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De Stones a Titãs: quando roqueiros geriátricos devem ou não se aposentar

Os ganhos com shows levam muitos ídolos a se manter na estrada com cabelos brancos e rugas. Confira quem ainda tem gás - e quem deveria pendurar chuteiras

Por Sérgio Martins - Atualizado em 4 nov 2019, 16h40 - Publicado em 4 nov 2019, 16h34

 

No princípio, é amizade acima de tudo. Depois, chega o sucesso – e, com ele, os problemas. Nunca foi fácil – os Beatles que o digam – manter uma banda viva: com o tempo, surgem inevitavelmente os conflitos de egos, as desavenças no campo das ideias e as brigas de foice pelos lucros. É preciso tirar o chapéu, portanto, para a categoria dos roqueiros geriátricos. Dos Rolling Stones ao Guns’n’Roses, passando pelos brasileiros dos Titãs, a lista dos ídolos resilientes do rock é numerosa e só engrossa à medida que o próprio gênero vai se tornando mais velhinho.

Mesmo com cabelos brancos, articulações enferrujadas e barriguinhas de cerveja que não acompanham o ritmo da coreografia no palco, muitas bandas permanecem firmes na estrada por décadas a fio – ou reúnem-se, de tempos em tempos, para uma “nova” turnê. E a razão disso não é só amor pela arte: hoje em dia, mais que a venda de discos ou as execuções nas rádios, o que paga as contas dos artistas no final do mês são os ganhos com shows. Os grupos de rock viraram grandes empresas.

Os lucros são tão tentadores que os tiozinhos adiam ao máximo a aposentadoria. Mas chega uma hora em que não dá para lutar contra as evidências: é preciso pendurar as chuteiras. Os Rolling Stones conseguem a façanha de se manter na ativa com discos e shows relevantes. Para cada highlander como Mick Jagger (duas cirurgias no coração) ou, claro, Keith Richards (extensa lista de abusos do álcool e otras cositas más), no entanto, há vários casos constrangedores de artistas que deviam ter parado há muito tempo. Confira as bandas de rock que estão se aposentando, aquelas que deveriam urgentemente se aposentar – e algumas poucas que mereciam durar para sempre:

 

BANDAS QUE ESTÃO SE APOSENTANDO

 

Slayer

O quarteto americano de thrash metal encerra as atividades dia 30 de novembro, após se apresentar no Forum, casa de shows de Los Angeles. Um dos motivos alegados é que Tom Araya, baixista e vocalista, não suporta mais Kerry King, guitarrista e líder do grupo. Mas o Slayer sai por cima, com um grande disco – Repenteless – e shows consagradores, como o do Rock in Rio.

Toto

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O grupo americano de pop e hard rock encerrou sua turnê de 40 anos na Filadélfia, no dia 20 de outubro. O guitarrista Steve Lukather confessou que seria a última reunião daquela formação, embora não descarte voltar aos palcos. Corre o risco de virar um ‘baile da saudade”, longe dos bons tempos do grupo.

Kiss

Os roqueiros mascarados estão com a turnê End of the Road, que marca a despedida deles dos palcos. Uma decisão acertada, visto que há tempos eles não possuem a vitalidade do passado. Principalmente Paul Stanley, cantor dos principais hits do grupo, que anda apelando para o playback para não dar vexame.

Peter Frampton

O guitarrista inglês foi obrigado a se despedir dos palcos porque sofre de uma doença degenerativa dos músculos. Preferiu sair de cena, em vez de entregar performances desapontadoras. Seu último show aconteceu no dia 23 de outubro na cidade californiana de Concord.

Van Halen

Numa entrevista recente a um programa de rádio dos Estados Unidos, o vocalista David Lee Roth disse que o grupo encerrou suas atividades, embora nunca tenha feito um anúncio oficial sobre sua dissolução. O fato é que Eddie Van Halen, guitarrista e líder do quarteto, se vê às voltas com um câncer.

 

 

BANDAS QUE DEVERIAM SE APOSENTAR

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Guns N’ Roses

Há tempos que o grupo é movido mais por interesses financeiros que musicais. Axl Rose, o vocalista e dono da marca, tem nítidos problemas com o guitarrista Slash e sua voz não passa de um grasnado de maritaca afônica. As apresentações do grupo são um constrangimento só tolerado pelos fãs muito aguerridos.

Titãs

Uma das principais bandas do rock brasileiro, hoje está reduzido a três integrantes – Branco Mello, Sérgio Brito e Tony Bellotto. Há uma falta de criatividade patente em seus últimos álbuns (tentaram até uma ópera rock sobre estupro). A apresentação deles no Rock in Rio foi pavorosa e sem vontade.

Scorpions

Na década passada, o quinteto alemão até anunciou sua aposentadoria. Mas voltou atrás. Péssima decisão. Eles fazem apresentações arrastadas e numa temperatura morna, para um público que está mais interessado nas suas baladas melosas que os hard rocks bem temperados do quinteto.

Queen + Adam Lambert

John Deacon, baixista original do Queen, preferiu não participar dessa vergonha. Sobraram apenas o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, que contratam um cantor de aluguel para tentar reviver, em vão, os bons tempos. O eleito da vez é o afetado e caricato Adam Lambert, que não é do ramo.

Yes

O quinteto inglês, um dos grandes do rock progressivo, não possui mais nenhum integrante da formação original – o baixista e fundador Chris Squire morreu em 2015. O guitarrista Steve Howe e mais um grupo de gatos pingados (entre eles Geoff Downes, de uma formação dos anos 80) tentam, em vão, segurar a peteca.

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BANDAS QUE JAMAIS DEVERIAM TERMINAR

Rolling Stones

São cinco décadas em ação, várias batalhas vencidas contra dependência química e prisões e o melhor combo de rock e blues de todos os tempos. Do alto de seus respeitáveis cabelos brancos, Mick Jagger, 76 anos, e Keith Richards, 75, ainda dão no couro.

Rush

Eles anunciaram sua dissolução em 2016, após uma turnê em comemoração dos seus quarenta anos de existência. Uma das razões para o fim é que o baterista Neil Peart não tem mais saúde para executar suas complicadas passagens de bateria. Mas, ainda que capenga, Peart é melhor do que 90% dos batuqueiros atuais.

Iron Maiden

O sexteto inglês não sente o peso da idade. Embora todos estejam na faixa dos 60 anos, eles fizeram apresentações vigorosas no Rock in Rio e no estádio do Morumbi, em setembro e outubro passados, e mostram pique de iniciantes. Agora, eles darão uma parada estratégica para projetos solos de seus membros.

Bauhaus

O quarteto inglês retomou sua formação original em 2019 para apresentações em Los Angeles. O Bauhaus é um dos ícones do movimento gótico, que dominou a Inglaterra no início dos anos 80. Eles tinham como atração principal a voz cavernosa de Peter Murphy, o baixo reggae de David Jay e a guitarra econômica e pontual de Daniel Ash. Que a turnê seja estendida!

  Radiohead

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O quinteto é um dos últimos sopros de criatividade no rock internacional. Eles trafegam entre o universo do rock alternativo e do progressivo. Outro diferencial está no flerte do grupo com a música erudita do século XX. O guitarrista Jonny Greenwood, por exemplo, é fã do compositor polonês Penderecki e escreve obras para a London Sinfonietta. Rock com muitos toques de classe.

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