Despudorada, série ‘O Vampiro Lestat’ honra provocações de Anne Rice
As palavras da autora ganham sua adaptação mais estilosa, elevada por referências ao som frenético dos anos 1980
Um vampiro rock star precisa gravar o mais gutural dos gritos para uma música de seu novo álbum de rock. O que ele faz? Com microfone em mãos, corre rumo ao sol e deixa que a luz desintegre sua pele por alguns instantes, suportando dor inimaginável em nome da arte. Entre esse e outros excessos, a série O Vampiro Lestat, que chega na segunda-feira, 20, à Netflix, dá forma às palavras mais ousadas da americana Anne Rice (1941-2021), autora de treze livros das chamadas Crônicas Vampirescas, da qual o primeiro volume é o popular Entrevista com o Vampiro.
Adaptado para o cinema em 1994, com Brad Pitt e Tom Cruise, a obra foi vertida em seriado para o streaming em 2022, com duas temporadas bem-sucedidas e picantes. Elas são um olhar mais próximo ao da escrita da autora do que o longa dos anos 90: polêmica, Rice moldou para sempre a visão sobre o ser imortal, com altas doses de sensualidade e melancolia. Baseado no segundo livro da saga, O Vampiro Lestat serve como terceira fase da série televisiva, mas também funciona de forma independente. Entregues ao erotismo e a um senso de humor despudorado, os sete episódios seguem o personagem do título, interpretado pelo australiano Sam Reid — papel de Cruise no filme antigo —, investindo em uma carreira musical. Sob os holofotes, ele vai contar seu lado da história — depois que o ex-amante Louis, vivido por Jacob Anderson no figurino que foi de Pitt, desabafa perante um jornalista que transforma a trajetória do casal em livro best-seller.
Se outrora o laço romântico entre os personagens era subentendido, hoje ele é explícito, assim como os desdobramentos brutais da decisão de criar uma vampira mirim, Claudia (Delainey Hayles). Em um mundo pós-Game of Thrones, a série também arrisca seu arco mais espinhoso: a revelação de que Lestat transformou a própria mãe em imortal — e mantém com ela um caso incestuoso.
No palco, o vampiro, que se autodenomina um “exibicionista com transtorno de personalidade”, convence como roqueiro furioso graças às músicas do experiente compositor de trilhas sonoras Daniel Hart, interpretadas com vigor por Reid. O ator moldou sua fisicalidade e voz rasgada a partir de astros como os descamisados Iggy Pop e Billy Idol. Para que a rapsódia funcione, o roteiro e a direção ainda bebem do cult Nosferatu de F.W. Murnau (1922) até o pipoca Crepúsculo (2008), de modo que todos os absurdos pensados por Rice coexistam de forma plausível e sedutora. Vai ser difícil não se deixar envolver pelo pulsar desse sangue roqueiro.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004






