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‘Conflito palestino-israelense ainda persiste, e pior’, diz quadrinista

Joe Sacco, autor do premiado 'Palestina', que ganha reedição especial, fala também sobre novos trabalhos envolvendo o Canadá e Rolling Stones

Por Alessandro Giannini Atualizado em 1 out 2021, 19h02 - Publicado em 24 set 2021, 13h27

Vencedor do prestigioso American Book Award, Palestina, de Joe Sacco, é um marco do gênero literário que se convencionou chamar de jornalismo em quadrinhos. Entre o fim de 1991 e o início de 1992, Sacco passou dois meses visitando Jerusalém, Cisjordânia e a Faixa de Gaza, em Israel. O álbum, que acaba de ganhar uma reedição especial pela Editora Veneta, é o resultado de entrevistas com personagens que o autor encontrou na viagem e experiências que viveu em suas andanças por esses territórios. Na época, iniciara-se um dos muitos processos de paz em Madri, mas a comunidade internacional estava cética com relação à perspectiva de sucesso. De lá para cá, muita coisa mudou nesse cenário. Em entrevista a VEJA de sua casa em Portland, nos Estados Unidos, o artista fala sobre sua perspectiva, já que acompanha o assunto de perto. Ele também conta sobre Paying the Land, seu álbum mais recente, e um novo projeto envolvendo os Rolling Stones. A seguir, trechos da conversa.

O que significa para você esta reedição da Palestina?

Por um lado, fico feliz de saber que a editora está fazendo um grande esforço para republicar meu livro em um novo formato, em uma edição especial. Por outro lado, quase sinto pena, porque fica claro que essa questão em particular ainda persiste, o conflito palestino-israelense ainda está conosco, a ocupação ainda continua. E, infelizmente, acho que essa edição é necessária. Porque todos esses eventos estão em andamento. Não chegamos a uma conclusão que seja pacífica e não só para as pessoas que vivem lá. Feliz por ter uma nova edição, mas triste por ter uma necessidade para ela.

O que mudou desde que o livro foi publicado?

Terminei o livro por volta de 1995. As coisas pioraram muito com o tempo. O que esse livro faz pelo leitor é estabelecer uma base de coisas que ainda existem, mas agora de uma forma ainda mais extrema. Se era violento naquela época, é muito mais violento e brutal agora. Se casas foram demolidas naquela época, muito mais foram desde então e continuam a ser. Essas pessoas ainda estão sendo expulsas de suas casas. Não digo despejado porque parece que existe uma relação de propriedade. Eu digo expulso. O projeto colonial continua e se intensificou. E não vejo melhora com Naftali Bennett como primeiro-ministro. Suas políticas certamente não serão melhores do que as de Bibi Netanyahu. Portanto, não é um cenário promissor. No momento, é esperançoso que as pessoas ainda resistam à opressão.

Joe Sacco em evento literário em Viena
Jose Sacco em um evento sobre quadrinhos e jornalismo na Áustria, em 2020 – Literaturhaus Viena/Reprodução

E o governo palestino?

O governo palestino? Basicamente, é um braço das forças de segurança israelenses e se comporta dessa maneira. Não se opõe de maneira forte. Pode haver alguma retórica sobre o que Israel está fazendo. Mas, em última análise, eles estão no poder porque fazem algumas das operações de segurança para Israel. Seu principal domínio sobre o povo palestino são os salários. Muito do que financia os serviços públicos, polícia e segurança vem do exterior. E isso se torna uma parte importante da economia lá. Mas tem pouca utilidade em termos de oposição à ocupação.

Você revisita seus trabalhos com frequência?

Na verdade, depois que termino um livro, sinto vontade de seguir em frente. Muitas vezes, entre a conclusão de um trabalho e a impressão dele passam-se oito, nove meses. Já estou trabalhando em outra coisa. Então, só releio quando tenho que dar muitas entrevistas, ou não tenho mais certeza sobre o assunto e tenho que refrescar a memória. Mas não gosto de reler meus livros. Não estou dizendo que são ruins ou que não gosto deles. Simplesmente, não é necessário para mim. Apesar disso, o tópico da Palestina está sempre muito próximo do meu coração, eu ainda o sigo muito de perto nas notícias.

Desenho de Joe Sacco que reproduz uma cena da Faixa de Gaza
Recorte da página de abertura de um capítulo de Palestina que reproduz a Faixa de Gaza – Editora Veneta/Reprodução

Como um dos criadores do jornalismo em quadrinhos, você acha que esse gênero evoluiu?

Sempre houve uma ligação entre ilustração e jornalismo. Antigamente, artistas eram frequentemente enviados a campo para fazer desenhos nas revistas e jornais. É bom receber o crédito pela invenção de um gênero, mas mesmo no passado recente, para mim, havia pessoas fazendo algum tipo de trabalho jornalístico. Existem vários cartunistas agora, não apenas na América do Norte, mas também na América Latina e em outros lugares, que estão fazendo jornalismo e quadrinhos. Obviamente, o gênero cresceu, assim como os quadrinhos também cresceram como um todo. Portanto, muito desse jornalismo não é jornalismo imediato. Para mim, é uma forma mais lenta. E que permite uma certa profundidade, uma boa pesquisa, ir um pouco mais fundo. Acho que há cartunistas que fazem isso e são muito bons.

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Você lê quadrinhos? Quais são seus favoritos?

Do Brasil, conheço Fábio Moon e Gabriel Bá, gosto muito do trabalho deles. Há muitos cartunistas excelentes na América do Sul: Liniers, na Argentina, por exemplo. Visitei a América Latina várias vezes, fui a festivais e pude ver que há uma cena real. Muitos trabalhos excelentes estão sendo publicados. E há muitos grandes artistas trabalhando aí. Mas há dificuldades. Já é difícil o suficiente para viver na América do Norte na Europa como cartunista, mesmo se você estiver estabelecido. E imagino que seja muito difícil ganhar a vida como quadrinista na América Latina, também. De qualquer forma, é difícil ficar tanto tempo fazendo só quadrinhos. Sempre tem que dar aula ou fazer alguma outra coisa paralelamente.

Reprodução do caderno de rascunho de Joe Sacco para 'Palestina'
Reprodução do caderno de anotações e rascunhos de Joe Sacco para ‘Palestina’ – Editora Veneta/Reprodução

Recentemente, você lançou o Paying the Land, sobre o Canadá. Pode nos falar sobre o livro e como se relaciona com as recentes descobertas de cemitérios clandestinos nos terrenos de internatos que recebiam crianças indígenas?

Primeiro, queria fazer um livro sobre as mudanças climáticas, mas que não fosse diretamente sobre isso. Achei que seria interessante visitar algumas comunidades indígenas e conversar com elas sobre a extração de recursos. Minha ideia original era ir para três lugares diferentes, em três continentes. Pensei em começar com o Canadá, porque achei que seria uma abordagem fácil deste tópico em particular. E me enganei. Quando conversei com os indígenas sobre os recursos que estavam sendo extraídos de suas terras, percebi que havia um problema muito maior em jogo, o colonialismo. Então, o que seria uma pequena parte de uma série, uma espécie de olhar mais abrangente ou comparativo sobre os povos indígenas e a extração de recursos, tornou-se o foco central do trabalho. Quando o Canadá quis controlar a terra, eles tentaram quebrar a relação dos povos indígenas com ela. Muita gente morreu nesse processo, muitas crianças indígenas morreram – como estão descobrindo agora. A ideia era arrancá-los da terra. Depois, eles se tornaram assalariados. E os únicos empregos lá são com essas mineradoras. Agora, eles têm um relacionamento com a extração de recursos e dependem disso. É um problema muito complexo.

Como foram esses dois últimos anos, trabalhar na pandemia?

Sou o tipo de profissional que trabalha em casa. Provavelmente, sou uma das pessoas que você poderia dizer que foi menos afetada por isso. Quer dizer, eu peguei a Covid-19 logo no começo. Como muitas pessoas, me recuperei. Como todo mundo, não pude ver meus amigos por mais de um ano. São os efeitos normais que todo mundo experimenta quando está isolado. Como estou muito acostumado, trabalhei muito. Mas trabalho muito com ou sem pandemia.

Livro 'Palestina'
Edição especial de ‘Palestina‘, de Joe Sacco, lançado pela editora Veneta – Editora Veneta/Reprodução

Você pode falar um pouco sobre o que está fazendo agora?

Estou trabalhando em um projeto mais divertido sobre os Rolling Stones. Venho trabalhando nisso há muitos anos. Estava precisando de uma folga do jornalismo. Não consigo descrevê-lo porque é muito incomum. Agora, tenho outro projeto de jornalismo agora no qual estarei trabalhando em breve. E tem a ver com a Índia, sobre o conflito que existe no país entre hindus e muçulmanos.

E por que os Rollings Stones?

Porque, talvez, eles sejam a banda mais importante do mundo?

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