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Biografia Alexander Hamilton, de Ron Chernow, resgata um dos pais dos EUA

Um livro suntuoso examina a vida e o legado do “pai fundador” da nação americana e hoje um herói celebrado até em musical pop da Broadway

Por Eduardo Wolf Atualizado em 8 jan 2021, 18h18 - Publicado em 8 jan 2021, 06h00
FLOR DO CARIBE - Hamilton: origem supostamente mestiça e vítima de duelo -
FLOR DO CARIBE - Hamilton: origem supostamente mestiça e vítima de duelo – VCG Wilson/Corbis/Getty Images

Quando Alexander Hamilton (1755-1804) tinha 14 anos, sua existência não prenunciava um futuro brilhante: “O pai sumira, a mãe morrera, o primo e suposto protetor cometera suicídio sangrento e a tia, o tio e a avó também tinham morrido”. Acompanhado apenas de um irmão dois anos mais velho, Hamilton não tinha nada, nem ninguém. Aos 30, contudo, já era uma celebridade em Nova York, tendo servido como assistente do general George Washington durante a Revolução Americana e se destacado como herói da independência. Aos 34, era não só um dos grandes heróis nacionais, articulador político decisivo, como se tornou o primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos — cargo que exerceria com poderes de primeiro-ministro, na prática.

ALEXANDER HAMILTON, de Ron Chernow (tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra; Intrínseca; 896 páginas; 99,90 reais) -
ALEXANDER HAMILTON, de Ron Chernow (tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra; Intrínseca; 896 páginas; 99,90 reais) – ./.

A vida desse personagem eletrizante é narrada com brilho em Alexander Hamilton, de Ron Chernow. Originalmente publicada em 2004 e lançada no Brasil apenas agora, a biografia inspirou até um incensado musical da Broadway, que celebra a trajetória triunfal do filho de uma ilha caribenha nos primórdios da América. Ironicamente, o homem que encarnou como ninguém a identidade dos Estados Unidos ficou por muito tempo à sombra dos outros founding fathers, “os pais fundadores” daquela que viria a ser a maior potência do planeta.

Chernow, jornalista e historiador premiado com os prestigiosos Pulitzer e National Book Award, entrega ao leitor, nas quase 900 páginas de seu livro, uma pesquisa biográfica incomparável sobre aquele que muitos creditam como o verdadeiro criador do capitalismo americano. Chernow conhece em profundidade a história das finanças — escreveu sobre o império financeiro J. P. Morgan, por exemplo —, o que contribui para uma justa compreensão do legado econômico do biografado. Mas vai muito além: seu mergulho minucioso na vida e no temperamento de Hamilton permite captar os traços decisivos de sua personalidade, a marca inconfundível de seu pensamento, as ações e contradições que fizeram de sua curta existência (ele morreu aos 49 anos) uma síntese épica da fundação americana.

Chernow apresenta a mais detalhada reconstituição do que se sabe sobre as origens familiares de Hamilton — tema delicado que o importunou incontáveis vezes em suas polêmicas políticas. Não só por ter nascido fora das treze colônias, nas Índias Ocidentais caribenhas, mas principalmente porque Rachel Fawcett, sua mãe, e James Hamilton, seu pai, não chegaram a se casar formalmente — uma primeira e malsucedida união de Rachel impedira a realização do segundo matrimônio. Além disso, boatos de que Rachel era mestiça não cessavam de circular, ainda que nunca tenham sido comprovados. O biógrafo navega pelas águas incertas desse passado de meados do século XVIII, extraindo a maior precisão possível, e assim leva o leitor à chegada do jovem e ambicioso Alexander Hamilton a Nova York e seu gradativo envolvimento com a causa da independência.

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DRAMA - O ator Lin-Manuel Miranda (à esq.) no musical: uma vida redescoberta -
DRAMA - O ator Lin-Manuel Miranda (à esq.) no musical: uma vida redescoberta – Disney+/.

De talento transbordante, Hamilton parecia saber que a grandeza do que podia alcançar não seria contida no tempo da vida que lhe cabia. Essa convicção enérgica em seu próprio valor determinou suas façanhas no campo de batalha, na articulação política, no ensaísmo esclarecido, mas também nas rupturas pessoais e nas paixões arrebatadoras que viriam a lhe cobrar um preço muito alto.

Em poucos momentos essa força esteve tão evidente quanto no período dedicado à consolidação da União e da elaboração da Constituição americana. Seu comprometimento com a criação de uma República a um só tempo livre e ordenada, democrática e estável fez de Hamilton um dos mais argutos teóricos do desenho institucional dos Estados Unidos. Nos Federalist Papers, escritos sobretudo em parceria com outro dos pais fundadores, James Madison, Hamilton cobriu desde detalhes da Constituição até elementos que definiriam o moderno capitalismo americano. Como afirma Chernow, “se coube a (Thomas) Jefferson prover a poesia essencial do discurso político americano, Hamilton criou a prosa da estadística americana. Nenhum outro fundador articulou um quadro tão claro e profético do futuro poderio político, militar e econômico dos Estados Unidos”.

Ao leitor versado na polarização atual não passará despercebida a intensidade das divisões políticas da época de Hamilton. Da chaga da escravidão às tensões entre um governo central poderoso e os estados, já estavam ali os ingredientes da futura Guerra Civil que eclodiria nos anos 1860. Na origem dos partidos políticos — o democrata republicano de Jefferson e o federalista de Hamilton —, percebem-se as cisões que fizeram do primeiro século americano uma frágil união. Essas forças se deixaram sentir também na vida pessoal do personagem, e não é sem um dissabor antecipado, digno dos grandes romances, que o leitor acompanha a celeuma de Hamilton com o vice-presidente Aaron Burr, que culminará em um duelo de pistolas de resultado fatal para este que foi, talvez, o primeiro homem a realizar o sonho americano — e o viveu até o limite da tragédia.

Publicado em VEJA de 13 de janeiro de 2021, edição nº 2720

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