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Como o pianista Melozin furou a bolha da música clássica no TikTok

Nathã Rodrigues de Melo usa as redes para popularizar a música clássica

Por Bárbara Bigas 4 jul 2026, 08h00
Como o pianista Melozin furou a bolha da música clássica no TikTok Priorizar nos meus resultados Google

Minha relação com o piano começou na infância, quando me encantei pela orquestra da igreja evangélica que minha avó frequenta. Ao notar meu interesse, ela me inscreveu em uma escolinha de música de uma amiga de lá, onde tive aulas de graça — a professora ainda me presenteou com um piano digital. Essa solidariedade me ajudou a ter acesso ao instrumento que mudou a minha vida. Aos 12, ganhei meu primeiro piano ao vencer um concurso da Yamaha tocando Os Pintinhos no Terreiro, de Zequinha de Abreu. Ali, minha família percebeu que eu queria viver dessa arte. Afinal, tinha um apego inexplicável pelo instrumento. Os anos se passaram, entrei na faculdade de música em uma universidade pública, mas tranquei o curso diante da falta de estrutura. Na época, eu já me questionava sobre como iria trabalhar nessa área. Foi então que criei uma espécie de portfólio em vídeos no Instagram e no TikTok.

No começo, eu basicamente tocava Beethoven, Chopin e outros compositores clássicos com a partitura passando por cima da imagem, um tipo de conteúdo muito consumido fora do Brasil. Até que, um dia, gravei um vídeo explicando para que serve o pedal do piano. O clipe bateu 2 milhões de visualizações. Diante disso, continuei gravando. Nunca cheguei a pensar que poderia viver disso, mas hoje, aos 22, sou sustentado pela minha influência nas redes sociais. Eu cresci muito rápido na internet e cheguei a 1 milhão de seguidores, talvez por fazer uma coisa nova e diferente. A música clássica não é superpopular entre as pessoas da minha geração — e quem produz esse tipo de conteúdo dificilmente sai do reduto de quem já gosta do estilo. Eu quis furar a bolha. Acredito que as pessoas não se interessam tanto pela música clássica porque o que chega até elas é muito pouco. Nos meus vídeos, tento mostrar como ela é interessante.

Trabalhar na internet me deu ainda liberdade para tocar o que eu quero: posso viver da arte e ser livre dentro dela. Tento aplicar essa liberdade aos meus vídeos, tocando desde Beethoven até jazz e pop. Existe por aí uma imagem de que o pianista é aquele que só ouve música clássica, não gosta de outros gêneros e que se veste de um jeito formal. Para mim, isso não existe. Eu gravo vídeos com o meu linguajar, uso a roupa que eu quiser e falo de um jeito que a galera me entende. Já recebi comentários dizendo que eu não tinha o brio exigido pelo erudito. Entendi que estavam falando da minha aparência. Fiz um vídeo questionando isso, que viralizou: como eu deveria ser para as pessoas acharem que eu toco piano? Deveria usar peruca branca e ser europeu? Quando veem um brasileiro da geração Z, que usa mullet, brinco e bigodinho, tocando Beethoven, acham diferente. Mas acredito também que existem aqueles que podem enxergar em mim uma referência e pensar: “Se ele toca piano, eu também posso tocar e ouvir música clássica”. Me alegro quando crianças comentam nas minhas publicações; às vezes elas se gravam tocando, postam e me marcam. Eu quero ser uma referência para uma geração que quer ter acesso à música clássica, a aulas de instrumentos e concertos. Torço para que isso vire moda.

Como criador de conteúdo, também entendo que tenho responsabilidades. Recentemente, publiquei um vídeo mais sério sobre depressão, pois acredito que é possível falar sobre assuntos pesados por meio da arte. Eu convivo com a depressão, faço tratamento e estou muito bem atualmente. A música me ajudou muito nesse sentido, por permitir que eu me expresse sem precisar dizer nada e por me fazer sentir abraçado. A música preenche espaços nas nossas emoções e na nossa vida.

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Nathã Rodrigues de Melo em depoimento a Bárbara Bigas

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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