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Diretor de ‘Boi Neon’ expõe contradição de Cazarré: ‘No filme, foi um homem sensível’

Em cartaz em mostra comemorativa, Gabriel Mascaro fala a VEJA sobre a atualidade do longa e opina sobre o discurso do ator que da vida a protagonista

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 12 ago 2026, 18h51 | Atualizado em 12 ago 2026, 19h26
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Há dez anos, o pernambucano Gabriel Mascaro, hoje com 44 anos, lançou nos cinemas o aclamado Boi Neon, que agora retorna às salas para a Mostra Comemorativa do Cinema Pernambucano, que fica em cartaz até o dia 19 de agosto, com sessões em em cerca de 30 salas pelo Brasil. No longa, Juliano Cazarré interpreta um vaqueiro que sonha em ser estilista, questionando padrões rígido de masculinidade. em entrevista a VEJA, o diretor falou sobre a atualidade do longa, o poder do cinema pernambucano e destacou a contradição entre o discurso atual do ator, que virou porta-voz da masculinidade “raiz”, e do longa em que ele a vida ao personagem sensível.

Boi Neon está completando 10 anos, e é um dos filmes exibidos na Mostra Comemorativa do Cinema Pernambucano,. Uma década depois, qual é o impacto do filme na sua carreira? É um filme muito especial para mim. Ele surgiu em um momento da afirmação de uma cinematografia que  conversa com o Brasil, que é uma característica interessante do cinema pernambucano. Na época, eu tentei atualizar um certo imaginário de região interiorana associada àquele macho que eu fui criado. Quando eu comecei a pesquisar para o filme, me surpreendi com a mudança nessa percepção, até por conta da mudança do agreste do sertão que foi impactada por um desenvolvimento econômico acelerado. Eu fui olhar para essa região e, curiosamente, me deparei com esse polo de confecção de roupa, em que vaqueiros trabalhavam na fábrica usando moda surf no sertão. Então, para mim, foi uma chance de dilatar essa percepção de masculinidade e gênero. O filme olha para esses homens de um lugar com menos violência e  bravura e mais para sensibilidade. Além, é claro, de repaginar um pouco esse imaginário que se tinha do Nordeste.

Falando nisso, o Juliano Cazarré protagoniza o filme, e hoje virou porta-voz de uma masculinidade que contradiz o que o longa prega. Isso te surpreendeu? Surpreendeu sim. Há 10 anos, o Brasil era outro. Não existia nada disso do que a gente vê hoje, ou se existia era mascarado pelas redes sociais ou por uma falta de força partidária. Então, assim, foi uma surpresa, não tem como dizer que não. Mas é curioso como isso repercute no filme. Tem gente que fala que não vai assistir nunca mais, e tem gente que fica ainda mais curioso.

E como você vê essa repercussão? Eu fiquei muito curioso de reassistir ao filme depois da divulgação do curso do Cazarré pra revisitar esse nosso encontro. A gente não se conhecia quando filmamos, mas houve um espaço para construir aquela narrativa que eu acho muito potente. Também vejo que o filme envelhece muito bem. Ele dá complexidade para o nosso tempo de hoje, com questões que agora talvez sejam mais relevantes e urgentes do que na época do lançamento. Então, fico feliz com toda essa contradição. Que bom que o Cazarré, que hoje está aí divulgando um curso que não tem nada a ver com o que a gente estava construindo naquela época, conseguiu, em algum momento da vida, fazer algo completamente diferente.No filme, ele é um homem sensível, e ele participou de maneira muito aberta e entregue. É uma pessoa que, em algum momento da vida, viu uma potência ali, se com a cena de Pernambuco, e hoje talvez não se conecte mais. E tudo bem. O Brasil criou espaços que dão vazão a pensamentos e coisas que eu não concordo, mas faz parte.

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O que isso diz sobre  longevidade da arte? Acho que mostra que a obra sai de mim e vira uma coisa muito singular. Está além do meu controle como criador, e também dele como ator. O cinema é um encontro potente de muita gente. Então, isso me deixa encantado com esse lugar da arte. O Brasil hoje está dividido, mas em algum momento a arte foi capaz de juntar as pessoas ao ponto de até o Cazarré fazer um filme tão sensível e potente sobre uma masculinidade que contradiz tudo que está sendo dito por ele hoje. Mesmo que ele talvez diga que não é contraditório.

Rodrigo Santoro, Gabriel Mascaro e Denise Weinberg: filme brasileiro
Rodrigo Santoro, Gabriel Mascaro e Denise Weinberg: filme brasileiro “O Último Azul” venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim (Clemens Bilan - Pool/Getty Images)
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Nessa última década, acha que regredimos nessa visão de masculinidade que Boi Neon combate? Eu não usaria a palavra regressão, porque eu acho que a história não volta atrás. Ela caminha para frente. Mas demandas muito concretas surgiram para criar categorias muito fixas, algo que vai contra o que o filme propõem. Na época, eu queria falar de categorias que se expandem, identidades de gênero menos claras. Mas por uma questão histórica, acho que hoje a demanda é criar identidades que se possa nomear, para que as pessoas se sintam confortáveis sobre o guarda-chuva identitário. Por isso, vai ser muito gostoso ver o filme entrando em cartaz novamente e conversando com o momento que estamos vivendo. Um momento que também tem a sua importância e legitimidade. E eu ficaria muito curioso de ver a galera que pagou para ver o curso do Cazarré assistindo ao filme.

A tradição do cinema Pernambuco é muito forte, e chegou ao Oscar com O Agente Secreto. O que faz do estado esse polo cinematográfico? São muitas coisas, e a gente tem que ter cuidado para olhar para eles de maneira complexa. Antes de tudo, é um estado que foi beneficiado com uma tradição cultural forte, fruto até da própria aristocracia dos séculos passados, do boom da cana de açúcar. Ainda na década de 20, 10 longas foram produzidos em Pernambuco. Então, a história começa lá atrás com a formação intelectual do estado, e de como aquilo retroalimentou as manifestações populares. Nos anos 90, por exemplo, tem um movimento musical muito forte, que é o Mang Beat, que  contaminou toda uma geração. Na mostra a gente tem O Baile Perfumado, que a trilha sonora é toda de músicos dessa cena. Recife também tem um olhar menos industrial para a arte, que se permite experimentar e errar mais. Talvez pela distância geográfica do centro do audiovisual brasileiro, que é São Paulo e Rio, o que faz com que os artistas daqui olhem para outras referências. Somado a isso, você tem uma das primeiras políticas públicas do Brasil, focada no audiovisual. Isso dá frutos. Diferente de outros estados, Em Pernambuco quem filma não é a elite. Minha mãe, por exemplo, era professora de escola pública. Isso deixa as coisas mais horizontais, porque dá oportunidade e desenvolve talentos.

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Acha que ainda há uma visão estereotipada do sudeste sobre o nordeste? Eu acho que a própria pré-concepção existe mesmo dentro do próprio nordeste. Então, eu prefiro não antagonizar o sudeste, porque eu acho que a própria percepção do nordestino também foi atualizada. Então, é natural que o brasileiro seja surpreendido. Até porque, o brasileiro viaja pouco no Brasil. É muito raro. Pouca gente do sudeste conhece o interior de Pernambuco, o sertão, o agreste. Assim como é raro os brasileiros que vão conhecer a região norte.

Você lançou recentemente a distopia O Último Azul. Quais são os seus próximos projetos? Eu estou desenvolvendo algumas ideias, mas ainda não botei a pedra fundamental para um novo projeto. Estou namorando algumas ideias novas, vendo se algum livro brasileiro me chama atenção para uma adaptação. mas ainda não bati o martelo do que farei.

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