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As escritoras que renovaram a literatura de terror na América Latina

Um movimento transforma lendas da região e cicatrizes sociais e políticas em intrigantes tramas de terror sobrenatural

Por Beatriz Haddad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 jun 2026, 08h00
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Em Buenos Aires, um bairro assolado por assaltos e sequestros-relâmpago passa a testemunhar aparições sobrenaturais: é o início de uma epidemia de fantasmas. Emma, uma médica de 60 anos que mora com o espírito da mãe, que morreu vítima de um câncer, é a única com o dom de acalmar as almas agoniadas vagando pelas ruas. A trama embala a texto de abertura do notável Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria, coletânea de doze contos da argentina Mariana Enriquez, 52 anos, recém-publicada no Brasil pela editora Intrínseca. Jornalista de formação, ela tece histórias de terror sobrenatural inspiradas em traumas do país, entre eles os deixados pela ditadura — nesse mesmo conto, um adolescente escapa dos sequestradores e, ao pedir ajuda pelas casas, não encontra ninguém disposto a abrir a porta. “O fantasma do garoto vinha todas as noites para nos lembrar de nossa miséria, nossa mesquinharia e nossa covardia”, escreve.

Inspirada na obra dos conterrâneos Julio Cortázar, Alejandra Pizarnik e Jorge Luis Borges, Mariana gosta de deixar clara suas alegorias. “Prefiro o horror enraizado na vida real, como Stephen King faz para retratar sua sociedade”, disse ela a VEJA. “É uma maneira de se conectar ao passado, que muitas vezes é cruel demais para ser expresso diretamente.”

URUGUAIA - Fernanda Trías: natureza como elemento ativo de suspenses filosóficos
URUGUAIA – Fernanda Trías: natureza como elemento ativo de suspenses filosóficos (@triasfernanda/Instagram)

Provando que o recurso se aplica aos que passaram por experiências parecidas, a argentina reforça uma geração de escritoras latino-americanas, sobretudo do sul do continente, que traduzem feridas sociais e políticas através do sombrio. Além de Mariana, a também argentina Samanta Schweblin vem conquistando leitores pelo mundo: ela acaba de ganhar o Prêmio Aena de literatura em espanhol, no valor de 1 milhão de euros, pelo livro O Bom Mal. Também neste ano, a brasileira Ana Paula Maia foi finalista do prestigioso Booker Prize com o título Assim na Terra como Embaixo da Terra. Ambas leituras perturbadoras e viciantes, sobre o lado obscuro da humanidade. “É natural que busquemos narrativas que lidem com a solidão, a violência, a confusão em relação ao que é real e com dilemas morais”, analisa Mariana.

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Há ainda exemplares que bebem de lendas antigas e folclóricas, como o romance A Montanha das Fúrias, da uruguaia Fernanda Trías, 49 anos, lançado em maio no Brasil pela Instante. A trama conversa com o chamado novo gótico latino-americano: uma mulher é encarregada de cuidar dos limites da montanha onde vive e reportar anomalias ao único morador próximo, o Zelador. O cotidiano pacato, no qual ela mantém um diário de reflexões sobre a vida dura que tinha antes do isolamento, é assolado pelo aparecimento de uma série de cadáveres em seu jardim. Vivendo há dez anos em Bogotá, Fernanda usa elementos da natureza e um mistério fictício como metáforas para os desaparecimentos e massacres que assombram a Colômbia, sejam eles históricos ou recentes. São muitos os fantasmas ao sul do Equador.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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