Datas: Luiz Carlos Barreto, o patriarca do cinema brasileiro
O produtor morreu na quarta-feira 22, aos 98 anos, no Rio de Janeiro, das complicações de uma pneumonia
Foi o dramaturgo Nelson Rodrigues quem deu a Luiz Carlos Barreto o apelido de Barretão, em razão da abastada cabeleira que ele ostentava na juventude, quando ambos iam juntos aos jogos de futebol no Maracanã. O aumentativo aplicado ao sobrenome do premiado produtor ganhou com o tempo duplo sentido — para mostrar tanto sua força criativa quanto seu poder de influência nas políticas culturais da indústria do cinema brasileiro. Afinal, ele atravessou nada menos do que seis décadas ajudando a moldar a estrutura do audiovisual do país.
Cearense de Sobral, Barreto começou como fotojornalista em publicações populares como A Cigarra e O Cruzeiro. Foi essa vivência que o levou ao cinema: ao cobrir as filmagens de Barravento (1962), de Glauber Rocha, ganhou a confiança do diretor, acompanhou a montagem do longa e logo tornou-se um expoente do Cinema Novo. Pouco tempo depois, assumiu a fotografia de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos. Ali adotou a “lente nua”, inspirada em Cartier-Bresson, dispensando filtros para expor a luz áspera do sertão — recurso repetido em Terra em Transe (1967), do amigo Glauber, trabalho que o consagrou no movimento brasileiro.
Naquele mesmo ano, ao lado da mulher, Lucy Barreto, fundou a produtora LC Barreto e migrou para trás das câmeras, apostando num cinema popular, capaz de encher salas e competir com Hollywood. A estratégia deu certo: Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), dirigido pelo filho Bruno, virou fenômeno de bilheteria, superando 10 milhões de espectadores, e a produtora ainda emplacou duas indicações ao Oscar de filme internacional, dirigidas pelos filhos Fábio e Bruno, respectivamente: O Quatrilho (1995) e O que É Isso, Companheiro? (1997).
Sua influência não se limitava às telas. Barretão transformou prestígio artístico em poder político, virando um dos mais hábeis lobistas da cultura brasileira. Desde os anos 1970, na Embrafilme, integrou o grupo informal que decidia o financiamento público ao cinema. Após o desmonte do governo Collor, foi peça central na criação da controversa Lei do Audiovisual (1993) e ajudou a conceber a Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2001. O protagonismo lhe rendeu fama de todo-poderoso e, também, disputas com colegas que defendiam um cinema autoral e mais democrático.
Entre as polêmicas, nenhuma pesou tanto quanto Lula, o Filho do Brasil (2009), dirigido pelo filho Fábio. Produzido no fim do segundo mandato do petista, o filme foi visto como peça de exaltação política. Custou cerca de 15 milhões de reais e atraiu apenas 850 000 espectadores, resultado discutível diante do investimento. O projeto chapa-branca expôs a família à radicalização política, com direito a ameaças de morte.
Barretão deixa mais de oitenta produções e um legado de quem entendeu o cinema como indústria e instrumento de poder, transitando com desenvoltura atrás das câmeras e nos bastidores políticos. Morreu na quarta-feira 22, aos 98 anos, no Rio de Janeiro, das complicações de uma pneumonia.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005






