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‘Brasil precisa de um adulto no comando’, diz cantor do System of a Down

Em entrevista, Serj Tankian falou de política internacional e de sua luta pelo reconhecimento do genocídio ocorrido na Armênia, país de sua família, em 1915

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 29 mar 2021, 15h57 - Publicado em 29 mar 2021, 15h01

Em 2021, dois eventos importantes para o vocalista Serj Tankian completarão 20 anos: o lançamento do álbum Toxicity, um divisor de águas na carreira de sua banda, o System of a Down, e o ataque terrorista do World Trade Center, em Nova York. Serj já era ativista antes mesmo dos atentados de 11 de Setembro de 2001, mas foi com o ataque às Torres Gêmeas que ele percebeu que poderia tentar mudar o mundo por meio da música. 

Filho de imigrantes armênios, Tankian nasceu há 53 anos em Beirute, no Líbano, após sua família sobreviver ao genocídio promovido pelo império turco-otomano, entre 1915 e 1923. Ainda criança, mudou-se com a família para Los Angeles, onde vive desde então. As raízes dos pais, no entanto, sempre foram muito fortes no cantor, que estudou a vida inteira em um colégio armênio. Com outros quatro amigos, também descendentes de armênios, ele fundou o System of a Down, uma banda que defende mais justiça social em suas letras. “A maioria dos ativistas não vê resultados de seu ativismo ainda em vida. Nós conseguimos, quando os Estados Unidos reconheceram em 2019 o genocídio na Armênia”, diz ele. 

Embora continue excursionando pelo mundo, o System of a Down não lança álbuns há dezesseis anos. Exceto por dois singles do ano passado, justamente para falar sobre a Armênia, a banda de metal não tem nada inédito na praça. Isso não impediu, no entanto, que Serj se tornasse em uma figura fundamental na Revolução de Veludo, de 2018, que retirou de forma pacífica do poder o presidente Serj Sargsyan, eleito para um terceiro mandato. No ano passado, o cantor também se engajou no cessar-fogo em Nagorno-Karabakh, uma área em conflito entre a Armênia e o Azerbaijão, alertando a comunidade internacional sobre a violência que estava ocorrendo no local.

Se o System of a Down não lança nada inédito há anos, Serj continua ativo musicalmente como nunca. Neste mês, ele lançou o EP, Elasticity, com cinco faixas que falam sobre o conflito na Armênia e das desigualdades sociais. Além disso, ele lançará em 27 de abril o documentário Truth To Power, em que fala sobre seu ativismo e a crise no país natal. Ironia das ironias, foi dentro da própria banda que Serj encontrou resistência. Seu cunhado, o baterista John Dolmayan, declarou apoio a Donald Trump na última eleição presidencial. Embora discorde de suas posições políticas, Serj não quer briga. “Nós dois nos amamos e nos respeitamos, apesar de nossas diferenças na política”, afirmou. Confira a entrevista de VEJA com o cantor: 

A música pode mudar o mundo?

É claro que sim. Música é uma maneira intuitiva de inspirar as pessoas, certo? Se essa música tem uma letra que faz as pessoas, por exemplo, se indignarem com o sistema prisional americano ou alguma injustiça social, elas vão fazer algo por causa disso. É um ciclo completo. É assim que a música muda o mundo. Agora, eu já vi muitos artistas que não viram os frutos de seus trabalhos reconhecidos ainda em vida. Mas o System of a Down e a nossa conscientização para o reconhecimento do genocídio armênio é um exemplo de vitória. Em dezembro de 2019, ambas as casas do Congresso dos Estados Unidos reconheceram adequada e formalmente que houve genocídio. A maioria dos ativistas não vê isso em vida.

Você já recebeu ameaças de morte ou tem medo de ser morto devido ao seu ativismo?

Nunca é fácil ser ativista em nenhuma parte do mundo. E é mais difícil ainda ser um artista e um ativista, porque sua voz é ainda maior. Você fica ainda mais em evidência. Não tenho medo de morrer. Algumas vezes, eu escapei por pouco. Eu tenho apenas uma vida e não posso me calar. Tenho que fazer a coisa certa. Se não, por que estou aqui? Sou ingênuo a ponto de acreditar que a verdade importa, mesmo quando as pessoas não queiram ouvi-la. 

Como você vê a ascensão de líderes populistas da extrema-direita?

É um jogo perigoso. A ascensão da extrema-direita em países como a Hungria, com Viktor Orban, ou nos casos de Bolsonaro no Brasil e de Trump, nos Estados Unidos, foi uma reação ao sistema. Mas essa é uma solução errada. Ela está criando mais problemas para a sociedade. Não temos tempo para ditadores. Não temos tempo para idiotas nos liderando. A nova geração não vai viver com isso por muito tempo. É por tal razão que estão ocorrendo diversos protestos ao redor do mundo.

Como enxerga as atitudes negacionistas de Trump ou Bolsonaro em relação ao coronavírus?

Trump fez um trabalho horroroso na resposta ao Covid-19, e Bolsonaro também. Passei parte do ano passado na Nova Zelândia, e acho que eles fizeram um trabalho incrível. Foram bastante transparentes e responsáveis. Eles não foram guiados por informações falsas. Obviamente que lá é uma ilha, um país pequeno, sem fronteiras terrestres. Penso que o Brasil precisa de um adulto no comando, e não de uma pessoa que desafia a ciência. Eu espero que vocês consigam se vacinar o mais rápido possível. Eu mesmo já fui vacinado. Infelizmente, líderes ruins dificultam a superação da pandemia. 

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Por que seu novo EP, Elasticity, não se tornou um trabalho do System of a Down?

Originalmente, as músicas Elasticity e Electric Yerevan tinham a pegada do System of a Down. Conversei com o pessoal da banda sobre fazermos um novo álbum com elas. Mas, não conseguimos seguir filosoficamente no mesmo caminho. Eu tenho minhas ideias. Eles também têm as ideias deles. Tem que funcionar coletivamente. Por isso não rolou. Então, eu decidi finalizar sozinho.

O baterista do System of a Down, John Dolmayan, declarou apoio a Trump. Como lidam com as diferenças políticas dentro da banda?

Nossas diferenças basicamente ficam na política americana. Ele é um apoiador do Trump. Eu sou um apoiador do Bernie Sanders. Somos colegas de banda e também cunhados. Nossos filhos são muito amigos. Eu sempre falo para as pessoas que não é incomum ter um cunhado com um pensamento político diferente, não é? Nós dois nos amamos, apesar de nossas diferenças na política americana. Nós nos respeitamos como pessoas e artistas e vamos continuar desse modo. Simples assim.  

Você não pode se candidatar a presidente dos Estados Unidos, porque não nasceu no país. Mas você já pensou em ser político? De repente, governador da Califórnia?

Governator! (risos) Nunca. Nunca. Eu nunca quero estar em uma posição em que eu tenha que negociar a verdade. 

A Armênia foi o primeiro país a se cristianizar no mundo. Você, como descendente de armênios, é religioso? Acredita em Deus?

Minhas crenças são mais espirituais do que em uma religião organizada. Eu gosto muito das crenças indígenas dos nativos americanos. Em vez de falar de Deus, eles usam dois termos. Um é o espírito que se move por todas as coisas. E o outro é o criador. Ambos representam a mesma coisa. Eu gosto dessa terminologia. Me parece mais natural. Em nome de Deus, pessoas foram torturadas na Idade Média. Pessoas foram mortas em guerras, entre tantas outras coisas. Para mim, Deus não é uma boa palavra. Criador e espírito que se move através de todas as coisas é mais bonito. Portanto, minha espiritualidade é uma combinação de um tipo de compreensão indígena da espiritualidade com certos aspectos do zen budismo. 

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