Autor de ‘Um Dia’, David Nicholls lança novo livro e desabafa sobre maturidade: “Escrevo sobre amor”
Romântico incurável, o escritor inglês deixa de lado os personagens joviais que marcaram seus best-sellers para explorar as relações entre adultos desiludidos
“Eu escrevo histórias de amor”, afirmou David Nicholls, sem delongas, em entrevista a VEJA. Autor de sucessos como Uma Dor Tão Doce, Nós e Um Dia — esse último vertido em um filme popular com Anne Hathaway, em 2011, e em uma série da Netflix, em 2024 —, o inglês notou que sua curta produção literária tinha um calcanhar de aquiles: em cinco livros, ele reservou as delícias e as dores das relações românticas à juventude. A escolha refletia o charme comum que envolve o primeiro amor, ou a cratera emocional causada pela primeira desilusão — material saboroso para a literatura. Agora, aos 59 anos, Nicholls se viu pronto para explorar outra dimensão do romance: aquela que, na maturidade, também é capaz de florescer — mesmo entre os desiludidos. Assim nasceu Você Está Aqui, a obra mais madura, profunda e hilária de sua carreira.
Na trama, um grupo de amigos sai em caminhada pela rota Coast to Coast, trajeto turístico de 306 quilômetros na Inglaterra que liga o Mar da Irlanda ao Mar do Norte, levando em torno de quinze dias para ser percorrido a pé. Na viagem, Marnie, uma editora de 38 anos cuja vida monótona se resume a remoer lembranças desagradáveis do ex-marido, conhece Michael, um professor de geografia que, recém-divorciado aos 42, criou o hábito de fazer longas caminhadas remotas para evitar o vazio da própria casa.
Os dois adultos desajeitados relutam diante da possibilidade de um novo relacionamento. Como descreve o autor, trata-se de uma história sobre o amor cético. “Como superar as inseguranças e as ansiedades que a sociedade impõe a pessoas que, na meia-idade, não têm uma relação duradoura, um trabalho de alto poder aquisitivo ou filhos?”, diz Nicholls. A reflexão surgiu durante o confinamento da pandemia, quando observou amigos nessa situação, vivendo sozinhos. Há um paralelo nas entrelinhas: duas pessoas que estavam fechadas por dentro voltam a espiar do lado de fora, redescobrindo o prazer de sair do isolamento. “Frequentemente, a solitude é retratada como uma experiência negativa”, analisou. “Eu queria escrever algo digno das pessoas que não estão em uma relação, mas que têm suas próprias vidas, interesses e paixões.”
Sendo um romântico incurável, Nicholls oferece a esses personagens a chance de um recomeço amoroso: “É sobre a alegria da companhia, mas também a dignidade da independência”. Atualmente, o escritor trabalha na adaptação do livro para uma aguardada série de TV no canal BBC, em parceria com o elegante diretor irlandês Lenny Abrahamson, nome por trás da minissérie Normal People e do filme O Quarto de Jack. Amores maduros também são pop.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005







