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As novas relações profissionais nascidas com a pandemia

Os jovens da Geração Z pressionam os nem tão jovens assim da Geração Millenial. As mudanças já batem à porta – entendê-las é a única saída

Por Da Redação Atualizado em 10 dez 2021, 16h58 - Publicado em 1 dez 2021, 18h54

A retomada do trabalho em formato híbrido, parte do tempo em casa, parte no escritório, talvez seja a faceta mais nítida, e também a mais delicada, do que se convencionou chamar de “o novo normal” – expressão um tanto batida, é verdade, mas que traduz à perfeição o cotidiano que brotou com a pandemia. A atual explosão de casos de Covid-19 na Europa e a sombra incômoda da nova cepa descoberta na África do Sul impõem preocupação, em muitos países representarão um freio, mas é inquestionável que aos poucos, e com o devido cuidado, o cotidiano renascerá. Salve, portanto a vacinação, a mais poderosa arma da ciência contra o negacionismo. Há vida ali na frente. Mas, insista-se, será outra coisa, e o mundo do trabalho é que servirá de palco de um balé que já não será como antes.

Um modo de entender o que mudou é olhar para os jovens da chamada Geração Z, dos nascidos entre 1996 e o começo dos anos 2000. É uma turma, portanto,  que tem de 21 a 25 anos. Representam o primeiro grupo populacional da civilização  a nascer com o smartphone em mãos, dentro da internet, atrelados à urgência e à superficialidade das redes. É essa turma que faz da existência pós-pandemia – se é que se pode falar em pós-pandemia, porque ela não acabou – um bicho diferente. Meninas e meninos recém saídos da faculdade impõem gostos, querem determinar horários, exigem ser tratados dentro das regras de seu universo. Talvez seja, em bom português, a geração mais abusada desde a juventude do paz & amor do final dos anos 1960, quando tudo o que precisávamos era amor.

Uma pesquisa da consultoria americana Firstup feita recentemente revelou que os Z querem mesmo é um balanço adequado entre a vida profissional e pessoal (39% dos entrevistados apontaram esse equilíbrio como ponto fundamental). Não estão nem aí para grandes salários (com 13% de citações). São céticos (43%) e abominam o cinismo (somente 1,4% admitiu comportamento cínico). É, enfim, um grupo que veio para balançar as estruturas profissionais, e convém ouvi-los. Os Millenials, apenas um tantinho mais velhos  (nascidos entre 1981 e 1996, de 20 a 40 anos) já sofrem com a chegada de seus irmãos mais novos na busca por emprego e espaço.

Para entender um pouco desse fenômeno, VEJA conversou com Carina Abud Alvarenga e Cinthya Soares Okawa, autoras do livro Conversando se Entende (Editora Arquipélago). É um excelente livro sobre as relações dentro e fora do trabalho, olhar cuidadoso e moderno em torno dos conflitos e emoções que nos conduzem dentro daquilo que é humano, demasiadamente humano. Não é uma obra sobre conflito de gerações, ela voa mais longe, de modo sempre inteligente e inovador. Se é o caso de buscar atalhos, de seguir conselhos, convém saber como a juventude – ah, a juventude – pode lidar com o que lhes é estranho, porque a vida mal começou.

Com  imenso acesso a tecnologia e informações, a geração Z,  a primeira nascida com smartphone em mãos, pode vir a mudar o mercado de trabalho como nunca antes?

Em nosso ponto de vista sim, essa possibilidade de mudança é real e já está acontecendo. A experiência de se viver em um mundo ultra conectado permite que sejam absorvidas melhores práticas desenvolvidas em diversos pontos do planeta, assim como a obtenção de informações relevantes com potencial de transformar negócios e trazer inovação e isso é algo intrínseco e natural aos indivíduos da geração Z.

A questão que fica para nós é como isso pode ser feito levando-se em consideração as outras gerações (analógicas) que também estão no mercado de trabalho. Para que essa seja uma transformação coletiva e mais forte.

Sabemos que as diferenças entre as gerações existem e que, por exemplo, uma pessoa da geração Z que atualmente trabalha em casa por meio de inúmeros devices, terá que, em muitos casos, retornar ao escritório mesmo que de forma híbrida. Esse é um desafio que tende a gerar conflito negativo se não for bem cuidado.

Para que grandes transformações ocorram, é preciso mais que boas ideias, é preciso engajamento coletivo, disposição para o debate produtivo e muita, mas muita conversa mesmo, capaz de levar a organização para outro patamar.

Informação é sempre bom, informação é poder. Mas pode ser também instrumento de arrogância? Dito de outro modo: jovens tão jovens que realmente sabem muito podem ser arrogantes nas relações profissionais?

Esse é um tipo de postura que costuma aparecer, principalmente quando falamos de jovens que ainda estão em processo de amadurecimento profissional. Eles acreditam que já sabem tudo sobre determinados temas, discursando sobre eles com propriedade e pouca disponibilidade para escuta. Porém, essa não é uma postura exclusiva dessa geração, pois com certa frequência ainda a encontramos em profissionais mais experientes.

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O que se apresenta é a necessidade de se desconstruir as certezas absolutas – causadoras da arrogância – para que não resultem em conflitos danosos. Em nosso livro, Conversando se Entende, provocamos o leitor a refletir sobre essa postura e incentivamos uma mudança de mentalidade: “…. quando estamos nos comunicando, é importante deixar nossas verdades “reservadas” – elas nos guiam, mas não são absolutas, não devem nos cegar à verdade do outro. Precisamos dar oportunidade a nosso interlocutor de nos conduzir (através da história dele) por outro caminho. Dar a nós mesmos a chance de enxergar rotas diferentes e de criar com nosso interlocutor uma verdade em conjunto. Isso é importante, pois quando partilhamos da mesma verdade conseguimos manter elevado nosso grau de confiança numa relação, fazendo com que a comunicação flua mais tranquilamente.”

É possível o trabalho em equipe de um jovem Z, mal passado dos 20 anos, com um Baby Boomer de 50?

Não apenas é possível ter uma equipe formada por várias gerações, como é recomendável. O conhecimento de um não exclui o do outro e se compartilhados dentro de um ambiente de confiança e respeito, a performance dessa equipe estará em outro nível.

É comum termos ressalvas com pessoas que pensam e atuam de forma diferente da nossa. Isso também acontece no caso dos baby boomers com a geração Z. Em nosso dia a dia o que verificamos é a tentativa inócua de suprimir conflitos geracionais sem as devidas habilidades, já que dados apontam que executivos gastam, em média, até10hs semanais tentando administrar conflitos.

Em nossa visão, os conflitos, incluindo os geracionais, são inerentes às relações e devem ser vistos como oportunidade de crescimento. O que deve ser levado em consideração é que a vivência prévia e história de vida de cada um irá influenciar na forma como enxerga o mundo, o que não quer dizer que haja de fato uma discordância ou embate, mas simplesmente pontos de vista diferentes, que precisarão ser bem gerenciados.

É comum hoje, mais do que no passado, um jovem chefiar alguém muito mais velho do que ele. Como estabelecer uma relação saudável?

Relação saudável. Esse termo é interessante. Acreditamos que seja o tipo de relação que todo mundo procura ter e manter na vida. Mas como se inicia uma relação saudável? Entendemos ser este o ponto central da pergunta. E a nossa resposta é que relações saudáveis se estabelecem dentro de uma atmosfera de confiança.

Dedicamos um capítulo inteiro em nosso livro para tratar desse tema. Sem confiança muito pouco prosperamos, em especial em equipes e nas relações organizacionais como um todo.

Independentemente de quem esteja exercendo a liderança (um profissional sênior ou um jovem há pouco formado) é imperativo que se desenvolva em um ambiente seguro. E como fazer? Estando aberto à possibilidade de errar e reconhecer o erro, identificando aprendizados e abraçando a vulnerabilidade. Isso é valorizar o fato de que ninguém sabe tudo e entender que perguntas e pedidos de ajuda são necessários inclusive ao líder contemporâneo, que conseguirá desenvolver uma equipe alinhada e de alta produtividade.

Capa
A capa da obra “Conversando se Entende”. Reprodução/Divulgação

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