filme documental da Globo Preta – Eu não ando só, dirigido por Sandra Kogut, revela registros feitos por ela mesma e por todos aqueles que testemunharam seu tratamento contra a doença.
Em entrevista a VEJA, Sandra Kogut falou sobre o processo nos bastidores da produção, que será exibida na Globo nesta segunda-feira, 20, após Quem Ama Cuida. No Globoplay, chega ao catálogo a série documental Meu Nome é Preta, com quatro episódios. A série e o filme integram o projeto Quanto Mais Preta Melhor, iniciativa que celebra a trajetória e a força da artista.
Confira a entrevista:
O documentário mostra que foi a própria Preta a idealizar o projeto Quanto Mais Preta Melhor. Como o projeto foi desenvolvido após a partida dela? O filme Preta Eu Não Ando Só começou quando a Preta ainda estava viva. Veio de um pedido dela. Quando ela ficou doente, ela achou que seria importante fazer um filme, registrar o que ela estava vivendo. E começou a filmar com o celular, e a pedir aos amigos mais próximos que registrassem também. Durante meses eu mergulhei nesse material, que era muito diverso, porque tinha de tudo: as filmagens dos amigos, misturadas aos arquivos mais variados do celular da Preta. Imagina tudo o que não tinha no celular de alguém como a Preta? Daquele mergulho nesse material nasceu o filme. Fui entendendo quem a gente devia entrevistar, e como contar essa história. Mas uma coisa estava clara desde o início: o filme ia falar de amizade. Porque aquelas imagens filmadas tão de perto, de maneira amadora, eram feitas pelos amigos, eram um gesto de amor. Eram imagens carregadas de afeto e emoção. Diamantes brutos.
O filme é construído em grande parte por imagens inéditas de celular gravadas pela própria Preta. Como foi o processo de curadoria desse material íntimo para transformá-lo em uma narrativa cinematográfica estruturada, sem perder a espontaneidade dela? Esse é meu terceiro filme em que os personagens também filmam. Isso é muito emblemático da nossa época. Hoje todo mundo tem uma câmera e uma rede de difusão na palma da mão. Isso traz desafios novos, mas traz também uma riqueza maravilhosa. De uma certa forma é preciso repensar totalmente o jeito de fazer. Você tem ali um monte de imagens desencontradas, amadoras, sobre as quais não teve controle nenhum. Pedacinhos, caquinhos, que não se conectam necessariamente. Que não seguem uma logica narrativa como se faz normalmente num filme. Nunca vai ser o que eu teria feito se eu estivesse filmando. Mas ao mesmo tempo essas imagens têm uma intimidade, uma presença, uma qualidade humana, de emoção – que são preciosas. Eu jamais teria filmado dentro do hospital daquela maneira. Eu teria receio de estar sendo invasiva. Essas são imagens que só quem está vivendo, quem está dentro da cena, pode fazer.
O documentário transita entre a cronologia do tratamento e memórias marcantes da vida da Preta. Como foi desenhada essa estrutura temporal para que o filme não fosse focado apenas na doença, mas sim na celebração da vida dela? A gente tem uma história que se passa no tempo presente do filme: começa com a descoberta da doença, aí vem o tratamento, em seguida a cura, e logo depois a doença volta, dessa vez pior, e leva à morte. É uma história cheia de emoção, drama, vitórias e derrotas. E junto com essa história temos também a história da Preta, de momentos-chave da trajetória dela antes da doença. As duas narrativas estão imbricadas no filme, porque elas se completam. Entendemos melhor aquele quarto de hospital sempre cheio de gente, a festa e o cuidado constantes dos amigos, quando entendemos a dimensão de quem a Preta foi. Entendemos melhor o amor das pessoas por ela quando vemos quanta coisa ela fez, foi e representou na sua trajetória de vida. E ao mesmo tempo tem muita coisa que foge totalmente ao clichê. O dia a dia no hospital era cheio de vida. O quarto era cheio, alegre. Apesar da dureza que é estar doente, tinha tanta vida nessas cenas, que elas muitas vezes são divertidas. Tudo é sempre triste e alegre.
Na sua percepção, o ato de documentar a própria jornada contra o câncer era para ela uma forma de terapia, um escudo de proteção ou um último grande gesto de conexão com os seus fãs? Acho que era uma forma de existir. Preta sempre foi uma comunicadora, movida a muita curiosidade, a muito desejo. Tudo nela era pulsão de vida. A maneira como lidou com a doença foi a maneira como viveu: ativa, viva, alerta, provocadora. E sempre muito interessada em tudo e em todos. Impressionante a capacidade que a Preta teve de inventar o mundo em torno dela. Inventar uma família, inventar relações fora do padrão, viver amores intensos, nunca desistir dos seus desejos, nunca desistir da vida. Ela criou uma onda de amor gigante em torno dela, mas que era uma espécie de retribuição a um amor enorme dela por tudo e todos. Algumas pessoas criticaram a exposição dela na doença. Mas eu encontrei muita gente que foi ajudado por ela. Ao longo da vida ela sempre fez isso: forçou portas fechadas, combateu preconceitos, muito antes que as discussões entrassem no debate público.
Dirigir um filme sobre alguém tão vibrante, sabendo do desfecho que o público já conhece, deve ter sido um processo emocionalmente intenso. Como foi lidar com a carga emocional desse material na ilha de edição? Foi muito intenso. Não só na ilha de edição. A gravação de cada entrevista também mexeu muito comigo. As entrevistas se tornaram uma espécie de ritual. Eram catárticas. Eu via que a pessoa estava falando comigo e ao mesmo tempo estava também, de alguma maneira, falando com a Preta. Tudo era pensado: a roupa, um objeto, um anel, um colar. Estar fazendo a entrevista era também estar dando algo para a Preta. Foi muito lindo isso. Eram momentos em suspenso, verdadeiros encontros. Adoro entrevistar pessoas, mas nunca tinha vivido algo assim. Era tudo tão vivo, à flor da pele. Chorei e ri em todas elas. O mergulho na edição também foi muito intenso. Era preciso penetrar nesse universo com todo o cuidado e delicadeza. Afinal se tratava da intimidade da Preta, e era um material muito extenso, sem nenhum filtro. Era preciso entender como lidar com aqueles pedaços de imagens, feitos no calor do momento, de maneira amadora. Olhar muito bem para esse arquivo, sem brigar com ele, sem tentar fazer dele o que ele não é. Achar a distância certa: nem invasiva nem fria. E aí as pérolas vão aparecendo. São pedras brutas, poderosas. Choramos muitas vezes na ilha de edição, na sala de mixagem.







