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Com ‘Acampamento Miasma’, Gillian Anderson e Hannah Einbinder defendem cinema sem pudor

Em entrevista a VEJA, atrizes destrincham o filme que traça paralelos entre terror, sexo e identidades LGBT+

Por Thiago Gelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 ago 2026, 09h00
Com ‘Acampamento Miasma’, Gillian Anderson e Hannah Einbinder defendem cinema sem pudor Priorizar nos meus resultados Google

É como acontece com qualquer franquia do gênero, de Sexta-Feira 13 até A Hora do Pesadelo — quase meio século após estrear e apavorar o público dos anos 1980, a franquia fictícia Acampamento Miasma coleciona sequências, está defasada e é criticada segundo a bússola moral contemporânea, que aponta problemáticas em sua representação das personagens femininas e de um assassino que pode ser interpretado como transgênero. Na comédia de terror Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Mortecabe à cineasta independente Kris Williams (Hannah Einbinder) restaurar a tal saga segundo os ditames modernos, com uma perspectiva que transforme as peripécias de um serial killer apelidado “Pequena Morte” em uma trama de empoderamento LGBT+. Para tal, contudo, ela se dá a missão de convencer a atriz do filme original a voltar aos holofotes — grande desafio, considerando que a estrela Billy Presley (Gillian Anderson) vive reclusa dentro do acampamento abandonado que foi cenário para o clássico.

A partir do primeiro encontro entre ambas, os planos vão aos ares de vez — e o que poderia ser um mero enredo metalinguístico se torna um divertidíssimo e irreverente romance, dentro do qual a jovem cineasta é levada a deixar de lado a frigidez e o intelecto exacerbado, para assim aprender a uma lição indiscreta que Marta Suplicy deu ao Brasil anos antes: “Relaxa e goza”.

No Festival de Cannes, em maio, a produção inusitada estimulou nove minutos de aplauso e ainda levou a Palma Queer, voltada para os filmes de temática LGBT+ da seleção. Desde então, vem alimentando as expectativas de um nicho fiel na internet, onde Jane Schoenbrun — cineasta de gênero não-binário, 39 anos — inspira admiração comparável aos maiores nomes da indústria. Em entrevista a VEJA, as estrelas Hannah Einbinder e Gillian Anderson detalham os bastidores e os significados da produção:

Jane Schoenbrun é muito particular quanto à construção de seus filmes. Como foi mergulhar no universo de Acampamento Miasma

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Gillian: Foi razoavelmente fácil, quase sem esforço. Os cenários eram extraordinários, e a caracterização realmente faz diferença na imersão para mim. Jane recebeu com braços abertos minha ideia de fazer um sotaque sulista. 

Hannah: Digo o mesmo, mas acrescento que eu e Jane tivemos conversas profundas, vulneráveis e detalhadas sobre nossas vidas pessoais, o que as personagens estavam atravessando e o que o filme queria discutir. Dessa forma, consegui mergulhar na essência do roteiro e transmitir aquilo que estava sendo pedido de mim. 

Duas mulheres, uma morena e uma loira, com roupas e corpos cobertos de sangue, caminham em um cenário de pintura com montanhas, floresta e lago, sob um céu alaranjado
Encharcadas de sangue, personagens selam romance fantástico em filme de terror (Mubi/Divulgação)
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Como é entrar para o panteão de sobreviventes do terror? 

Gillian: Talvez a Scully de Arquivo X conte até certo ponto, mas realmente é como estar dentro de um novo panteão. Me sinto muito orgulhosa e honrada. 

Hannah: É demais poder ser uma final girl de forma tão alegre e radical, que se apropria das qualidades desse arquétipo ao mesmo tempo em que repõe dignidade, autonomia e orgulho sobre ele.

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O filme observa como membros da comunidade LGBT+ tendem a se enxergar em personagens mesmo quando eles carregam cacoetes problemáticos, ou sequer foram criados com essa intenção. Gillian, o quanto já havia entrado em contato com essa temática?

Gillian: Jane permitiu que eu pensasse no assunto mais do que nunca. Reconheci o elemento transfóbico [na forma como Buffalo Bill é retratado] quando primeiro vi O Silêncio dos Inocentes, e depois li alguns artigos sobre isso, mas nunca fui além. Até trabalhar neste filme, havia pensado mais em como o cinema pode ser misógino. De muitas formas, Miasma foi um aprendizado. É fácil ficar preso na própria rotina, com suas próprias preocupações. Trabalhando com Jane, minha mente expandiu e pude apreciar o gênero sob outra perspectiva.

Homem de cabelos loiros e volumosos, sem camisa, usando um casaco colorido e colares, olha para frente. Ao fundo, manequins com roupas extravagantes e um espelho oval refletindo um ambiente com luzes e uma luminária de chão
Ted Levine como o assassino Buffalo Bill, que se veste de mulher em ‘O Silêncio dos Inocentes’ (//Reprodução)
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Hannah, algum filme exerceu efeito similar sobre você enquanto crescia?

Hannah: É definitivamente verdade — e observo isso especialmente entre pessoas queer atraídas por mulheres — que temos uma tendência a decodificar personagens se figuras explicitamente queer estão ausentes em uma trama. Para mim, os filmes que me fizeram caçar por indícios de algo além foram as comédias adolescentes As Apimentadas, sobre líderes de torcida, e Virada Radical, sobre uma ginasta. É engraçado falar deles, mas acho que aquelas personagens realmente tinham um quê lésbico. Virei líder de torcida por conta de As Apimentadas. Primeiro, achava que só curtia o esporte. Depois me toquei que também tinha um motivo gay, claro. 

O cinema independente permite certas liberdades inexistentes nos arrasa-quarteirões. Apoiá-lo é uma prioridade para vocês?

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Hannah: Filmes independentes e histórias originais são o que importa. No caso de um filme de terror, acredito que o gênero permite que muito mais pessoas se conectem à história, especialmente pessoas queer que já se sentiram ostracizadas pela sociedade, ou consideradas monstruosas de certa forma. Esse espaço nos permite abraçar a alienação que nos foi imposta e subvertê-la. Além disso, quando um filme é independente, artistas conseguem manter maior controle criativo e executar o que pretendem. 

Gillian: Concordo com tudo que Hannah disse. 

Acampamento Miasma satiriza franquias que foram levadas ao esgotamento criativo por sequências infindáveis. Por que acreditam que esse fenômeno ocorra? 

Hannah: Na maior parte dos casos, estúdios querem revitalizar propriedades intelectuais que já possuem. A decisão é simples e, vez ou outra, leva a algo bacana e divertido. Na maior parte do tempo, é só dinheiro fácil. Isso não seria um problema se não suprimisse o espaço para tramas originais. 

Gillian: E eles também querem alguma garantia de sucesso. É muito difícil despontar e fazer a diferença hoje em dia. Estúdios que possuem propriedade intelectual consolidada podem contar com um público cativo, em vez de se esforçar para construir algo do zero. Essa é uma verdadeira moeda de troca em Hollywood e entendo o porquê. Ao mesmo tempo, espero que este momento mostre que cineastas independentes estão na vanguarda, criando conteúdo que é diferente, único e tão valioso quanto uma sequência, para que um equilíbrio seja estabelecido entre os dois filões. 

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