Benedito Ruy Barbosa, o mestre das novelas rurais
Entre suas produções mais marcantes está Pantanal, lançada em 1990 pela TV Manchete, que registrou índices históricos de audiência
Um dos maiores autores de novelas do Brasil, Benedito Ruy Barbosa foi responsável por deslocar o eixo da teledramaturgia nacional, historicamente centrado em tramas urbanas, para os rincões rurais do país. Ao longo de sua obra, colocou o campo, as disputas por terra, a vida dos trabalhadores agrícolas e a imigração no centro das atenções, tornando-se uma referência na representação do Brasil do interior na televisão.
Nascido em 17 de abril de 1931, na cidade de Gália, interior paulista, Barbosa cresceu entre os cafezais e as comunidades formadas por descendentes de imigrantes na região de Vera Cruz. Sua trajetória profissional começou cedo, após a morte precoce do pai, o que o levou a exercer ofícios diversos para sustentar a família, até se decidir pela comunicação. Antes de migrar para a televisão, chegou a atuar no teatro, com a peça Fogo Frio, encenada pelo Teatro de Arena de São Paulo. Essa vivência moldou a visão de mundo que ele transportou mais tarde para a ficção televisiva.
Sua estreia como novelista ocorreu na década de 1960, mas foi em 1971, com Meu Pedacinho de Chão, que encontrou a marca que definiria sua carreira. Ao longo de mais de cinco décadas como autor, consolidou um estilo próprio, marcado por sagas familiares que atravessavam gerações e mostravam como escolhas do passado repercutiam no futuro dos descendentes de seus personagens. Além da temática, sua obra redefiniu a estética dos folhetins nacionais. Com uso intensivo de locações naturais, fotografia cinematográfica e longas sequências externas, a paisagem deixou de ser cenário para se tornar elemento ativo das narrativas. Esse modelo demonstrou que era possível obter sucesso comercial e atrair o mercado publicitário retratando um Brasil rural, distante das grandes metrópoles.
Entre suas produções mais marcantes está Pantanal, lançada em 1990 pela TV Manchete, que registrou índices históricos de audiência e desafiou a hegemonia da Globo, sua antiga casa. Após o resultado, retornou à emissora da família Marinho, na qual criou Renascer, em 1993, outro marco da teledramaturgia rural, e O Rei do Gado, de 1996, que eternizou a rivalidade entre as famílias Mezenga e Berdinazi. Produções como Os Imigrantes, Terra Nostra, Sinhá Moça, Cabocla e Velho Chico também construíram um registro da formação cultural do país. Assinou ainda o texto de Sítio do Picapau Amarelo, exibido pela Globo a partir de 1977, e trabalhou no cinema, com roteiros para filmes como O Dia que o Santo Pecou e Mágoa de Boiadeiro. Nos últimos anos, as regravações de suas novelas confirmaram que temas como pertencimento e identidade continuam atuais. Ele morreu na terça-feira 7, aos 95 anos, em razão de insuficiência renal crônica.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003






