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De Anitta a Clara Nunes: a tradição afro-religiosa da música brasileira

Com o duplo 'Equilibrium', Anitta explora elementos do candomblé

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 11 ago 2026, 10h42
De Anitta a Clara Nunes: a tradição afro-religiosa da música brasileira Priorizar nos meus resultados Google

“Você já sabe quem chegou, só pelo toque do tambor.” O verso, embalado por uma efusão de percussão e vozes em coro, abre o novo álbum de Anitta, Equilibrium II, segundo ato do projeto musical iniciado por ela em abril. O disco transborda nomes ilustres, como Alceu Valença, Mart’nália e Maria Bethânia, mas as personalidades evocadas na canção de abertura não são estrelas da MPB — ao menos não de carne e osso. “Obviamente, estou me referindo aos exus e às pombagiras, com todo esse batuque”, afirmou Anitta no vídeo de bastidores em que disseca a faixa Você Já Sabe, parceria com o trio Los Brasileros. Um dos integrantes do grupo, Marcelinho Ferraz, é produtor do álbum e conta que convocou o coral de vozes do terreiro que frequenta para a canção. “A gente quis trazer a emoção dos atabaques e da sonoridade real das cerimônias, misturado ao pop urbano”, disse.

O projeto calcifica a fase espiritualizada da famosa funkeira carioca, que vem celebrando na música sua relação íntima com o candomblé, religião da qual é adepta há treze anos. “Esperei a vida inteira para fazer um trabalho que representasse a minha alma transbordando de dentro pra fora”, celebrou ela.

NOVA GERAÇÃO - MC Tha: paulistana mistura funk, MPB e umbanda
NOVA GERAÇÃO - MC Tha: paulistana mistura funk, MPB e umbanda (@mcthaa/Instagram)

Para além de ser um mergulho pessoal nas crenças da artista, o projeto integra uma ampla tradição histórica, até mesmo indissociável, que une as religiões de matriz africana com a música nacional. Laço refletido não só em letras de fé explícita, mas também em ritmos, batidas e até na estética. O passado da música nacional tem os dois pés no terreiro — e, ao que tudo indica, o futuro também.

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Além de Anitta, novos expoentes, como as cantoras de jazz e MPB Xenia França e Luedji Luna e a funkeira paulistana MC Tha, representam uma nova fase dessa relação. “Notei que havia semelhanças entre as batidas do funk e os toques do terreiro. Desse mergulho saiu Rito de Passá”, conta a cantora sobre seu álbum de estreia, de 2019. A percepção foi certeira. “As estruturas rítmicas, os instrumentos, a mitologia e a cosmovisão das religiões de matriz africana moldaram boa parte da identidade musical do Brasil”, explica o antropólogo Emerson Sena, doutor em ciência da religião pela UFJF. “O atabaque e o agogô, que no rito são usados para invocar entidades, na música popular se tornaram expressões de felicidade e de apreciação estético-cultural.”

SÍMBOLO - Clara Nunes: a artista ajudou a popularizar os orixás
SÍMBOLO - Clara Nunes: a artista ajudou a popularizar os orixás (EMI-ODEON/.)
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Criado dentro das casas das tias baianas no Rio de Janeiro, onde celebravam-se também os toques sagrados, o samba é o símbolo máximo desse mutualismo. Um dos primeiros sambistas a cair no gosto da indústria fonográfica, Sinhô (1888-1930) tinha canções permeadas pela religiosidade afro-brasileira, incluindo músicas como Vou Me Benzer e Macumba. Nas décadas de 1960 e 1970, com o candomblé e a umbanda em expansão, os orixás e as entidades passaram a marcar cada vez mais presença nas rádios. Alguns discos dessa toada são revolucionários. Caso de Os Afro-Sambas (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes, e do emblemático Alvorecer (1974), de Clara Nunes. Criada no catolicismo, a cantora mineira se converteu à umbanda ao se mudar para o Rio de Janeiro, em 1965, e foi uma das principais responsáveis por popularizar os orixás e sua estética pelo país. Sendo a moda um importante vetor da mensagem a ser passada, os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa transformaram o estilo em figurino durante a divulgação do álbum Doces Bárbaros (1976), com roupas brancas inspiradas nos afoxés e colares de contas.

PRECURSORES - Baden e Vinicius (à esq.), Gal, Caetano e Maria Bethânia: a fé se manifestava no samba e na moda
PRECURSORES - Baden e Vinicius (à esq.), Gal, Caetano e Maria Bethânia: a fé se manifestava no samba e na moda (Edvaldo Silva/Acervo UH/Folhapress; Sergio Sade/.)
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Mesmo que o Brasil seja um país de forte tradição cristã, esses artistas quebraram barreiras — e provaram que há espaço para a pluralidade religiosa e o sincretismo. Segundo o Censo do IBGE, de 2022, o número de adeptos de religiões de matriz africana triplicou entre 2010 e 2022, chegando a 1,8 milhão de fiéis. Anitta, aliás, se aproveitou desse crescimento. Quando lançou Equilibrium, perdeu 100 000 seguidores em uma rede social — desde então, já recuperou o dobro. No Spotify, o segundo álbum alcançou 10 milhões de reproduções em um único dia. A herança do batuque é forte.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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