Como ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’, que faz 40 anos, mudou os quadrinhos de super-heróis
No Brasil, a obra chegaria às bancas em 1987, publicada pela Editora Abril
A primeira aparição do Batman ocorreu na revista Detective Comics número 27, que chegou às bancas americanas oficialmente em 30 de março de 1939 — apesar de ter na capa data de maio daquele ano. Criado por Bob Kane e Bill Finger, o Homem-Morcego original não carregava o cinto de utilidades, mas portava armas de fogo e matava ou mutilava os criminosos sem remorso. Na primeira história, “O caso da sociedade química”, até joga um desses malfeitores dentro de um tanque de ácido.
Quase 50 anos depois, a percepção geral era muito ligada ao tom leve, humorístico e caricato da série de TV dos anos 1960 estrelada por Adam West. A minissérie em quatro edições Batman: The Dark Knight Returns (no Brasil, Batman: O Cavaleiro das Trevas), lançada em 1986, nos Estados Unidos, resgatou o tom extremamente sombrio e violento das primeiras aventuras. Escrita e desenhada por Frank Miller, com arte-final de Klaus Janson e cores de Lynn Varley, a obra que completa 40 anos tornou-se um dos marcos mais importantes da história dos quadrinhos.
Na trama, Bruce Wayne tem 55 anos e está aposentado do combate ao crime há uma década. Ele decide retornar à ativa para enfrentar uma crescente onda de violência urbana alimentada por gangues violentas. Ao voltar, o herói precisa lidar com a perseguição implacável da polícia e da mídia, além de enfrentar o Super-Homem, que se tornou um agente secreto submisso ao governo de Ronald Reagan. Esse novo padrão dramático ditaria quase todas as versões dali em diante.
A história apresenta várias quebras de tabu. Ao apresentar a adolescente Carrie Kelley como a nova Robin, Miller introduziu a primeira parceira feminina a vestir o manto de forma contínua, abrindo novos potenciais narrativos de proteção e paternidade para Bruce Wayne, o que acabou ecoando em redefinições futuras do papel dos Robins.
Por outro lado, a narrativa abriu a porta para interpretações exageradas. De um detetive que ajuda a polícia, Batman se transforma em um vigilante brutal que toma a justiça com as próprias mãos. Isso gerou um debate sobre as condutas reacionárias ou “fascistas” do herói quando levadas ao limite. Não por acaso, a cena em que o herói monta a cavalo e declara, “Esta noite, eu sou a lei”, para conter os saques e o caos em Gotham, virou um meme.
Originalmente, a minissérie de quatro edições se insere como um conto de realidade alternativa, sendo considerada o primeiro grande Elseworld, publicada no Brasil pela Editora Abril em 1987 como Batman: O Cavaleiro das Trevas, sob o selo “Túnel do Tempo”. Ela não faz parte da continuidade linear e regular da época, pois se passa em uma Gotham City futurista e distópica — posteriormente catalogada como Terra-31.
Marcelo Alencar, editor de quadrinhos e um dos sócios do Studio 313 Comics, trabalhou em uma das versões subsequentes do título na Editora Abril. Ele conta que estava no último ano da faculdade de jornalismo, e já havia decidido trabalhar com quadrinhos, quando viu na banca o gibi com um Morcegão diferente na capa. “Aquilo merecia ser apreciado como a boa literatura, atenta e cuidadosamente”, disse ele à VEJA. “E algo me dizia que revolucionaria o jeito de contar HQs. No ano seguinte, fui contratado como editor pela editora, que havia criado uma redação de quadrinhos Adultos exclusivamente para surfar o tsunami proporcionado por Frank Miller.” O resto é história.
Junto com Watchmen, de Alan Moore, O Cavaleiro das Trevas foi a obra responsável por consolidar o início da Era Moderna dos quadrinhos (frequentemente associada ao fim da Era de Bronze). O título provou ao mercado editorial e à crítica que histórias de super-heróis podiam ser consumidas e analisadas como literatura adulta e, em certa medida, séria.







