Como Margo Está em Apuros e Euphoria abordam o OnlyFans — mas escondem seu lado obscuro
Séries abordam o tema sem se aprofundar no lado obscuro da pornografia virtual
Aspirante a escritora, Margô (Elle Fanning), aos 19 anos, engravida do professor casado. Ao optar por manter a gravidez sem o apoio dele, ela abandona a faculdade e se vira para sustentar a criança. A situação que já não era boa piora com os percalços de ser mãe solo: Margô é demitida do trabalho de garçonete, por não conseguir conciliar a maternidade e o expediente, e fica com um aluguel caríssimo quando as colegas de casa se mudam, incomodadas com o choro do bebê. A sequência de dramas é o ponto de partida de Margô Está em Apuros, série de humor ácido que acaba de chegar na Apple TV, com episódios semanais às quartas-feiras.
Desesperada e sem um tostão, ela vê uma saída teoricamente fácil no OnlyFans, plataforma de conteúdo adulto independente, na qual homens e mulheres vendem fotos e vídeos sensuais e topam desafios, por vezes inofensivos (algumas vezes, nem tanto). Inicialmente, Margô encara com inocência o novo trabalho: avaliar fotos de genitálias masculinas, comparando-as com Pokémons, enquanto vende alguns nudes por 20 dólares, não é assim tão difícil. Com o tempo, o trabalho alternativo se torna uma dor de cabeça, especialmente pelo julgamento moral vindo de amigos, familiares e até de seu próprio pai, que foi ausente em sua infância.
Baseada no livro de mesmo nome da autora Rufi Thorpe, que mergulhou no submundo do OnlyFans entrevistando diversas garotas que atuam no aplicativo, a série parte do trabalho de profissionais do sexo para falar sobre os desafios da maternidade e os sacrifícios que as mulheres, principalmente, fazem pelos filhos. Na trama, a mãe de Margô, Shyanne (Michelle Pfeiffer), também foi mãe solo e chegou a trabalhar no Hooters — restaurante cujas garçonetes usam uniformes minúsculos para atrair clientes. “Há muita culpa em não conseguir dar a um filho a vida que ele merece”, analisa Michelle Pfeiffer em entrevista a VEJA. “A Margô vê os sonhos sendo desperdiçados e acaba fazendo escolhas questionáveis.”
O OnlyFans também é assunto dentro da nova temporada de Euphoria, da HBO Max: na trama, a superficial Cassie (Sydney Sweeney) adere ao site, matando dois coelhos com uma cajadada só: de um lado, ela busca bancar um casamento luxuoso; de outro, encontra ali um modo de expor sua vaidade desmedida. A exemplo do que ocorre em Margô Está em Apuros, a série Euphoria não se aprofunda muito no universo dos aplicativos de conteúdo adulto. Na ficção, até agora, pouco se explorou de forma crítica o impacto do OnlyFans na cultura pornográfica virtual e na saúde mental de seus influenciadores e usuários.
A plataforma, que começou como um meio de postar conteúdo exclusivo e sensual, virou um negócio gigantesco: movimentou 7,2 bilhões de dólares em 2025. Nos últimos anos, dentro da lógica de que é preciso ir mais longe para atrair cliques, entrou no campo dos excessos típicos das redes sociais. No YouTube, um documentário perturbador expõe o lado obscuro da empresa. Intitulado I Slept With 100 Men in One Day (Dormi com 100 Homens em Um Dia, em português), o filme segue a inglesa Lily Phillips, de 24 anos, que cumpriu o desafio anunciado em seu perfil no OnlyFans. Ao fim, aparentemente feliz com o resultado, ela não consegue segurar as lágrimas. “Isso não é para garotas fracas. Eu não recomendo”, diz ela, que faturou em torno de 400 000 dólares com a maratona ao aumentar sua base de assinantes no site. Na nova série da Apple TV, a protagonista Margô, sob a pressão de elevar o rendimento, passa a postar nudes com figurinos mais elaborados e faz parceria com mulheres populares na plataforma, sem refletir sobre como perde um pouco de si e de seus sonhos no processo. Na era do OnlyFans, toda nudez será postada, custe o que custar.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991







