De ‘A Substância’ a ‘Insaciável’: pressão estética é o novo fantasma de filmes de terror
Filmes do filão body horror refletem sobre o horror que assola mulheres mundo afora
Estudante de medicina, Hana (Midori Francis) vive em uma luta constante contra a balança. Ao reencontrar uma antiga colega de escola, que está irreconhecível após uma perda de peso drástica, ela descobre um remédio milagroso para emagrecer. Há apenas um detalhe perturbador: ele é feito de cinzas humanas. Desesperada, a jovem, que está longe de ser obesa, começa a tomar o medicamento por conta própria. Mais tarde, usa o cadáver de uma mulher de forma clandestina para fabricar novas pílulas. O objetivo é conquistado rapidamente e, de quebra, ela chama a atenção de sua paquera fitness, uma professora de ginástica da academia que frequenta. Tudo vai bem, pelo menos até o dia em que o espírito da defunta violada passa a assombrá-la no filme Insaciável (Saccharine, Austrália/Estados Unidos/Finlândia, 2026), em cartaz nos cinemas.
Integrante do subgênero do terror chamado de body horror, o horror corporal, o longa da diretora americana-australiana Natalie Erika James ilumina uma safra de obras que carregam mensagens avassaladoras (e cenas de arrepiar) sobre um terror comum imposto às mulheres ao redor do mundo: o da pressão estética que leva à busca por padrões inalcançáveis. Do divertido clássico A Morte Lhe Cai Bem (1992) ao provocativo A Substância (2024) — ambos sobre o esforço inútil para deter o envelhecimento —, passando pelo indie A Meia-Irmã Feia (2025), uma releitura sombria de Cinderela focada em uma das irmãs, que se submete a procedimentos extremos em busca da aparência que não tem, o tema ganhou força recentemente com cineastas mulheres obstinadas em retratar os dramas femininos de forma estarrecedora, mas sem deixar o entretenimento de lado.
O fenômeno, curiosamente, vem da apropriação de um território bastante masculino do cinema. A começar pelo “pai” do body horror, o canadense David Cronenberg, que é citado por essa geração de diretoras como uma inspiração. Responsável por clássicos como A Mosca (1986), Cronenberg usa a deformação do corpo como recurso narrativo para falar de perda da identidade, perversões sexuais e engrenagens sociais. Duas expoentes da vertente feminista, as francesas Coralie Fargeat, de A Substância, e Julia Ducournau, primeira mulher a ganhar sozinha a Palma de Ouro, pelo filme Titane (2021), unem as ideias de Cronenberg ao Cinema Extremo Francês. O movimento do início dos anos 2000 abusava da violência gráfica e da sexualidade explícita — geralmente com mulheres como vítimas de crimes brutais. As diretoras, então, se apoderaram da estética extremista, mas inverteram a lógica: as protagonistas até passam por maus bocados, mas as histórias são narradas sob o ponto de vista delas — assim como suas reviravoltas surpreendentes. Em Titane, por exemplo, uma dançarina, que sofreu um grave acidente na infância e recebeu uma placa de titânio no crânio, desenvolve uma atração bizarra por carros — e engravida de um automóvel. “A maneira como somos julgadas pela aparência e quando nossos corpos sofrem mutações, com o envelhecimento e com a gravidez, isso é horror corporal. Ser mulher é o próprio horror corporal”, definiu Coralie.
A afirmação foi testada há mais de três décadas pelo absurdo A Morte Lhe Cai Bem — precursor cômico do filão, no qual Meryl Streep e Goldie Hawn disputam o mesmo homem, não exatamente por amor, mas porque ele é um excelente cirurgião plástico. Ao tomar uma poção que garante a juventude eterna, elas se tornam imortais e, consequentemente, se aproximam mais de um zumbi do que de uma beldade jovial. Já no intrigante filme Insaciável, o assunto é mais sério. Estão na mira do roteiro os distúrbios alimentares, o culto à magreza e a famigerada indústria farmacêutica a todo vapor, lucrando com remédios variados, especialmente com as canetas emagrecedoras, que migraram do tratamento do diabetes para o uso estético — entre 2021 e 2025, a venda de medicamentos para perda de peso no Brasil cresceu 78,3%. A busca desmedida por um determinado padrão de beleza rende lucros às farmacêuticas e boas histórias de terror no cinema.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007







