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Com sucesso de ‘Fina Estampa’ e futebol, velharias mostram seu valor na TV

Apelando para o escapismo e a nostalgia, a Globo atesta a força das reprises em tempos de pandemia

Por Eduardo F. Filho, Marcelo Marthe Atualizado em 17 abr 2020, 09h44 - Publicado em 17 abr 2020, 06h00

Quando a Globo anunciou a inédita suspensão das gravações de suas novelas em virtude do coronavírus, em 16 de março, não foram só os espectadores que tiveram surpresas. Ao saber que a reprise de Fina Estampa substituiria Amor de Mãe no horário das 9, o intérprete de um tipo popular da trama de 2011 — o mordomo gay Crô — tomou um susto. “Eu fiquei sabendo como a maioria dos brasileiros, pelas chamadas da Globo”, contou o ator Marcelo Serrado a VEJA (leia a entrevista abaixo). Após a perplexidade, veio a satisfação: Serrado pôde curtir a volta triunfal de Crô, cujos trejeitos e bordões estão de novo na ordem do dia, de modo inusual para uma estrela de TV. “Meus filhos estão vendo a novela comigo. Isso não tem preço”, diz.

Transcorrido um mês da guinada radical na grade, já dá para detectar outro foco de satisfação: a cúpula da emissora. A estratégia de combinar onze horas diárias de jornalismo com reprises de velhos sucessos resultou em uma liderança geral no ibope como a emissora não via fazia tempo, na casa dos 18 pontos — mais que a soma das rivais. O que parecia uma hecatombe na programação revelou-se um trunfo. Além das novelas, a Globo descobriu um campo imenso a explorar na área do esporte. Com a seca de futebol na TV, o espectador ficou carente de opções — não à toa, a reprise da final do pentacampeonato da Copa de 2002, quando o Brasil derrotou os alemães por 2 a 0, rendeu audiência maior que a obtida com atrações inéditas no domingão de Páscoa. O futebol requentado, claro, não sairá do ar tão cedo.

  • Antes de colherem esses frutos, os executivos da Globo viveram dias tensos. “Nunca tinha visto algo parecido na televisão, só em filme de ficção científica”, diz Silvio de Abreu, diretor-geral de dramaturgia da Globo. A seleção das reprises foi feita de última hora. “Tomamos a decisão de mudar numa quinta-feira. Em três dias, até o domingo 15, tivemos de bater o martelo sobre quais novelas seriam reprisadas”, afirma Amauri Soares, diretor da central de programação da emissora. A Globo não confirma, mas sabe-se que até o minuto final havia três candidatas à faixa das 9, horário de maior audiência da televisão: fora Fina Estampa, estavam no páreo Amor à Vida (2013), de Walcyr Carrasco, e A Força do Querer (2017), de Gloria Perez. A trama de Aguinaldo Silva prevaleceu por ser a mais antiga e conter ingredientes úteis diante do baixo-astral do coronavírus.

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    A ideia era oferecer uma dose extra de escapismo às massas. Além da realidade difícil, o momento impunha outro desafio: na quarentena, pais, filhos e avós passaram a conviver dentro de casa por mais tempo. E isso afeta o modo como as pessoas consomem TV. “A família está mais que nunca sentada junta na sala”, lembra Soares. Fina Estampa casou bem com o contexto atual: tem trama leve e personagens marcantes como Crô e a Pereirão de Lilia Cabral. “A novela tinha o que acreditávamos ideal para exibir em uma pandemia cruel”, diz Abreu.

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    Enquanto as reprises em outras faixas não decepcionam, mas também não são lá uma Brastemp, Fina Estampa obteve um feito maroto: foi a melhor estreia das 9 em muito tempo. Mantém, até agora, um ibope no patamar dos 35 pontos — número superior à média geral de sua antecessora, Amor de Mãe. Isso tem a ver com os apelos óbvios da nostalgia e da leveza da narrativa, mas também expõe duas verdades menos óbvias. A primeira delas é o fato de que há mais aparelhos ligados — traduzindo: as pessoas estão vendo mais TV por não poder sair de casa. Mas o charme da panela velha reside também na comparação com Amor de Mãe: a história de Manuela Dias tocava em assuntos importantes, como a violência doméstica e o racismo, porém sua estridência engajada às vezes cansava. Ironicamente, a novela sofreu uma pausa abrupta bem na semana em que escancarava uma correção de rota folhetinesca que finalmente fez seu ibope deslanchar — a conversão da personagem de Adriana Esteves em uma vilã à la Carminha. No que isso vai dar? Fica para a próxima temporada, depois da pandemia.

    Publicado em VEJA de 22 de abril de 2020, edição nº 2683

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