Cixin Liu, o autor futurista chinês que conquistou Barack Obama e a Netflix
Ele fala com exclusividade a VEJA sobre a arte de escrever ficção científica
Em abril de 1970, na província chinesa de Shanxi, um menino de 7 anos olhou para o alto para ver o Dong Fang Hong I, o primeiro satélite artificial da China, cruzar o céu noturno. Aquele ponto de luz em movimento foi como um despertar cósmico. Hoje, aquele garoto, Cixin Liu, 63 anos, é celebrado como o maior nome da ficção científica chinesa contemporânea — e um dos mais relevantes do mundo. Ex-engenheiro de computação, Liu se tornou um fenômeno global, elogiado por Barack Obama e adaptado pela Netflix na série O Problema dos Três Corpos — que tem uma segunda temporada a caminho. O lançamento no Brasil de sua coletânea de contos Terra à Deriva reforça esse status e convida o leitor a mergulhar numa imaginação comparável à de mestres do gênero, como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke.
O que distingue Liu é a forma como funde rigor científico — mecânica orbital, física quântica, nanotecnologia — e uma perspectiva fortemente ligada à história e à cultura chinesa. No conto que dá nome à coletânea — adaptado em um filme homônimo em 2019 —, o Sol envelhecido se torna uma ameaça à vida humana, que precisa escapar da Terra. Em vez de evacuar a população em naves, a humanidade constrói 12 000 turbinas para arrastar o planeta rumo a outra estrela. “Essa escolha reflete o profundo ‘apego ao lar’ da cultura chinesa”, diz Liu em entrevista a VEJA (leia no quadro abaixo). Enquanto a ficção ocidental celebra quem deixa a casa para trás, a sensibilidade oriental prefere levá-la consigo.
Já no conto Sol da China, a escala cósmica ganha contornos sociais e poéticos ao acompanhar um limpador de janelas que trabalha na manutenção de um espelho refletor orbital gigantesco, concebido para controlar o clima do planeta. Nessas histórias, a ciência e a tecnologia em escala astronômica funcionam tanto como vetores de progresso quanto de assombro, mas é sempre a determinação do indivíduo comum diante de forças incompreensíveis que dita a narrativa.
O mesmo se vê em sua obra-prima, a trilogia iniciada em 2006 com O Problema dos Três Corpos — seguido por A Floresta Sombria e O Fim da Morte. A saga começa no tumulto da Revolução Cultural, em 1967. O espancamento público de um professor de física pela Guarda Vermelha testemunhado por sua filha é o eixo dramático da trama: a tristeza a leva a transmitir as coordenadas da Terra a uma civilização alienígena, na esperança de que uma força externa salve a humanidade de sua crueldade. O arco ecoa a própria infância de Liu: nascido em 1963, ele viveu a instabilidade daquele período, que dissolveu esperanças políticas ingênuas.
A trama foi a única a irritar o governo chinês: os censores não deixaram o livro passar intocado — Liu foi obrigado a diluir o capítulo de abertura no meio do romance. Foi só na tradução para o inglês, feita por Ken Liu, que a cena da violência na revolução voltou à posição original, abrindo o livro. Apesar do episódio, a relação do autor com o governo totalitário de seu país, onde ainda reside, é cordial. Hoje, seus receios estão mais ligados à evolução das inteligências artificiais — como os supercomputadores descritos por ele na trilogia, que espionam a humanidade. Para além da vigilância, ele teme a desvalorização da criatividade. Livros como o monumental Ulisses, de James Joyce, valem pelo esforço humano que carregam. Paralelo possível com o autor chinês: enquanto confronta o leitor com sua insignificância cósmica, Liu vê no impulso de proteger o lar e as relações a mais bela odisseia do universo.
“A IA ameaça a literatura”
O senhor começou tecendo contos antes de romances. Foi uma forma de ganhar musculatura na escrita? Eu escrevia contos porque o mercado editorial chinês da época não comportava romances. Mas para a ficção científica épica o romance é indispensável, pois construir mundos imaginados exige muito espaço descritivo para estabelecer sua própria lógica.
Em Terra à Deriva, diante de uma ameaça, seus personagens optam por mover o planeta em vez de evacuá-lo. Por quê? Fisicamente é irracional, mas tem imenso valor estético. Reflete o profundo “apego ao lar” (jiayuán qíngjié) da cultura chinesa. Ao contrário da tradição ocidental, a sensibilidade oriental prefere levar sua casa e raízes consigo, mesmo cruzando o cosmos congelante.
Enviar coordenadas terrestres ao espaço, como é feito em O Problema dos Três Corpos, é um ato de irresponsabilidade? Sim, o bom senso básico ensina a não falar com estranhos nem abrir a porta à noite. A cautela é real. A Academia Internacional de Astronáutica já proíbe transmissões ativas de sinais sem ampla consulta.
A inteligência artificial generativa é uma ameaça à literatura? O perigo real não é a substituição, mas a desvalorização. A IA ameaça a literatura, pois clássicos humanos valem pelo esforço e sofrimento de quem os criou. Se uma IA gerar obras complexas em segundos, a arte perderá sua aura sagrada e grande prestígio para leitores e críticos. Espero que não aconteça.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012





