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Como surgiu a capa de disco do Mundo Livre S/A que irritou bolsonaristas

Vocalista Fred Zero Quatro falou a VEJA sobre a polêmica ilustração do novo álbum e sobre o legado dos 30 anos do mangue beat

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 27 jan 2022, 09h11 - Publicado em 25 jan 2022, 11h59

Uma das percursoras do movimento manguebeat, a banda pernambucana Mundo Livre S/A lançou na última quinta-feira, 20, seu novo álbum, Walking Dead Folia, com 11 letras críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro e também sobre sua condução errática da crise causada pela pandemia. Mas o que chamou mais a atenção foi a capa do trabalho, feita pelo artista Wendell Araújo. A imagem mostra uma pessoa dentro de um caixão, com uma maquiagem de palhaço e uma camiseta da seleção brasileira, com os dizeres “Sorria, Você Teve Alta!”, em referência à frase infame dita por um depoente na CPI da Covid-10: “Óbito também é alta”. Entre os foliões, as pessoas estão fazendo o gesto da arminha com os dedos e um boneco gigante de Olinda surge ao fundo com o rosto de Hitler e a faixa presidencial. 

O álbum contou ainda com a participação da cantora Doralyce e de Jorge Du Peixe (vocalista do Nação Zumbi) e sai pelo selo independente Estelita, de Pernambuco. O lançamento marca também os 30 anos de publicação do manifesto Caranguejos com Cérebro, escrito pelo vocalista do Mundo Livre S/A, Fred Zero Quatro. Em conversa por telefone com VEJA, Fred falou sobre a ideia da criação da capa e sobre o legado do mangue beat para a música brasileira. 

Capa do álbum 'Walking Dead Folia', da banda Mundo Livre S/A
Capa do álbum ‘Walking Dead Folia’, da banda Mundo Livre S/A – Wendell Araújo/Divulgação

Como surgiu a ideia da capa do novo álbum do Mundo Livre S/A? Minha ideia inicial era usar uma foto real de um caixão e um cadáver, mas a gravadora achou que seria muito pesado em plena pandemia. Daí, o pessoal do escritório veio com a ideia de fazer uma ilustração, nos moldes daquele cartaz polêmico do show do Dead Kennedys no Brasil (com uma família vestindo a camisa da seleção empunhando armas). Pensamos até em convidar o artista que fez aquele cartaz, mas preferimos chamar o Wendell Araújo. A imagem reflete a origem punk e psychobilly da banda. 

As referências políticas na capa são evidentes. Por que a banda assumiu esse posicionamento? Nossa trajetória e postura política sempre refletiram o compromisso com a realidade social. Na pandemia, era impossível ficar alheio a isso. O palhaço com maquiagem do Coringa, usando a camisa da seleção e a frase “Sorria, Você Teve Alta” faz referência aquela frase “óbito também é alta” sobre a abertura de vagas nas UTIs. Não tem como ficar alienado a isso, especialmente pelo nosso passado e pelo tipo de relacionamento e diálogo que temos com o público. Precisávamos participar desse debate. 

A ilustração da capa recebeu inúmeras críticas dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Como você encarou essas reações? Eu já imaginava que o grau de intensidade seria proporcional ao quanto essa imagem repercutiu em termos de furar as bolhas e alcançar as pessoas. Quando as primeiras manifestações da extrema-direita começaram a aparecer, foi um sinal claro de que essa imagem foi capaz de interferir efetivamente no debate nacional. E nada mais gratificante para um artista que saber que seu trabalho influi nele.

A capa é ambientada no Carnaval de Olinda. Como pernambucano, como você encara mais um ano sem a folia? Ela retrata o Carnaval underground das madrugadas de Olinda. Um dos blocos de lá passeia pelas ladeiras com um caixão para recolher algum folião que exagerou na bebida. Colocamos a pessoa no caixão e desfilamos com ela pela rua. É uma espécie de papa-defunto. O Carnaval underground de Recife e Olinda é muito conhecido, com o desfile do Homem da Meia-Noite e outras manifestações mais selvagens. A discussão do Carnaval deste ano é em relação às festas privadas. A festa na rua já foi cancelada. Mas não as festas nos camarotes, com shows e etc. Vai ser uma folia só para quem tem dinheiro e o povão não vai ter direito a brincar na rua. Ainda é uma discussão que está rolando. Talvez fosse possível criar ambientes controlados para o público. Quem não conhece o Carnaval de Recife não tem ideia de quanto ele movimenta de dinheiro na economia, como comércio informal. Algumas pessoas passam praticamente metade do ano com o que ganharam. 

Em 2022 completam-se 30 anos que você escreveu o manifesto Caranguejos com Cérebro, que marcou a criação do mangue beat. Como vê o legado do movimento para a música? Quando analiso o legado do movimento, eu gosto de me lembrar de um detalhe simples, mas que me marcou. Quando tocamos pela primeira vez em São Paulo, lá no início dos anos 1990, fomos a uma loja de instrumentos musicais. Na seção de percussão tinha tambor, bongô, bateria, cubana, surdo etc. para vender. Alguns meses depois que o movimento mangue beat estourou, percebemos que todas as lojas de instrumento de São Paulo e também do Brasil passaram a vender a alfaia (instrumento de percussão típico do maracatu), popularizada pelo Chico Science e Nação Zumbi. O mangue beat ainda hoje é uma influência nacional. 

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