As dicas do autor de ‘A Geração Ansiosa’ para melhorar a saúde mental das crianças
Jonathan Haidt adaptou a obra para o público infantil
O psicólogo Jonathan Haidt já havia vendido 2 milhões de cópias do badalado A Geração Ansiosa quando decidiu mudar o público-alvo. Depois de alertar os pais sobre o impacto dos smartphones e das redes sociais na saúde mental de crianças e adolescentes, “traduziu” o best-seller para a linguagem dos pequenos, falando diretamente com os mais afetados pelo que chama de crise da infância. “Era importante trazê-los para essa discussão. Precisávamos de um livro infantil”, explica o autor, de 62 anos, sobre A Geração Incrível, lançado há pouco tempo por aqui e voltado para a faixa etária dos 9 aos 12 anos.
Ricamente ilustrada, a obra fortalece um filão que faz pais e professores sorrirem de orelha a orelha: livros e filmes que abordam a saúde mental infantil, ajudando as crianças a lidar com as próprias emoções. Lançado em 2015, Divertida Mente foi um pioneiro desse movimento no cinema e dobrou a aposta em sua sequência ao introduzir a Ansiedade, retratada como uma personagem alaranjada, irritante e quase incontrolável, que bagunça as emoções da protagonista. Outro longa na mesma linha, Red: Crescer É uma Fera acompanha Meilin na puberdade: a garota de 13 anos se transforma em um panda-vermelho gigante ao primeiro sinal de emoções intensas, como a angústia e a vergonha. Para os menores, há ainda livros como O Monstro das Cores, de Anna Llenas, queridinho dos professores ao representar os sentimentos por meio de diferentes cores, facilitando a conversa sobre temas como alegria, tristeza e raiva em sala de aula.
Baseado em uma obra adulta, recheada de análises científicas, o livro de Haidt também trata o tema de forma lúdica. Na história, os magnatas da tecnologia são magos ambiciosos que monopolizam a atenção das crianças com pedras mágicas — os smartphones —, afastando-as dos amigos e alimentando a ansiedade. Isso muda quando jovens rebeldes decidem reagir embarcando em aventuras no mundo real, que estimulam a interação social. “O adolescente médio passa cerca de oito a dez horas por dia diante de algum tipo de tela. Com isso, dorme e se exercita menos, recebe menos luz solar e passa cada vez mais tempo sozinho”, aponta Haidt. Para o escritor, a solução não é eliminar totalmente os celulares, mas recuperar uma infância mais próxima da vivida pelas gerações anteriores. “Precisamos criar espaços para que as crianças possam se divertir sem a supervisão direta de um adulto. É importante deixar que escolham suas próprias brincadeiras, decidam o que fazer e conquistem autonomia”, diz. Segundo ele, um celular básico para fins de comunicação não representa um problema, mas um smartphone com acesso à internet pode expor crianças a pessoas mal-intencionadas, além de prejudicar sua saúde. O autor acrescenta: “Os danos indiretos são o principal foco do debate hoje. Passar cinco horas por dia se comparando a outras garotas nas redes, por exemplo, pode levar à depressão? Para mim, está claro que sim”.
Em alta nos últimos anos, o fenômeno literário é uma resposta à piora significativa dos índices de sofrimento psicológico entre os mais jovens. Na última década, os atendimentos relacionados a transtornos de ansiedade e sofrimento emocional no SUS aumentaram 1 575% entre crianças de 10 a 14 anos e 4 423% entre adolescentes de 15 a 19 anos. A crise também se manifesta em escala global: estimativas apontam que uma em cada cinco crianças convive com sintomas de ansiedade e depressão. Os smartphones e o acesso irrestrito às redes sociais são apontados como alguns dos fatores que alimentam essa epidemia, levando países como Brasil e Austrália a proibir seu uso nas escolas. Com as questões de saúde mental surgindo cada vez mais cedo, é natural que o tema ganhe destaque — e preocupe pais, educadores e especialistas. A boa notícia é que a busca de apoio psicológico já não é um tabu como antes, e filmes, séries e livros como o de Haidt ajudam a iniciar esse diálogo desde a infância. “Estou feliz com o rumo que essa conversa tomou”, diz o autor. Considerando-se o tamanho do problema, é uma conversa mais do que necessária nos dias de hoje.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003







