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Cannes: oscarizado, Farhadi discute culpa e verdade

'Le Passé', novo filme do diretor iraniano de 'A Separação', foi recebido com calorosos aplausos em sessão para a imprensa nesta sexta-feira

Por Mariane Morisawa, de Cannes Atualizado em 10 dez 2018, 10h02 - Publicado em 17 Maio 2013, 12h25

A boa largada da competição do 66º Festival de Cannes, com o mexicano Heli, de Amat Escalante, e o francês Jeune et Jolie, de François Ozon, ganhou ainda mais força com a exibição dos dois filmes seguintes: o chinês Tian Zhu Ding (ou A Touch of Sin, um pouco de pecado, na tradução literal do inglês), de Jia Zhangke, e o francês Le Passé (“o passado”, na tradução literal do francês), dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi, vencedor do Urso de Ouro e do Oscar de produção estrangeira em 2012 com A Separação.

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Le Passé, que tem sessão oficial nesta sexta-feira, teve exibição para jornalistas pela manhã e foi recebido com calorosos aplausos. Uma separação, novamente, é a catalisadora de um processo de discussão da culpa e revelação da verdade dentro de uma família – se bem que seria melhor dizer verdades no plural. Desta vez, a ação não acontece no Irã, mas na França, segundo o diretor, por uma mera questão de roteiro. “Claro que sou iraniano. Vou continuar trabalhando da mesma maneira, não mudo de acordo com o país em que trabalho. Só o cenário muda”, disse o cineasta na coletiva que se seguiu à sessão. Para ele, o conceito de nacionalidade não cabe muito no cinema. “Se García Márquez mudasse de país, sua literatura não seria mais colombiana? A nacionalidade do filme é a ligação que cada espectador estabelece com o filme.”

A trama – Na história, o iraniano Ahmad (Ali Mosaffa) volta à França depois de quatro anos para assinar o divórcio de Marie (Bérénice Bejo, de O Artista). Ela é mãe de Lucie (Pauline Burlet, a cara de Marion Cotillard) e Léa (Jeanne Jestin), de outro casamento, e está grávida do namorado, Samir (Tahar Rahim, de O Profeta), que também tem um filho, o pequeno Fouad (o adorável Elyes Aguis), e uma mulher em coma depois de uma tentativa de suicídio. Simples, a situação não é. Ahmad é levado a se envolver na história depois de ser praticamente obrigado a ficar na casa com Marie, Samir e criançada. O passado ronda o tempo inteiro. “Alguém pode tentar se livrar do passado, mas ele não deixa, então tentamos fugir dele ou nos esconder dele. O passado é criado a partir das memórias pessoais a respeito de determinado acontecimento”, disse Farhadi.

https://www.youtube.com/watch?v=jAjQzW5YtN4

Aos poucos, tanto os ressentimentos quanto as verdades vão sendo reveladas (nem sempre de forma completa), num processo cheio de reviravoltas, digno de novela. Mas Farhadi é habilidoso na condução da trama e sensível na construção dos personagens, que provocam amor, ódio e dúvida em mesma medida. O filme alterna os pontos de vista de Ahmad, Marie, Lucie e Samir, sem que haja uma demarcação precisa. Tudo é muito fluido. O que faz falta, em relação ao bem-sucedido A Separação, é uma camada mais profunda de discussão da sociedade e do país. Mas é um belo filme.

Em compensação, Tian Zhu Ding, de Jia Zhangke, exibido na noite da quinta-feira para a imprensa, é um retrato da China. O cineasta tem documentado um país em rápida transformação, tanto física quanto em termos de valores. Aqui, detém-se sobre a violência, baseando o filme em quatro casos de morte recentes, três assassinatos e um suicídio. Como em Le Passé, também são quatro pontos de vista, só que em quatro lugares diferentes. Mas, agora, o cineasta, conhecido também por sua produção documental, buscou elementos em produções orientais tradicionais, sejam as de artes marciais ou as de gângster, no estilo John Woo. O resultado é tanto divertido quanto provocativo.

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