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Calígula, tido como o mais cruel imperador, é redimido em biografia

Ele entra para a lista de figuras históricas salvas (ou quase) por estudiosos do presente

Por Raquel Carneiro Atualizado em 19 mar 2021, 19h44 - Publicado em 19 mar 2021, 06h00

Clássico do “porno soft”, linhagem que teve longa vida nas telonas nos anos 70, Calígula retratava o célebre imperador romano sem medo de expor seus traços abjetos. Com direção do mestre do ramo Tinto Brass e Malcolm McDowell na pele do protagonista, a produção de 1979 traduzia os abusos de poder do governante por meio de um festival sem fim de estupros, orgias, sadomasoquismo, necrofilia e decapitações. O filme continha o exagero kitsch típico do gênero — mas seria injusto dizer que se fiava em uma imagem muito deturpada. Ao longo dos séculos, a fama de violento, maluco e cruel do terceiro imperador de Roma se cristalizou na imagem popular e nos livros. Mas eis que um novo estudo proclama: há muito sensacionalismo e fake news na noção que temos hoje sobre o personagem.

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Na recém-lançada biografia Caligula: the Mad Emperor of Rome (Calígula: o Imperador Louco de Roma, ainda inédita no Brasil), o historiador australiano Stephen Dando-Collins separa o joio do trigo no rol de atrocidades atribuídas ao personagem. Muitos horrores têm lá seu fundo de verdade. Calígula (12-41 d.C.) foi um imperador de fato truculento, mas isso não destoa do padrão da dinastia júlio-claudiana, derivada do militar Júlio César (100-44 a.C.), que contou ainda com os tiranos Tibério (42 a.C.-37 d.C.) e Nero (54-68 d.C.). O reinado de Calígula foi o mais curto da família: foram quatro anos no poder, entre 37 e 41 d.C., até ele ser assassinado, aos 29 anos, por sua própria Guarda Pretoriana.

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Amparado por ampla pesquisa, Dando-Collins (leia a entrevista) redime Calígula de famosas acusações. Uma delas é a de que o imperador teria nomeado seu cavalo como cônsul — o caso não passou de uma tirada irônica para irritar o Senado romano. Outro mito sem respaldo histórico diz que, além de promover orgias, o imperador tinha relações incestuosas com as três irmãs, e que teria matado uma delas, Drusila (16-38 d.C.), a san­gue-frio, arrancando um bebê de seu ventre. Na realidade, Calígula sofreu duramente com a morte de Drusila, vítima de uma doença desconhecida. As outras irmãs foram exiladas por ele, mas por motivo coerente com o jogo de intrigas em Roma: a crença de que ambas poderiam traí-lo. A mesma paranoia o levou a assassinar muitos seguidores, e não era de todo descabida. Após a morte de Calígula, sua irmã mais velha, Agripina (15-59 d.C.), voltou do exílio e se casou com Cláudio (41-54 d.C.), seu tio e novo imperador. Para dar ao seu primogênito, Nero, o direito ao trono, ela assassinaria um enteado.

A biografia reforça um movimento de pesquisadores atuais que se propõem a filtrar fatos e separá-los de lendas em torno de figuras históricas. Uma das mais famosas anedotas da Roma antiga — a de que Nero teria incendiado Roma para culpar os cristãos, tocando harpa enquanto a cidade ardia — já foi desmentida por historiadores. Apesar de ter sido um tirano violento e perseguir os cristãos, Nero nem estava em Roma no dia das chamas, e logo tomou atitudes para aplacar os danos. A revisão do passado, contudo, também segue o rumo contrário. Constantino, o Grande (272-337 d.C.), primeiro imperador a se converter ao cristianismo, não foi, para começo de conversa, um verdadeiro cristão: acumulou assassinatos e atrocidades pouco difundidos para a posteridade.

ESTEREÓTIPO - McDowell no filme de 1979: narrativa cheia de sexo e violência -
ESTEREÓTIPO - McDowell no filme de 1979: narrativa cheia de sexo e violência – Kobal/Shutterstock

O desencontro de informações se dá por causa das narrativas que sobreviveram desde então. No caso de Calígula, inimigos perpetuaram fofocas e elevaram o tom crítico sobre suas ações. “Muitos pioraram a reputação dele para conquistar seu sucessor”, esclarece Dando-Collins. As mentiras influenciaram escritores que nasceriam bem depois de sua morte, como Suetônio (69-141 d.C.) e Cassius Dio (155-229 d.C.). No lado oposto, o historiador Tácito (56-120 d.C.) notou incongruências nos relatos, apresentando não só novas versões, mas também um entendimento mais aprofundado sobre Calígula — visão que hoje serve de referência aos estudiosos.

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Filho do respeitado general Germânico (15 a.C.-19 d.C.), Calígula viu sua família ser dizimada num plano sujo iniciado por Sejano (20 a.C.-31 d.C.), braço direito do então imperador Tibério, e finalizado pelo enciumado soberano, que temia um golpe. Seu pai foi envenenado, os irmãos assassinados, e sua mãe presa e abandonada para morrer de fome. Calígula foi o único homem da linhagem a sobreviver. Para isso, manteve a cabeça baixa enquanto Tibério governava. A convivência com o tio-avô imperador foi terrível: além do constante medo de ser morto, Calígula foi sexualmente abusado por ele anos a fio.

Com a morte de Tibério, Calígula chegou ao poder aplaudido pelo povo. Inicialmente, mostrou-se um bom governante. Até que — vejam só — uma pandemia de gripe o deixou à beira da morte. Após sobreviver, o jovem imperador decidiu que era um deus. Mandou erigir estátuas com seu rosto, e passou a cometer atrocidades. Sob a óptica atual, especialistas sugerem que Calígula provavelmente sofria de transtorno bipolar, que provocava paranoia, alteração de humor e até delírios. Foi sua falta de tato com a elite, porém, que o levou a ser assassinado. A Roma Antiga traz lições imortais.

Publicado em VEJA de 24 de março de 2021, edição nº 2730

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