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“Brasil tem um líder fascista”, diz roqueiro do Rage Against The Machine

Guitarrista Tom Morello fala de sua militância esquerdista e do novo disco solo, que tem uma cover de AC/DC com Bruce Springsteen e Eddie Vedder

Por Felipe Branco Cruz 15 out 2021, 09h43

Um dos mais criativos guitarristas do rock dos anos 90, Tom Morello, de 57 anos, fundou duas das mais influentes bandas de rock do século XX: Rage Against The Machine e Audioslave. Nascido no Harlem, em Nova York, e criado no Illinois, o cantor nunca escondeu suas posições políticas à esquerda, sempre compondo letras que pregavam a igualdade social. Nesta sexta-feira, 15, ele lança o álbum solo The Atlas Underground Fire, com onze faixas autorais e uma cover de Highway To Hell, do AC/DC, gravada em parceria com Bruce Springsteen (com quem excursionou entre 2008 e 2015) e Eddie Vedder, do Pearl Jam. Já as outras canções autorais foram compostas em parceria com outros artistas pela internet, numa dinâmica em que Morello compunha a melodia e eles, à distância, as letras.

Ironia dos tempos modernos: Morello diz que jamais aprendeu a usar equipamentos eletrônicos e que no estúdio só mexe no botão do volume. “Toco com o mesmo equipamento desde 1988. Não há nenhuma tecnologia nova. Eu tomei uma decisão, uns trinta anos atrás, de que aquele seria meu equipamento e que concentraria minha imaginação e criatividade nele”, diz . Surpreende, portanto, ele ter conseguido gravar o disco durante a pandemia, e ainda mais pela internet – com artistas espalhados por todo o mundo. “Eu gravava a guitarra no gravador do celular e mandava para as pessoas”, explica. Em entrevista a VEJA por videoconferência, o cantor falou sobre os fãs estrangeiros de direita que não conheciam as letras da banda e ficaram irados quando descobriram o significado e destacou a importância de um artista de rock em se posicionar politicamente.

O guitarrista Tom Morello
O guitarrista Tom Morello //Divulgação

Todas as músicas do Rage Against The Machine contêm mensagens políticas ou em defesa das classes sociais mais desfavorecidas. Recentemente, especialmente no Brasil, muitos fãs com posições à direita, mas que não dominavam a língua inglesa, ficaram irados ao descobrir o conteúdo das letras de suas músicas. A mesma coisa aconteceu ao redor do mundo. Como vê essa dualidade entre gostar da música e não da mensagem dela? Minha opinião pessoal é que qualquer um pode gostar da música, mesmo sem entender a letra. E eu acho que está tudo bem. Eu gosto da ideia de saber que as pessoas de direita foram expostas às minhas músicas e a essas ideias diferentes que vão desafiá-las. A ironia é que algumas dessas pessoas podem nunca se interessar pelas letras e continuar cantando canções que pregam o oposto daquilo em que acreditam. Minha esperança é que esse conjunto de ideias tenha força para mudar as pessoas e seus pontos de vista.

Você sempre se posicionou politicamente. No show que fez no Brasil em 2017, mostrou um cartaz escrito “Fora Temer”. Qual é a importância para um rockstar assumir publicamente suas opiniões – e eventualmente até perder fãs no caminho? Primeiramente, é importante que não só estrelas do rock assumam posições políticas, mas qualquer pessoa. Não importa qual seja o seu trabalho. Como artista, você tem uma responsabilidade de dizer no que você acredita e como você vê sua arte. Acho que o Brasil está em uma situação difícil e os Estados Unidos tiveram um fenômeno semelhante com o Trump. O Brasil tem um líder fascista, que usa do velho discurso, uma espécie de retórica anti-esquerdista. Tudo depende das pessoas. Não há uma maneira de mudar se eu e você não mudarmos juntos. Essa é a mensagem que eu tenho passado durante os últimos trinta anos da minha carreira. E quando digo “você”, quero dizer, literalmente, você que estiver lendo essa entrevista: o mundo mudou de forma progressiva, radical ou mesmo revolucionária. Ele foi mudado por pessoas que não eram diferentes de você. Elas não tinham mais ou menos poder, criatividade, influência ou inteligência do que qualquer um que esteja nos lendo agora.

Em seus trinta anos de carreira, você percebeu que os fãs de rock ficaram mais conservadores? Não posso falar pelo Brasil. Acredito que não seja o caso dos Estados Unidos, onde o rock tem um amplo espectro de fãs. Mas o rock não está no topo das paradas como estava antes. Então, essa pode não ser uma questão inteiramente justa. Penso que, em média, os fãs de rock envelheceram e os mais velhos são mais conservadores. Por outro lado, as músicas do Rage Against The Machine, feitas há mais de vinte anos, ainda estão tocando nas ruas em 2021 enquanto as pessoas estão protestando contra a injustiça.

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O guitarrista Tom Morello
O guitarrista Tom Morello – //Divulgação

A tradução de Rage Against The Machine é “raiva contra as máquinas”. Você imaginou que, em 2021, a raiva contra a ciência e a tecnologia seria levada tão longe que surgiria um forte movimento anti-vacinas e até gente que acredita na Terra Plana? Está faltando uma compreensão de como o mundo funciona. Na minha opinião, é justo suspeitar de qualquer coisa que o governo diga, suspeitar das grandes corporações farmacêuticas e da formação de uma oligarquia entre empresas e governos que não necessariamente irá beneficiar as pessoas. Mas isso não significa que os remédios não funcionem, inclusive a capacidade da vacina de salvar a vida da sua avó. É possível abrigar essas suspeitas, que são bem merecidas, e não descartar a ciência e toda a história da evolução humana desde o Iluminismo. Abraçar a ciência é uma forma de nos mantermos vivos – inclusive para que os shows ao vivo de rock’n’roll possam voltar a ser seguros.

Das doze faixas de seu novo álbum solo, The Atlas Underground Fire, todas são autorais, exceto por Highway To Hell, do AC/DC, em que você contou com Bruce Springsteen e Eddie Vedder nos vocais. Como se deu esse encontro de gigantes? Em 2014, eu estava em Perth, em turnê pela Austrália, com Bruce Springsteen e a E Street Band quando, de madrugada, decidi visitar o túmulo de Bon Scott, do AC/DC. Eu não estava encontrando o túmulo e no meio da névoa surgiu um cara corpulento montado em uma moto, com um capacete alemão da II Guerra Mundial e uma camiseta que dizia: “Eu não me importo”. Pensei: “Esse cara vai saber onde está o túmulo de Deus¨. E ele sabia mesmo. Prestei minhas homenagens e voltei para o bar do hotel, onde vi Bruce. Perguntei para ele se a E Street Band e o AC/DC combinavam de alguma maneira. Então, começamos a ensaiar Highway To Hell durante as passagens de som. Depois, quando estávamos em Melbourne, na Austrália, nos apresentando para um público de 80 000 pessoas, Eddie Vedder por acaso também estava lá em turnê solo. Sugeri a Bruce: “AC/DC é o rei da Austrália e Highway To Hell é seu hino não-oficial. E se abrirmos o show com essa música e Eddie Vedder no vocal?”. E aconteceu. Durante a pandemia, decidi registrar essa parceria e convidei Bruce e Eddie novamente. Então surgiu essa versão: uma das maiores canções de rock de todos os tempos interpretada pelos dois maiores vocalistas de rock de todos os tempos.

Você já afirmou em diversas ocasiões que não entende de tecnologia, mas no novo álbum mistura o som da sua guitarra com música eletrônica feita com aparelhos de última geração. Como se deu esse encontro do analógico com o digital? Em 2018, quando estava produzindo um álbum anterior a esse, alguém me apresentou o duo de música eletrônica Knife Party. Nunca fui fã de música eletrônica. Até então, para mim, ela soava como um som horrível que se toca em táxis italianos. Então, um amigo me disse: “Você não sabe do que esta falando”, e me apresentou o Knife Party, o Skrillex e alguns dubsteps. Quando eu ouvi pela primeira vez, minha reação foi: “Esses caras certamente são fãs do Rage Against The Machine”. Era possível ouvir a agressividade, a tensão e a libertação que aquelas músicas causavam – e não havia guitarras nelas. Isso me deu um estalo. E se substituíssemos aqueles ruídos digitais pela minha guitarra elétrica? Eu queria fazer uma música em que você não soubesse onde termina a guitarra e onde começa a música eletrônica. É uma espécie de ciborgue musical.

Por falar em música eletrônica, na música On The Shore of Eternity, você toca com a DJ palestina Sama’ Abdulhadi. Como descobriu o trabalho dela? O simples fato de ela fazer música eletrônica na palestina já a transformaria em uma grande artista. O trabalho dela é heroico. Ela é descaradamente corajosa para criar músicas em um lugar onde, historicamente, não há espaço para DJs femininas. A voz dela precisava ser ouvida e foi uma honra tê-la no álbum. Ela estava mixando as músicas dela em uma época em que Israel bombardeava a Palestina. Apenas a existência dela já é uma loucura e uma verdadeira inspiração.

Como estão os preparativos para a volta do Rage Against The Machine e a turnê em 2022? Estamos com os dedos cruzados e acreditando que será possível retornar aos palcos de maneira segura. Tenho esperança de que possamos tocar em qualquer lugar no ano que vem.

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