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De Marcelo Rubens Paiva a Rita Lee: a febre dos musicais que tomou conta dos teatros

Produções baseadas em histórias reais, biografias e clássicos brasileiros se multiplicam nos palco

Por Nara Boechat Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 out 2026, 17h00
De Marcelo Rubens Paiva a Rita Lee: a febre dos musicais que tomou conta dos teatros Priorize VEJA no Google

O teatro brasileiro vive uma espécie de era dos musicais. De grandes produções importadas da Broadway a histórias de personalidades brasileiras, o formato se multiplicou nos últimos anos e passou a ocupar uma parte importante da programação dos principais teatros do país. O novo exemplo é Feliz Ano Velho – O Musical, adaptação musical do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que estreou em setembro em São Paulo.

Dirigido por Gustavo Barchilon e com texto de Marilia Toledo, o espetáculo leva ao palco a história de Marcelo após o acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos. Hugo Bonemer interpreta o escritor jovem, enquanto Bruno Garcia e Heloisa Périssé vivem, respectivamente, Rubens e Eunice Paiva. A narrativa é acompanhada por clássicos do rock brasileiro dos anos 1980, de artistas como Legião Urbana, Cazuza, Lulu Santos e Rita Lee. A temporada paulistana segue até 22 de novembro e depois a montagem vai para o Rio.

A escolha de Feliz Ano Velho para ganhar uma versão musical também mostra como o gênero vem ampliando suas possibilidades. O livro já havia sido adaptado para o teatro em 1983, em uma montagem que se tornou um marco dos palcos brasileiros, além de ter virado filme. Mais de quatro décadas depois, a história retorna em outro formato, agora incorporando a música como parte da dramaturgia.

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E Marcelo Rubens Paiva está longe de ser uma exceção. Nos últimos anos, os musicais biográficos se tornaram uma das vertentes mais exploradas no país. Há quase 15 anos, chegava aos palcos o musical Tim Maia, que lotou os teatros. Depois vieram homenagens a Elis Regina (2013) e Martin Luther King, em Luther King – O Musical, de 2023. Já em 2026, por exemplo, voltaram aos palcos montagens como Ney Matogrosso, Homem com H e Rita Lee, Uma Autobiografia Musical, ambas construídas a partir da trajetória e do repertório de grandes nomes da música brasileira.

Também neste ano, Gil – Andar com Fé levou a história de Gilberto Gil ao palco, mas apostando em uma abordagem diferente da biografia tradicional. Dirigido por Miguel Falabella, o espetáculo mistura diferentes períodos da vida do cantor e usa a figura do Tempo-Rei para conduzir a narrativa. A produção ainda incorpora referências às artes plásticas brasileiras e às músicas de Gil.

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O movimento não se restringe às biografias. Obras conhecidas do público também vêm sendo transformadas em musicais, aproveitando personagens e histórias que já possuem uma relação afetiva com a plateia. O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, por exemplo, ganhou versões musicais recentes, mantendo a mistura de humor, crítica social e elementos da cultura popular brasileira. Do outro lado estão as grandes produções internacionais. Wicked, Mamma Mia!, Hair e outros sucessos da Broadway passaram a dividir espaço com produções nacionais. Em 2025, mais de 34 musicais estavam previstos para temporadas em São Paulo e no Rio, entre adaptações estrangeiras e espetáculos brasileiros.

Os números ajudam a explicar por que tantos produtores passaram a apostar no formato. Um estudo da Fundação Getulio Vargas de 2024, encomendado pela Sociedade Brasileira de Teatro Musical, aponta que 27 espetáculos apresentados em São Paulo em 2023 movimentaram 1,1 bilhão de reais na economia, atraíram 960 mil espectadores e geraram ou mantiveram mais de 13 mil postos de trabalho. A pesquisa também mostra que o setor mudou de escala. Em 2018, foram analisados 28 espetáculos e 1,09 milhão de espectadores. Cinco anos depois, embora o público tenha recuado, o número de empregos se manteve acima de 13 mil e o impacto econômico chegou a 1,1 bilhão de reais. O valor médio do ingresso também subiu de 82,47 para 99,08 reais no período.

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O crescimento criou, inclusive, uma cadeia profissional própria. A consolidação do gênero no Brasil ajudou a formar diretores, atores, coreógrafos, músicos e técnicos especializados em grandes produções. Nesse cenário, Feliz Ano Velho representa a possibilidade de transformar uma história brasileira já conhecida em uma experiência teatral nova. Em vez de simplesmente reproduzir o livro, o musical usa as músicas de uma geração, a linguagem contemporânea e recursos audiovisuais para aproximar a trajetória de Marcelo Rubens Paiva de uma plateia que, em muitos casos, sequer viveu os anos 1980.

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