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C. S. Lewis: a teologia do criador d’As Crônicas de Nárnia

Conhecido como escritor de ficção, o autor britânico tem muito a contribuir com o debate sobre cultura, religião e até política

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 21 dez 2019, 09h39 - Publicado em 20 dez 2019, 15h42

“No seu mundo eu também existo, mas lá eu tenho outro nome”. O trecho, repetido à exaustão em páginas nas redes sociais dedicadas ao escritor Clives Staples Lewis (1898 – 1963) revela, sem deixar margem para dúvidas, a alegoria bíblica contida no clássico As Crônicas de Nárnia. Depois de ser traído por uma das quatro crianças trazidas da Inglaterra em plena 2ª Guerra para um reino encantado, o leão Aslam sacrifica-se para salvar o desertor: é humilhado e morto em praça pública por uma feiticeira e sua horda de vilões. No terceiro dia, contudo, as duas irmãs encontram seu sepulcro vazio, e são as primeiras a anunciar a ressurreição de Aslam ao povo de Nárnia. Muitas outras aventuras se seguiram este episódio; até o leão se despedir definitivamente da pequena Lúcia, a caçula da turma, com os dizeres mencionados. Mais didático, impossível – dado que entre os cristãos, Jesus é conhecido também como o “leão de Judá”.

O sucesso da saga adaptada pela Disney entre 2005 e 2010 começou a trazer à tona o trabalho do crítico literário que defendia contos de fada com a mesma engenhosidade que defendia sua fé cristã, fruto de uma conversão tardia ao anglicanismo. Além das Crônicas, C. S. Lewis produziu centenas de artigos que combinavam ficção científica, crítica literária e teologia – um acervo que, até pouco tempo, não era muito conhecido no Brasil. Este ano, contudo, o relançamento das obras do autor atingiu um marco histórico: foram mais de 600 000 cópias vendidas, com destaque para Cristianismo Puro e Simples, seu tratado filosófico oriundo de um ciclo de conversas veiculadas pela BBC em 1940, destinado a soldados que partiam para a guerra. Apesar da inequívoca habilidade de tratar questões complexas que norteiam o pensamento religioso desde os primórdios da humanidade (existem verdades absolutas ou comportamentos éticos aplicáveis a todas as culturas? O que significa, afinal, ser cristão? Por que deveríamos orar, se Deus é onisciente?); de simples, mesmo, o cristianismo de Lewis não tem nada. “Ele era o tipo de autor que dava prestígio, mas não dava lucro por ser muito denso”, diz Samuel Coto, diretor editorial da Thomas Nelson, atual detentora dos títulos.

Embora a deferência ao autor em solo brasileiro não seja um fenômeno novo, a comercialização em massa de suas obras em livrarias temáticas – sejam protestantes ou católicas – ou tradicionais, é, sim. Mais do que o mero avanço do público evangélico, Coto avalia que o sucesso de Lewis é resultado também da criação de uma “identidade religiosa”. “Há alguns anos, os livros que faziam sucesso no mundo gospel eram rasos, focados em orações. Desde que os mais jovens transformaram a identidade cristã em algo cool, isso está mudando. Eles querem conhecer sua fé a fundo. A maioria das pessoas que consomem as obras do Lewis não tem a bagagem filosófica que antes se requeria”, explica o editor. A favor do escritor, pesa também o discurso que ecoa em diversas vertentes do protestantismo e até na Igreja Católica (vale lembrar, afinal, que Lewis era um dos melhores amigos de J. R. R. Tolkien, o católico fervoroso por trás de O Senhor dos Aneis). Acerca do ecumenismo cristão, visto como um saguão de entrada com vários cômodos, escreve o autor: “quando tiver alcançado o seu (…) seja gentil com aqueles que escolheram portas diferentes”.

Outra peculiaridade do autor que lhe rende um passe para além do universo gospel é, como descrevem seus biógrafos, seu apreço pela “teologia da imaginação” – tema que Lewis tratou quase à obsessão. Além das Crônicas, seu principal laboratório de criação de histórias infantis cujo objetivo era deliberadamente ensinar os preceitos cristãos (prática abominada por Tolkien, que acreditava que as alegorias impunham limites à interpretação do leitor), Lewis escreveu três livros de ficção científica e foi um árduo defensor dos contos de fada. “Ele entende que a imaginação é uma espécie de arcabouço moral que alimenta a razão, antes mesmo que tenhamos ‘entendido’ o que é certo ou errado. Ajuda a compreender, por exemplo, que ser prudente é ser como o porquinho que trabalhou duro para construir a casa de tijolo”, explica o cientista da religião Paulo Cruz, da Universidade Metodista de São Paulo. Para o alento de pais e educadores cristãos ouriçados com o universo da fantasia – uma caça às bruxas (literalmente) que já deu as caras no Planalto, Lewis advoga: “Uma criança não anseia pela terra das fadas como um garoto anseia ser o herói do time titular. Alguém supõe que ela realmente (…) queira dragões na Inglaterra contemporânea? Seria muito mais verdadeiro dizer que a terra das fadas desperta um anseio pelo que ela não sabe o que é”.

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Para além dos diálogos inter-religiosos e das contribuições para o mundo da ficção, por fim, as obras de Lewis têm muito a acrescentar a um Brasil que se afirma (ao menos nas urnas) majoritariamente cristão e conservador. Embora não seja esta propriamente a causa do sucesso do autor entre os brasileiros, não é se estranhar que seus escritos façam barulho em tempos tão aguerridos: o autor é um bálsamo de bom-senso entre as caricaturas modernas de direita e esquerda, principalmente quando estes grupos clamam para si o domínio do “verdadeiro cristianismo”. “Lewis estava preocupado com o delicado equilíbrio entre a liberdade individual e o bem comum. Esse pensamento não pode ser traduzido em uma guerrilha cultural porque a realidade é complexa. Ele foi um intelectual que não cabe nos reducionismos ideológicos que vivemos hoje”, afirma historiador Diego Klatau, da PUC-SP. Nestes idos de 2019, não é difícil imaginar um Lewis “isentão” a lembrar que “o cristianismo não tem, e não professa ter, um programa político detalhado para aplicar o ‘faça com os outros o que gostaria que fizessem com você’. Em uma de suas mais argutas observações – que encontra ecos por toda a história – afirma o autor: “A maioria de nós não examina o cristianismo a fundo para descobrir o que ele realmente diz: nós o abordamos na esperança de encontrar nele apoio para as nossas próprias perspectivas partidárias”. Esta, sim, uma batalha a ser travada pelos adeptos da religião – no reino de sua individualidade.

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