Benedito Ruy Barbosa, o primeiro na TV Globo a entender que ‘agro é pop’
Autor morreu aos 95 anos nesta terça-feira, 7
A contribuição de Benedito Ruy Barbosa, que morreu aos 95 anos nesta terça-feira, 7, para a teledramaturgia brasileira transcende os índices de audiência alcançados por suas produções e pode ser compreendida como parte de um processo mais amplo de construção das representações da identidade nacional no audiovisual. Quando a ficção televisiva ainda privilegiava, majoritariamente, narrativas centradas nos grandes centros urbanos, o autor deslocou o eixo dramático para o interior do país, conferindo protagonismo a espaços rurais, pequenas cidades e comunidades tradicionalmente sub-representadas pela mídia.
Essa escolha narrativa ampliou o repertório simbólico da televisão brasileira ao incorporar paisagens, práticas culturais, relações de trabalho, manifestações religiosas e modos de vida característicos do Brasil interiorano, favorecendo uma representação mais plural das múltiplas identidades que constituem a sociedade brasileira.
Tal movimento não se restringiu à ambientação das narrativas. Em obras como Pantanal (1990), Renascer (1993), O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999) e Cabocla (2004), Benedito estruturou narrativas que articulam dramas individuais a processos históricos e sociais mais amplos, discutindo questões relacionadas à ocupação do território brasileiro, à imigração, aos conflitos fundiários, às transformações econômicas no campo, à preservação ambiental e às tradições culturais regionais. Seus personagens são construídos a partir de contextos socioculturais específicos, evitando, em grande medida, a estereotipação do homem do campo e produzindo representações marcadas pela complexidade das relações sociais, das identidades locais e dos processos de modernização vivenciados pelo interior brasileiro.
(Agora a coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente)
Sob a perspectiva dos estudos culturais, a obra de Benedito pode ser compreendida como um espaço privilegiado de produção e circulação de representações sociais. Conforme argumenta Stuart Hall, a identidade cultural constitui um processo de construção simbólica permanentemente negociado por meio dos sistemas de representação. Nessa perspectiva, as novelas do autor não apenas retratam o interior do Brasil, mas participam ativamente da elaboração de imaginários sociais sobre a ruralidade, a tradição e o pertencimento. De maneira semelhante, Jesús Martín-Barbero destaca que a televisão latino-americana deve ser compreendida a partir das mediações culturais, nas quais a ficção dialoga diretamente com as experiências cotidianas da população. As narrativas de Benedito exemplificam esse processo ao transformar práticas culturais regionais em elementos centrais da experiência televisiva nacional.
A valorização da diversidade territorial brasileira também dialoga com as reflexões de Néstor García Canclini sobre os processos de hibridação cultural, nos quais tradição e modernidade coexistem e se reconfiguram continuamente. Em suas novelas, o campo não é apresentado como um espaço estático ou idealizado, mas como um território em constante transformação, atravessado por disputas econômicas, mudanças tecnológicas e tensões sociais. Ao mesmo tempo, preserva práticas culturais, formas de sociabilidade e valores comunitários que permanecem fundamentais para a constituição das identidades locais.
Assim, o legado de Benedito ultrapassa os limites da dramaturgia televisiva, consolidando-se como um importante agente de descentralização do imaginário nacional. Ao conferir protagonismo ao Brasil interiorano, o autor ampliou as possibilidades de representação da identidade brasileira na televisão e demonstrou que as narrativas produzidas fora dos grandes centros urbanos possuem igual potencial para expressar conflitos universais, construir memória coletiva e fortalecer o reconhecimento da diversidade cultural do país. Muito antes de se imaginar o “agro” como movimento “pop”, teledramaturgia de Benedito já sinalizada uma identidade mais ampla do que é brasilidade para além do eixo Rio-SP.







