De ‘Cem Anos de Solidão’ a ‘Diário de um Mago’, o mergulho da Netflix nas histórias latinas
Plataforma aposta em cuidadosas produções regionais com jeito internacional
Em seu discurso de agradecimento pelo Nobel de Literatura, em 1982, Gabriel García Márquez teceu uma explicação poética sobre as particularidades da América Latina aos europeus da Academia Sueca, responsáveis pela honraria. Da instabilidade política à força obstinada do povo, até passagens de criatividade perversa — como o episódio em que o ditador mexicano López de Santa Anna fez um funeral para sua perna direita —, esse “reino sem limites” e “repleto de tristeza e beleza”, nas palavras do colombiano, era fácil ser confundido com lendas exóticas pelo olhar caricato estrangeiro. “Nosso problema tem sido a falta de meios convencionais para tornar nossas vidas verossímeis”, disse. Por isso mesmo, Gabo era avesso à ideia de adaptações cinematográficas de sua obra — que passariam inevitavelmente pelo filtro hollywoodiano, sendo descaracterizadas no processo. Esse cenário, ainda bem, mudou.
Com a internacionalização do audiovisual, impulsionada pelo streaming, narrativas locais se tornaram um terreno fértil a ser explorado não mais pela mão estrangeira, mas pela visão de diretores, roteiristas e produtores do país de origem de cada história. A receita foi essencial para a criação da belíssima série Cem Anos de Solidão, que lança sua segunda e última parte, na Netflix, na quarta-feira 5. Adaptando com rigor literário e visual a obra-prima de García Márquez, a produção foi negociada com muito jeitinho por Francisco Ramos, vice-presidente de conteúdo da Netflix para a América Latina, com a família do escritor. “Concordamos que deveria ser uma série em espanhol e, principalmente, com talentos colombianos”, disse o executivo mexicano a VEJA (leia a entrevista no quadro abaixo). “Era fundamental ter na equipe pessoas que entendiam o valor e a moral da história do livro.” E que livro: o monumental Cem Anos de Solidão parte de uma vila, a fictícia Macondo, para narrar as idiossincrasias, dores e alegrias da Colômbia e, também, do nosso continente.
Destrinchar essa cultura é, ainda, um filão lucrativo — especialmente no que diz respeito ao Brasil, um dos mercados mais relevantes para a Netflix. Nos últimos doze meses, o tempo que os assinantes passaram assistindo às produções brasileiras da plataforma cresceu 39%, o maior aumento de audiência na América Latina. Uma prova de que o que é feito por aqui tem apelo global: a minissérie Emergência Radioativa entrou para o ranking das séries mais vistas da empresa no primeiro semestre deste ano, assim como o documentário sobre o jogador Ronaldinho Gaúcho. Ambas as produções refletem as falas de Gabo em seu discurso do Nobel: como traduzir uma tragédia na qual catadores de sucata espalham, inocentemente, o perigoso césio-137 pela cidade de Goiânia? E como explicar aos estrangeiros as aventuras aleatórias do craque de futebol e rei dos memes?
Outra trama peculiar nacional — e grande aposta da plataforma a ser lançada em 2027 — é o filme O Diário de um Mago, baseado no livro de Paulo Coelho, com direção de Vicente Amorim. Johnny Massaro dará vida ao escritor, e Rodrigo Santoro será o guia misterioso Petrus. A produção foi rodada ao longo do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, cenário essencial da história — os dois atores fizeram o trajeto antes, na preparação para o longa. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, a Netflix — uma das patrocinadoras do evento — divulgou a adaptação de um pequeno grande clássico, Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda Estou Aqui, no qual narra a virada sofrida após um acidente deixá-lo tetraplégico. Há muita história a ser contada abaixo da linha do Equador — um fascinante universo particular.
“Exportar ideias é poderoso”
Francisco Ramos, vice-presidente de conteúdo da Netflix na América Latina, fala a VEJA sobre adaptações.
Cem Anos de Solidão era considerado inadaptável. Como mudaram isso? Trabalhamos de perto com a família. Concordamos que deveria ser em espanhol e com talentos colombianos. Era importante ter na equipe pessoas que entendiam o valor e a moral da história. Essa segunda parte ficou melhor que a primeira, pois estávamos mergulhados em Macondo.
Qual o maior desafio no processo? Que fosse realista e mágico, sem parecer uma fantasia à la Disney. E também transformar uma prosa poética em diálogos — que são pouquíssimos no livro.
É comum ver adaptações de obras europeias e americanas em Hollywood. Como tem sido criar com textos latinos? A literatura local, especialmente a do boom latino-americano, é uma fonte seminal sobre nosso passado. Adaptar o que é escrito aqui é importantíssimo para nossa sociedade.
E o Brasil nesse cenário? É um de nossos maiores mercados, tanto de assinantes quanto de produtores. Exportar ideias e cultura é poderoso.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







