Ator de Ted Lasso a VEJA: “Nos sugeriram convocar a Marta”
Comédia mais bem-sucedida do Apple TV, a série retorna para uma quarta temporada com novos desafios
Se o apelo da série Ted Lasso ainda lhe escapa, aqui estão palavras de ninguém menos que Tim Cook, CEO da Apple. “É uma trama sobre a força do otimismo, de acreditar em si mesmo e no trabalho em equipe. São lições que todos nós podemos aprender”, disse a VEJA, em Los Angeles, durante o evento de lançamento da quarta temporada da produção, que chega ao Apple TV na quarta-feira 5. Cook tem uma razão extra para ser fã do seriado: ele venceu treze prêmios Emmy e foi o primeiro a romper a bolha de poucos assinantes do canal e alcançar o grande público, abrindo a porta para que outros títulos da casa também ganhassem projeção.
As qualidades que garantiram o sucesso do programa são muitas, mas, para além do roteiro afiado e de personagens cativantes, Ted Lasso encontrou um público sedento por alívio escapista ao estrear, em 2020, em meio às dores do confinamento da pandemia de covid-19. Na trama, o personagem-título, um caipira assumido e treinador de futebol americano vivido por Jason Sudeikis, é contratado para liderar um time de futebol (o de verdade, com os pés, que já foi nosso) na Inglaterra. Lasso não entende nada das regras do esporte, está completamente perdido, mas sabe como motivar um time. Entre trapalhadas cômicas e tiradas emotivas, ele conquista os tipos mais durões em cena — enquanto seduz o público no sofá de casa, diante da televisão ou do computador. A série deveria chegar ao fim na terceira temporada, mas, por demanda popular, brotou uma quarta fase, ainda mais interessante. Sai de campo a macholândia do time fictício Richmond e entra uma equipe de mulheres, apelidada de Lady Greyhounds. As atletas carregam a velha desconfiança de torcedores e acionistas — além de dramas típicos do mundo feminino, como o romance entre colegas e a maternidade.
As implicações desse universo, é sempre bom lembrar, extrapolam a ficção. O interesse pela modalidade vem crescendo, mas ainda está longe de rivalizar com o masculino. Segundo pesquisa da Nielsen, a base global de fãs da vertente feminina deve crescer 38% até 2030, passando de 500 milhões para 800 milhões — enquanto a ala masculina soma estonteantes 4 bilhões de admiradores no mundo. Sudeikis almeja dar um empurrãozinho nas estatísticas, para ambos os gêneros. “Nos Estados Unidos, o futebol era o quarto esporte mais popular antes da série. Agora é o terceiro, atrás apenas do futebol americano e do basquete”, disse, orgulhoso, o protagonista e cocriador da trama (leia a entrevista). Não por acaso, Sudeikis participou da cerimônia de encerramento da Copa do Mundo deste ano, com o figurino e o bigodinho de Ted Lasso.
A busca por mais espaço e respeito para as mulheres, reafirme-se, será o pontapé dessa nova fase. Ted e seu fiel braço direito, o treinador Beard, papel de Brendan Hunt, ganham o reforço da experiente e ranzinza Alice Chilton (Tanya Reynolds), ex-jogadora cansada de ver mulheres desvalorizadas no esporte. Justiça seja feita: embora minoria, as personagens femininas já eram peças fundamentais do seriado. A começar pela dona do clube, Rebecca (Hannah Waddingham), uma espécie de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, da ficção. Originalmente, Rebecca briga para ficar com o time no divórcio — e planeja afundá-lo para se vingar do ex-marido, fanático por futebol. Por isso a contratação de Ted Lasso. Em vez de ser o último prego no caixão, o treinador injeta ânimo na equipe e, no processo, torna-se o melhor amigo da empresária. Agora, inspirada pelo fato de ser a única mulher no clube do Bolinha, Rebecca decide investir ainda mais. A escolha desperta questionamentos morais, entre eles o de pôr justamente um homem na liderança da equipe. “Foi interessante vê-la refletir sobre isso”, disse Hannah sobre o recente ímpeto feminista da personagem, que durante anos viveu à sombra do marido, o vilão da comédia.
Outro destaque é a adorável Keeley (Juno Temple), que começou como uma WAG — gíria para esposas (wife) e namoradas (girlfriends) de jogadores, ou uma “maria-chuteira”, termo politicamente incorreto, hoje em desuso — e se tornou dona de uma empresa de marketing que assessora o clube, com a ajuda de Higgins (Jeremy Swift), o hilário assistente de Rebecca. Com dez episódios lançados semanalmente, a quarta temporada será um esquenta oportuno para a Copa feminina do ano que vem, que será disputada no Brasil. O gramado também é delas.
“Nos sugeriram escalar a Marta”
Cocriador e protagonista de Ted Lasso, Jason Sudeikis falou a VEJA sobre os desafios da nova fase da série do Apple TV.
Sentiu pressão dos fãs para voltar? Um pouco. Várias pessoas gentis me paravam na rua e perguntavam: “Ei, você vai fazer mais? Teremos mais episódios? Sentimos falta da série”. E eu pensava: “Também estou com saudade”.
O final da terceira temporada parecia ser definitivo. O que o motivou a querer criar esta nova fase da série? Muitas das vozes dos personagens continuavam falando na minha cabeça. E essa não é uma forma muito fácil de conseguir dormir (risos). Decidi então pôr essas vozes todas no papel — para entregá-lo a pessoas muito mais talentosas do que eu. Assim, eles organizaram essas palavras de volta para mim.
Espera que Ted Lasso ajude a dar mais visibilidade à modalidade feminina do esporte? Isso acabou acontecendo até mesmo com o futebol masculino — que a gente pensava não precisar de ajuda. No entanto, aqui nos Estados Unidos, ele era o quarto esporte mais popular no país antes de começarmos a série e agora é o terceiro. O futebol feminino é incrível, e as mulheres jogam há muitos anos, dando um show em campo. Então, não é uma missão planejada, mas seria um “acidente muito feliz”, por assim dizer, se isso acabar acontecendo com um empurrão da série.
Podemos esperar uma personagem ou jogadora brasileira na série algum dia? Essa é uma ótima ideia. Inclusive, já nos sugeriram escalar a Marta.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







