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Clássicos embalam show engajado de Morrissey em SP

Hits de quase 30 anos de carreira solo, além de canções dos Smiths, marcaram a volta do cantor britânico ao país

Por Luís Lima 18 nov 2015, 08h17

O ex-vocalista dos Smiths, Steven Patrick Morrissey, de 56 anos, vai muito bem, obrigado, para quem superou há menos de um ano um câncer no esôfago. Devido a complicações causadas pela doença, o cantor britânico cancelou diversas apresentações pelo mundo, inclusive uma turnê que faria no Brasil em 2013. Fora de perigo, Moz, como é chamado pelos fãs, remarcou seus shows no país e apresentou ao público brasileiro, nesta terça-feira, pela primeira vez, a sua mais recente tour, de divulgação de seu 15º álbum de estúdio, World Peace Is None of Your Business. Em ótima forma — física e vocal –, o cantor conquistou o público do Teatro Renault, em São Paulo, com as canções engajadas de seu novo disco, que criticam da política à violência animal. Mas os pontos altos do show — com era de se esperar — ficaram mesmo com os clássicos dos Smiths, que fizeram a plateia vibrar, e também de sua carreira solo, de quase 30 anos.

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Foi justamente um clássico que Morrissey escolheu para abrir o show: Suedehead, hit de seu primeiro trabalho solo, de 1988, conhecido pelo refrão em que o cantor repete I’m so sorry. Já nos primeiros acordes, o público se levantou e pareceu perdoar, no ato, os 30 minutos de atraso do cantor, para acompanhar Moz dos primeiros aos últimos versos, em um grande coro. Dois “hinos” consagrados na voz do cantor vieram na sequência: Alma Matters e This Charming Man, esta última dos Smiths. Outras canções potentes, que fizeram com que a plateia permanecesse de pé, foram How Soon Is Now, Every Day is Like Sunday e First of the Gang to Die.

Bastante à vontade, entre uma música e outra Moz estendia a mão para a plateia. No meio do show, ele autografou o LP de um fã e chegou a tirar e atirar um de seus blazers ao público – atitudes bem mais rock’n’roll do que os famigerados e já manjados selfies. Outro ponto positivo foi a acústica do Teatro Renault: de certa forma, ela compensou a formalidade do local, que, a priori, deveria abrigar shows “intimistas”, o que, de longe, não aconteceu.

A apresentação também foi marcada por diversas canções de protesto. A mais explícita, Meat Is Murder, faz um apelo contra a indústria da carne e termina com uma projeção ao fundo do palco em claro e bom português: “Qual a sua desculpa agora? Carne é assassinato”. Do novo CD, ele entoou The Bullfight Dies, manifesto contra as touradas na Espanha. “Sempre é tempo de falar da vergonha da Espanha”, disparou do palco, antes de começar a cantar.

Mais sutil e irônica, a música que dá nome ao novo álbum, World Peace Is None of your Business, foi inspirada nos levantes da Primavera Árabe e também nos protestos no Brasil de 2013. O país é, inclusive, citado na canção, e também no show, o que levou o público ao delírio. A crítica aos interesses particulares do Estado e do uso desproporcional da força da polícia é reforçada por Ganglord. Já a doce I’m Throwing My Arms around Paris ganhou outro significado, devido aos ataques terroristas da última sexta-feira, que deixaram 129 mortos na capital francesa.

Como em se tratando de Morrissey, controvérsia pouca é bobagem, em dado momento ele consultou a opinião da plateia a respeito do Fantástico, dominical jornalístico da TV Globo, que o teria procurado para uma entrevista. Em meio a vaias e insultos ao programa, ele concluiu: “Acho que só uma ou duas pessoas vão gostar (da entrevista)“. Em outras referências ao público, Moz exaltou a beleza do Brasil e do povo brasileiro, antes de dizer que em outras nações há muitos problemas e que a Terra é o planeta mais solitário que existe, frase que embalou a canção Earth Is the Loneliest Planet.

Em pouco mais de uma hora e meia, Moz apresentou, sem cansar, um total de 22 canções. Entre outras músicas, fez cover de Elvis Presley, em You’ll Be Gone, sensualizou na sugestiva Kiss me a Lot e emocionou com You’ve Killed me. Como fio condutor, o rock vigoroso, bem executado por sua afinada banda, aliado ao vocal melancólico. Após terminar o show, ele deixou o palco sem cantar um de seus mais conhecidos sucessos: The Queen Is Dead. Em poucos minutos, retornou e entregou ao público a música que faltava, mostrando que, se a rainha está morta, ele está vivíssimo. A turnê ainda terá mais três datas (outra em São Paulo, dia 21; no Rio de Janeiro, dia 25 e Brasília, dia 29). Sem contrato com gravadora e sem convites para novas apresentações, esta poderá ser a última visita ao país antes de uma pausa prolongada em sua carreira.

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