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Com rosas amarelas, fãs dão adeus a García Márquez

Palácio de Bellas Artes, na Cidade do México, recebeu a urna com cinzas do escritor às 16h14. Uma multidão compareceu para prestar homenagem

Por Talita Fernandes, da Cidade do México 21 abr 2014, 22h08

O Palácio de Bellas Artes, no centro da Cidade do México, foi tomado nesta segunda-feira por flores amarelas que despontavam entre a multidão aglomerada em frente ao principal prédio cultural da capital mexicana. Todos queriam prestar sua última homenagem ao escritor colombiano Gabriel García Márquez, morto na última quinta-feira.

Adornado com seis arranjos de rosas amarelas espalhados ao longo das duas escadas que compõem o salão principal, o prédio recebeu as cinzas do escritor às 16h14, quando uma urna foi colocada no centro do local onde foram prestadas as homenagens. Ao fundo, um cartaz trazia um retrato em preto e branco do escritor e uma frase de sua autoria. “La vida no és lo que uno vivió sino lo que recuerda y como recuerda para contarla”, traduzida para o português como “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. Ao fim, a emblemática composição de nomes e datas: Gabriel García Márquez, 1927-2014.

A cerimônia foi embalada por música clássica ao vivo, entoada por violoncelos e violinos. Entre os temas foi tocada a canção Macondo, de Óscar Chávez, feita em referência ao povo fictício apresentado por Márquez em sua obra-prima, Cem Anos de Solidão. A mesma obra que trazia suas famosas borboletas amarelas, cor que se tornou uma alusão direta ao escritor, que vez ou outra aparecia com uma rosa amarela na lapela. Alguns dos convidados, aliás, vestiam gravatas na cor.

O palácio foi ocupado por convidados da família e uma multidão de fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas de todo o mundo. As cinzas foram recebidas com aplausos e, logo atrás da urna, a viúva Mercedes Barcha e os dois filhos do escritor, os cineastas Rodrigo e Gonzalo García Barcha, se posicionaram para receber as condolências.

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O público entrava aos poucos e tinham alguns segundos para deixar sua homenagem e tirar uma foto de recordação. De crianças a idosos, os fãs variados traziam, além das famosas flores amarelas, bandeiras da Colômbia, terra natal do escritor. Três músicos entraram no prédio carregando uma flauta, um instrumento de percussão e uma sanfona que foram usados para entoar um vallenato, ritmo popular do caribe colombiano, apreciado por Márquez.

Marcado para as 16 horas (18 horas de Brasília), a fila de pessoas começou a se formar em frente ao Bellas Artes já pela manhã. A mesma organização tiveram os oficiais do estado maior, responsáveis pela segurança dos políticos e familiares presentes, que se aparelharam ao redor do prédio.

Autoridades – Os presidentes do México, Enrique Peña Nieto, e da Colômbia, Juan Manuel Santos, chegaram ao Palácio de Bellas Artes acompanhados de suas mulheres por volta das 20 horas. Santos discursou primeiro. Lembrou que o local é apropriado para homenagear a García Márquez por abrigar murais de grandes mexicanos como Orozco, Tamayo, Siqueiros e Rivera. “Eu e Peña Nieto nos unimos em uma cerimônia de afeto porque Gabo era um homem de afetos”, disse.”É um privilégio e digo em nome de todos os colombianos, me dizer um compatriota do homem que imaginou Macondo e que escreveu sobre o amor”, completou.

Peña Nieto enfatizou o fato de Garcia Marquez ter escolhido o México como sua nação. Lembrou ainda que o escritor chegou ao pais em 1961 e permaneceu até o final de sua vida, terra onde nasceu o segundo filho e onde escreveu boa parte de suas obras. “Para alegria e honra nosso homenageado escreveu em nossa terra o livro pelo qual ficou mundialmente conhecido”, disse. “Despedimos com a alegria de sua vida e de seus livros”, comentou.

O Bellas Artes é a sede do teatro folclórico do México e foi criado em 1934 para fomentar a produção artística local. Com arquitetura em estilo francês, o prédio tem seu interior revestido de mármore e granito e abriga obras de importantes artistas mexicanos como Diego Rivera, Rufino Tamayo, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros. Além de García Márquez, o prédio já sediou homenagens a outros nomes da literatura, como o mexicano Carlos Fuentes, morto em 2012 e com quem Gabo escreveu um roteiro de cinema.

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