Como Zuenir Ventura desafiou as regras do jornalismo e se tornou um dos grandes escritores brasileiros
Autor de '1968' e 'Cidade Partida', morto nesta terça aos 95 anos, colocou o repórter dentro da história e mudou a forma de contar o Brasil
Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, 22, aos 95 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro. A morte foi confirmada pela família e pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Formado nas redações da imprensa tradicional, o Mestre Zu, como era conhecido pelos colegas, rompeu as fronteiras entre jornalismo e literatura e se tornou um dos grandes escritores do país, com uma narrativa marcada por lutas sociais, envolvente e afetuosa, sem abrir mão do rigor da apuração.
Seu livro mais conhecido, 1968: O Ano que Não Terminou, lançado em 1989, reconstrói um ano marcado pela repressão da ditadura militar, pelas transformações culturais e pela mobilização estudantil. Para isso, combinou pesquisa histórica, entrevistas e as próprias memórias. A obra vendeu mais de 400 mil exemplares e inspirou a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo.
Em 1989, passou um mês no Acre apurando o assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes para o Jornal do Brasil. A série de reportagens venceu os prêmios Esso e Vladimir Herzog e, anos depois, virou o livro Chico Mendes: Crime e Castigo (2003).
Em Cidade Partida (1994), escrito após a chacina de Vigário Geral, em 1993, ele se colocou no texto e expôs medos, dúvidas e impressões do período em que frequentou a favela. O livro ganhou o Prêmio Jabuti de reportagem.
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Natural de Além Paraíba, em Minas Gerais, Zuenir era filho de um pintor de parede e de uma dona de casa. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, onde ajudou o pai nas pinturas e trabalhou como office-boy. Na adolescência, ganhou uma bolsa no colégio em troca de dar aulas para o ensino primário e tomou gosto pelo magistério. Aos 20 anos, foi para o Rio de Janeiro cursar Letras Neolatinas na Universidade do Brasil, atual UFRJ. Foi professor na UFRJ e na UERJ. A entrada no jornalismo veio por acaso, como arquivista da Tribuna da Imprensa.
Entre outras obras, publicou Inveja: Mal Secreto (1998), Crônicas de um Fim de Século (1999) e o romance Sagrada Família (2012). Em Minhas Histórias dos Outros, reuniu momentos marcantes das seis décadas de carreira, relatando encontros com nomes como Nelson Rodrigues, Betinho, Hélio Pellegrino, Darcy Ribeiro e Glauber Rocha.
Eleito para a ABL em 2014, ocupava a cadeira 32, na sucessão de Ariano Suassuna. Em 2026, sua trajetória foi tema do documentário Mestre Zu, de Zelito Vianna. Deixa a esposa, Mary Ventura, os filhos, Mauro e Elisa, e dois netos, Alice e Eric.





