‘Bahia é uma porta para o mundo’, diz autora norte-americana
Tracy Mann, que lança 'O mundo todo é Bahia: memórias do Brasil', conversou com a coluna GENTE
A autora norte-americana Tracy Mann chegou à Bahia, na década de 1970 em um programa da universidade para estudar no exterior. Durante o período em que ficou em Salvador, conheceu figuras ilustres da música brasileira, como Gilberto Gil e Caetano Veloso. Mais de 50 anos depois, lançou O mundo todo é Bahia: memórias do Brasil (ed. Laranja Original), que conta como foi o período na capital baiana. A escritora estará na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) na Casa Motiva, para falar sobre a obra e como foi conviver com tantos artistas que logo despontariam no cenário cultural. A coluna GENTE conversou com Tracy sobre suas memórias e histórias.
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Por que fazer um livro sobre Bahia só agora? O empurrão de fazer o livro, que já estou há alguns anos com essa ideia, foi a idade das pessoas de quem falo ali. É uma obra que fala da minha vivência na Bahia na década de 1970, eu era jovem estudante, e tive oportunidade incrível de conhecer os grandes nomes da cultura brasileira, ainda mais da cultura baiana. Algumas figuras do livro já faleceram, infelizmente, e de certa forma o livro é como entregar um agradecimento aos que foram e são essenciais na minha vida.
Como foi o processo para revisitar essas memórias? Fiquei muito curiosa em entender por que essas memórias ficam tão presentes na minha mente. Tinha escrito vários diários durante os anos, mas nessa pesquisa descobri um fenômeno psicológico para todos nós: a primeira experiência das coisas, a primeira viagem, primeiro amor, primeiro trabalho, tudo acontece dos 17 aos 25 anos. E essas memórias ficam presentes nas nossas cabeças, isso me ajudou. Às vezes, até hoje, viajo para aquela época.
O que foi mais importante da Bahia na sua trajetória? O ditado que o Gil falou, que é o nome do livro, “o mundo todo é Bahia”. Bahia foi, de fato, uma porta para o mundo, para eu me sentir confortável, aceita no mundo. Isso me deu, em vários momentos, coragem de fazer uma vida talvez nem tradicional, mas que achava melhor para mim, com senso de conforto.
Gilberto Gil e os demais souberam do livro? Enviei o livro para o Gil através de um amigo nosso; não sei se ele leu, nem o que achou. Mas recentemente vi uma entrevista da Preta Gil, em que ela contava que o pai às vezes falava frases que ninguém entendia na hora, e só depois é que faziam sentido. Foi exatamente essa a sensação que tive quando ele me disse aquela frase, era para me deixar mais sossegada, já que eu não tinha como ficar no Brasil naquela época.
Teve algum choque cultural por escrever sobre um país que “não é o seu”? Não, um país que não é meu, mas que faz parte de mim, e faço parte dele, isso é muito bonito. Tomara que todos nós pudéssemos sentir isso, de fazer parte de outros países, perdendo essa noção de fronteiras e limites nacionais. Prefiro muito mais viver como uma cidadã do mundo, me dando bem com todo mundo, do que pensar nas divisões que temos hoje.
Onde guarda a emoção dessas memórias de tempos que já não voltam mais? Uma coisa que me emociona é lembrar da gente jovem, aquela paixão que se sentia só com 17 anos, quando o mundo era nosso. E também o momento em que revi o Gil, depois de muitos anos, num teatro em Nova York, pouco depois da morte do Pedro. Fazia uns 20 anos que a gente não se via, e eu tinha certeza que ele não ia lembrar de mim, mas se lembrou.
Que mensagem você espera que o leitor brasileiro leve do seu relato? Quero que o brasileiro entenda meu carinho, minha paixão pelo Brasil, minha gratidão aos grandes nomes e também aos nomes não conhecidos que me receberam com tanto amor. E que reconheça cada vez mais como o Brasil é importante, o que tem a oferecer ao mundo. Se eu puder compartilhar um pouco do que sinto, ficarei feliz, que as pessoas reconheçam um país cheio de riquezas, belezas, coisas que devem ser apreciadas.
O que acha que todo mundo deveria saber sobre a Bahia? É um lugar para se apaixonar, sem jeito, seja por uma pessoa, por um baiano, pela praia, paisagem, comida. De certa forma, a gente sente ali a alma do Brasil, por ter sido o primeiro contato dos europeus, mas também pelos quilombos, pelos povos indígenas. É preciso ir com a mente aberta. Uma coisa que ainda me incomoda é a visão, no sul do país, de que baianos são preguiçosos, que não prestam, que não trabalham, não gosto disso. Tem que saber que aquilo faz parte do país, do patrimônio. É preciso ir para abraçar tudo que a Bahia oferece.
O que percebeu de diferente do Brasil comparado aos Estados Unidos? Eu acho que o sistema de classe que o Brasil tinha naquela época, não como hoje, era muito marcado: os negros, os indígenas estavam em um nível muito baixo, desconsiderados pela sociedade. Isso também acontecia nos Estados Unidos, mas lá a gente falava sobre isso, no Brasil não. E tentava entender por quê. Além de tudo, a ditadura, porque ninguém tinha me falado da ditadura. Quando fui pela primeira vez ao centro tirar minha carteira temporária de identidade, e vi homens armados e tudo mais, tomei um susto.
Não sabia? Não, porque o governo americano era muito a favor da ditadura, era mais favorável economicamente. Então não falaram nada.







