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Birdman, a mais extraordinária viagem do ator Michael Keaton

Birdman, do diretor Alejandro Iñárritu, leva Michael Keaton à mais extraordinária viagem de sua carreira

Por Isabela Boscov - 24 jan 2015, 00h00

Riggan Thomson era um astro de primeira grandeza quando interpretava o super-herói Birdman, ou “homem-pássaro”. Mas recusou fazer o quarto filme da série, perdeu popularidade, entrou em decadência e, com o ego assim tão diminuído e maltratado, perdeu seu senso de identidade. Neste exato momento em que está começando o feérico, ofuscante, explosivo e implosivo Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance, Estados Unidos/Canadá, 2014), que estreia nesta quinta-feira no país com uma justíssima penca de indicações ao Oscar, Riggan está no seu camarim no Teatro St. James, em Nova York, tentando acalmar-se. Dentro de instantes ele vai voltar ao ensaio da peça que adaptou de um conto de Raymond Carver, e que também dirige e protagoniza – uma última e desesperada tentativa de recuperar prestígio. Mas um dos atores é péssimo e o está levando à ira. Mais alguns segundos, porém, e a salvação vai chegar: um spot de luz vai despencar sobre a cabeça do colega sem talento e nocauteá-lo. Riggan vai ficar primeiro feliz, e logo em seguida aflito: Mike Shiner (Edward Norton), o ator mais festejado e mais arrogante da Broadway, está pronto para preencher a vaga. Assim que entrar pela porta do St. James, Mike vai começar a espalhar a discórdia. Vai, de cara, tomar conta da peça e aprofundar as incertezas de Riggan – cujo nervosismo, pulsando e repercutindo como a bateria que acompanha a ação, vai manter Birdman em um nível de energia exorbitante.

O novo filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu (que conseguiu esconder completamente o imenso senso de humor que demonstra em Birdman em trabalhos como Amores Brutos, 21 Gramas e Babel) existe todo ele, sem pausa para a respiração, no limiar tumultuado entre este momento e o próximo, uma zona fronteiriça que ainda não chega a ser o futuro mas já escapou ao controle do presente. Se o transcorrer do tempo é a matéria-prima do drama, e a manipulação do tempo é a essência do cinema, Birdman é uma junção notável desses dois conceitos: é a tragicomédia de Riggan avançando no embate com Mike, com sua namorada (Andrea Riseborough), com sua ex-mulher (Amy Ryan), com sua filha desencantada e indignada (Emma Stone, ótima), com seu produtor ansioso (Zach Galifianakis) e principalmente com seu próprio ego, dentro de um tempo que é exclusivo da sua percepção e consciência. Por isso a semana em que a história se desenrola está comprimida em duas horas sem que, no entanto, os cortes entre as cenas sejam perceptíveis (outro feito sensacional do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, de Gravidade), como se o filme fosse um único plano-sequência que se desdobra em tempo real.

Vale esclarecer que não, Birdman não é um único plano-sequência (crédito que até hoje só Arca Russa (2002), de Aleksandr Sokurov, pode reivindicar): à maneira de Festim Diabólico, que Alfred Hitchcock dirigiu em 1948, ele é composto de vários planos-sequência unidos por emendas invisíveis. Hitchcock tinha de planejar uma emenda a cada dez minutos no máximo, para poder trocar o magazine de celuloide na câmera. Iñárritu e Lubezki têm o benefício das câmeras digitais que não levam filme e são leves e ágeis, capazes de se movimentar com total liberdade pelo labirinto de corredores e camarins do St. James. O que, verdade seja dita, só torna o trabalho mais complexo, uma vez que praticamente não existe limite para a dificuldade que equipe e elenco se dispõem a enfrentar. Além disso, sete, ou dez, ou doze minutos de ação ininterrupta num set de filmagem são uma eternidade. Concentração absoluta e impulsão no máximo são exigidas de cada um dos participantes – daí o ritmo atordoante que Birdman sustenta do primeiro ao último instante.

São tão impressionantes os desafios técnicos e artesanais de Birdman que se corre o risco de, ao enumerá-los, passar a impressão de que o filme apela antes de tudo ao senso estético de uma plateia especializada, ou às comichões formais dos críticos de cinema. Nada mais injusto: o saldo desses exercícios é uma energia crua e intensa, e uma palpitação fundamentalmente humana. Da mesma forma, pode-se imaginar que o grande lance de esperteza de Iñárritu é pôr Michael Keaton no papel de Riggan não por seu apuro técnico, sua versatilidade e seu repertório, mas por seu passado como o superastro que interpretou Batman sob a direção de Tim Burton em 1989 e 1992, e que enfrentou uma perda drástica de popularidade após decidir que não faria o terceiro filme da série. É lógico que esse conhecimento em primeira mão que Keaton tem das circunstâncias de seu protagonista entrou nas contas de Iñárritu ao oferecer-lhe o papel (na verdade, ao escrever o roteiro especificamente com o ator em vista). E é natural também que Keaton, em entrevistas, tenha tentado separar com a maior clareza possível sua trajetória da de Riggan. “No que diz respeito a paralelos, nunca me identifiquei tão pouco com um personagem”, declarou ele. A distância que Keaton quer estabelecer é justa: se Batman ou o que se seguiu a ele o atormentassem da maneira como Birdman atormenta o inseguro Riggan, se essa não fosse para ele uma experiência integralmente metabolizada e equacionada, Keaton não seria capaz deste seu desempenho colossal em Birdman – uma manifestação de inteligência, autoconhecimento, competência e segurança como poucas vezes na carreira um ator tem a oportunidade de construir. E uma manifestação também de compaixão para com este patético Ícaro que, se não puder voar até perto do Sol pelo menos mais uma vez, vai sucumbir a este que é o mais insensível dos tiranos – o ego, sempre.

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