As provocações e inquietudes de Elisa Lucinda, sem medo de expor o que pensa
Aos 68 anos, atriz e poetisa é a convidada do programa semanal da coluna GENTE
Elisa Lucinda, 68 anos, vive um momento auspicioso na TV Globo ao integrar o elenco da novela Coração Acelerado, na qual interpreta Zuleica (ou Zuzu), uma cantora independente e defensora da liberdade feminina. A personagem representa uma mulher madura, forte e dona da própria história, características que dialogam diretamente com a trajetória da própria atriz. Reconhecida também como poetisa, escritora e cantora, Elisa reforça um dos temas centrais da trama: o protagonismo feminino negro, consolidando mais um trabalho de destaque em sua carreira. Convidada do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal VEJA+ no Youtube, no streaming da TV Samsung Plus, LG, TCL e Roku; além da versão podcast no Spotify), ela recorda as lições que aprendeu com Tony Ramos, comenta a briga pública com padre Fabio de Melo, o que pensa das atitudes de Juliano Cazarré, entre outros temas.
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PROJETO POLÍTICO. “É muito mais fácil trabalhar com o que é da sua natureza. É da minha natureza cantar, dizer poesia, me importar com o outro. Sou um projeto político do meu pai e da minha mãe. Uma família negra, onde meu pai fez transição da vida de filho de operário para uma vida de intelectuais. A partir do meu pai, criou-se uma família de intelectuais. Os seus cinco filhos, a minha mãe, todos se formaram. Ele dizia que livro lá em casa tinha outro nome, ‘Nova Abolição’. (…) Fui criada numa casa onde umas coisas eram pecados violentos, todos tinham que saber de ética e justiça social. Era proibido tratar mal alguém, principalmente se trabalhasse com a gente em casa, se fosse mais pobre do que nós, principalmente uma pessoa negra”.
SER DE ESQUERDA. “Cresci achando que era correto não me apropriar desse relógio, não pegar o que é meu, não fazer o mal. Então, achava que isso era só ser uma pessoa boa. Só mais tarde entendi que isso era ser de esquerda, sabe? Aí pensei: ‘Olha, eu sou de esquerda, porque me interesso pelo bem-estar do meu semelhante’. Tudo isso é da mesma panela”.
LIÇÃO DE TONY RAMOS. “Puxo o tapete de quem está começando e é vaidoso. Muitas vezes faço isso para cair na real, principalmente se tiver junto com a gente uma camareira, um maquiador que são vítimas dessa escrotidão e não podem falar nada. Sei que tem o compliance e tal, mas não é fácil você reclamar de uma estrela. Não é fácil, mas eu posso. Me lembro quando fiz uma novela com Tony Ramos, meu mestre, um dos grandes que tive na televisão brasileira. E ele presenciou umas pessoas que queriam dar uma de glamour para cima dele, só que ele não gosta dessas coisas. Estávamos numa (gravação) externa, tinha lá uma comida para a gente, um garçom servindo no intervalo de uma cena… Aí uma delas quis puxar o saco dele e falou: ‘Garçom, sirva o senhor Tony Ramos, ele é o maior’. Ele respondeu: ‘Ela bebeu hoje, não liga não. Que isso? Eu pego o meu prato, não preciso que ninguém me sirva’. Foi quando ele falou para mim uma frase linda: ‘Todo mundo pode pensar que você é celebridade, menos você’.
VIRGINIA E A PREOCUPAÇÃO COM IMAGEM. “Há um incentivo à desforra. Eu posso só aparecer na internet feliz, muito bem maquiada, com filtro, como se tivesse um avatar. A disforia é isso. Estamos numa crise ética muito grave, pela falta de gentileza geral no mundo, falta de olhar para o outro. E no caso dela (Virginia) tem também uma associação nada benéfica às bets. Essas apostas online são uma coisa… Conheço muitas pessoas que se viram arrastadas pelo vício”.
PADRE FÁBIO DE MELO. “Perguntei do celibato do padre Fábio de Melo. Aquilo me causou um nó de discussão nas redes. Disse: ‘Eu não acredito nesse celibato’. Gente, acho que a maconha que eu fumei estava tão boa, que achei que ele ia concordar comigo. Ele não gostou. A internet pirou e minha secretária falou: ‘Você é louca mesmo’. E aquilo foi sincero como uma criança fala, sabe? Depois até liguei para ele. Acho um grande equívoco… Poxa, o que tem a ver o desejo de fazer bem à humanidade, de levar as palavras de Jesus de maneira verdadeiramente cristã, vale dizer, e ser homossexual ou ser heterossexual, tem uma vida ativa sexual? Há muita distorção, por exemplo, por que existe coroinha? Quem teve a ideia de pegar meninos (para auxiliarem as missas)? Eu era criança e meu pai falava: ‘Não quero saber de filho meu como coroinha’. Meu pai falava com uma força, e eu não entendia.
MEDO DE RELIGIOSOS. “Você fala que eu sou provocativa, mas eu não me conformo com o que é óbvio. Entro num carro, num aplicativo, e o cara fala: ‘Aleluia, Senhor’. Já fico com medo. Fico com medo, porque estou associando muitos crimes a um discurso de Deus, pátria e família”.
JULIANO CAZARRÉ. “É triste, tem uma frase do Antônio Calado, grande pensador: ‘Quando você tiver questões éticas, tem que fazer a segunda pergunta. Dilemas éticos, você pergunta: Eu guardando essa informação, a quem estou servindo? Se divulgo essa informação, a quem estou servindo?’. Se eu sei que está havendo feminicídio de forma alarmante, por que vou falar o contrário? Quando o Cazarré faz uma coisa dessa, sabendo que não é desinformado, além de ferir todo o conselho ético, presta um desserviço à população que o segue. Ele mente, ele sabe que mente. E o pior: fortalece o agressor”.
VESTIDO DO PADRE. “Quer ver uma coisa? Tenho que contar essa história. Um cara me contou lá no Santa Catarina, que ele tinha 8 anos quando um padre foi visitar a mãe dele: ‘Olha, vim dizer que ou você conserta o Flavinho agora ou ele vai envergonhar e emporcalhar o nome de vocês. Esse menino é afeminado, parece uma menina’. O menino tinha 9 anos. Ouviu aquilo e tentou se matar. Graças a Deus, não conseguiu. Aí, botei isso num espetáculo meu, e perguntei à plateia: ‘Caso ele tivesse morrido, de quem teria sido a culpa?’. Do padre, ou seja, da Igreja. Mas se fosse eu essa mãe, diria para o padre: ‘Saia da minha casa com esse vestido imediatamente’”.
CORAÇÃO ACELERADO. “Sou a mais velha atriz das mulheres (na novela). Pela primeira vez sou a mais velha do elenco. Uma hora a gente chega nesse lugar de dar carteada geral (risos). Ah, mas se eu estiver de shortinho, fico mais poderosa ainda, porque para mim maturidade não tem a ver com decadência. Tem a ver com potência. Sempre alguém fala: ‘Você não tem medo de ser cancelada?’. Meu amor, antes de haver cancelamento, eu seria cancelada sem saber, no mercado de trabalho, quando os pretos não podiam entrar em lugares, em produções que deveriam entrar. O pior já passou, estou em outro lugar. já caminho sobre o que plantei”.
USO DE MACONHA. “Não tenho necessidade de fazer uso da maconha, mas acho que a maconha pode abrir os canais sensoriais, isso é muito particular. É um atraso da humanidade brigar tanto com a maconha, coitada. Ela é boa aliada nos processos criativos. É só uma erva usada pelos povos originários”.
PACTO DA BRANQUITUDE. “A esquerda se rendeu à pauta de gênero, mesmo quando já foi mais conservadora, mas não se rendeu à pauta racial, que é um assunto grave. Tem um pacto da branquitude acontecendo. Chego em todos os lugares, e a primeira coisa que faço é contar quantas pessoas pretas estão ali. Meu olhar já conta. Eu chego num restaurante, inclusive não fico. Falo: ‘Não quero ficar num restaurante onde só tem branco o tempo inteiro’. Parece bobagem, mas a gente tem que saber que está compactuando com uma herança que a Casa Grande deixou em nós. Até para nós negros de 40 anos atrás, muitos de nós nos achávamos feios. A maior prova disso é que a gente chama de beiço o que as brancas fazem com botox nos lábios”.
Captação de imagens e edição: Libário Nogueira / Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA+ no Youtube; Samsung TV Plus (canal 2075), LG Channels (canal 126), TCL Channel (canal 10031) e Roku (canal 221); ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.







