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‘Deadpool’: finalmente um bom filme de super-herói para adultos

Após participação em ‘X-Men Origens: Wolverine’ (2009), o personagem subversivo da Marvel ganha sua primeira adaptação solo e recupera no cinema o interessante sarcasmo dos quadrinhos

Por Raquel Carneiro 11 fev 2016, 08h29

São poucas as figuras superpoderosas das histórias em quadrinhos que merecem com tanta honra o título de anti-herói como Deadpool. Sarcástico, desrespeitoso e subversivo, ele odeia quando tentam recrutá-lo para o time dos X-Men e demonstra com frequência não ter aptidão para ficar do lado dos bonzinhos – apesar de também não merecer o cargo de vilão. O próprio gosta de se explicar para os leitores, tanto que uma de suas marcas é o hábito de quebrar a quarta parede – termo usado quando o personagem fictício interage com o espectador –, recurso também empregado no cinema. “Eu sou apenas um cara mal que é pago para ferrar caras piores”, diz olhando para a câmera em uma das cenas do filme que estreia no Brasil nesta quinta-feira.

Um dos momentos que melhor exemplifica o que é a adaptação solo de Deadpool para os cinemas é quando ele, vestido com seu traje vermelho e preto, empala com duas espadas um homem acima de sua cabeça. Enquanto isso, o mercenário tagarela (seu apelido mais contundente) olha para a câmera e explica aos desavisados que aquela não é uma tradicional produção de super-heróis para a família. E é justamente esta a maior qualidade de Deadpool – que ganhou no Brasil a classificação indicativa para maiores de 16 anos. Finalmente, em meio ao excesso de longas sobre super-humanos com apelo infantojuvenil, surge um bom e divertido filme do filão para adultos.

Interpretado por um hilário Ryan Reynolds, o anti-herói é, antes de ter poderes, o bonitão mercenário Wade Wilson, que presta serviços sujos para clientes que buscam uma justiça paralela a oficial. Boa parte de seus encontros acontecem no Lar Irmã Margaret para Meninas Desobedientes, fachada de um boteco para pessoas de índole duvidosa, dirigido por Weasel (T.J. Miller), melhor amigo de Wilson. O protagonista conhece no local a prostituta Vanessa (a atriz brasileira Morena Baccarin), por quem se apaixona e planeja uma longa vida lado a lado (mas antes, uma longa cena de sexo toma a tela).

Os planos do casal apaixonado são interrompidos quando Wilson é diagnosticado com câncer em fase de metástase. Ele então se submete a um experimento cientifico bizarro, que envolve tortura e manipulação genética para vencer a doença e torná-lo um homem com superpoderes. O procedimento é comandado pelo sádico Ajax (Ed Skrein), que transforma o galã em um ser imortal e deformado — “pareço um testículo com dentes”, diz Wilson mais tarde sobre seu novo rosto. Ele então acompanha de longe sua amada, que desconhece todo o experimento, e planeja se vingar de Ajax.

Com montagem em ordem não-linear, o filme é conduzido pelo excesso de falas do narrador, que atira piadas para todos os lados, enquanto explica seus passos. O time de roteiristas, aliás, é tão ou mais convencido que o próprio Deadpool, e parece se divertir de seu aguçado senso de deboche. Sobra para todo mundo. Reynolds fala mal dos X-Men, de Sinead O’Connor, Brad Pitt, faz referências a diversos filmes, como Um Lugar Chamado Notting Hill, e até alfineta a Fox, distribuidora de Deadpool. Claro, a concorrente da Marvel, DC Comics, também é alvo de farpas, especialmente seu personagem Lanterna Verde, que foi vivido por Reynolds no cinema em uma adaptação modorrenta em 2011. “Por favor, sem fantasia verde”, diz ele enquanto se submete ao procedimento que deveria transformá-lo em um herói.

Além do roteiro rápido, as cenas de ação são bem feitas e na velocidade ideal para o espectador não se perder entre os movimentos dos personagens ou quando acontecem as elaboradas explosões e perseguições em alta velocidade.

Como dá para notar, apesar do tom mais sarcástico e irônico, Deadpool ainda é um filme do filão heroico, com um protagonista fantasiado lutando pelo que acredita ser o certo (mesmo que o correto seja para seu benefício). Até a bilheteria milionária mundial é esperada. A diferença é que o longa se propõe a ser uma paródia nonsense do gênero. O letreiro inicial avisa que aquele é um filme cheio de clichês, com um ator bonitão, uma gostosa, um vilão com sotaque britânico e um personagem em computação gráfica. A combinação é boa, sempre foi. E saber usá-la com um direcionamento distinto é que o faz de Deadpool um bom programa para o fim de semana.

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