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As artes tomam conta de Mônaco

Por The New York Times - 16 out 2010, 19h20

Uma nova ópera e algumas exposições em museus estrearam em Mônaco recentemente, prova da mais nova aposta do prestígio cultural do principado. A ópera foi um tanto arriscada, mas os museus pertencem a principado, onde recentemente a princesa Caroline, grande apreciadora da cultura, está fazendo das artes uma prioridade. Até mesmo o Museu Oceanográfico, considerado um dos tesouros da Europa e queridinho do naturalista príncipe Albert, pôs os pés na água neste verão com um atração que mistura os animais de Damien Hirst conservados em formol e gigantescos quadros pontilhistas entre estupendas mostras antigas de equipamento náutico e criaturas marinhas. O que pode se dizer sobre o trabalho de Hirst, que transformou o museu num verdadeiro formigueiro com novos visitantes e turistas, é que não é tão mal quanto se imagina. A maioria era grosseira ou pouco relevante, ainda que algumas das pinturas multicoloridas dessem vida aos saguões espaçosos e corredores de entrada. Quanto à ópera, o compositor americano e prodígio dos computadores Tod Machover, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em parceria com laureado poeta Robert Pinsky, uniram-se para criar uma história futurista na qual um zilionário doente que inventa um robô se transforma em máquina para se fundir num tecnologia um tanto “Matrix” chamada The System. Uma reflexão sobre a imortalidade, que termina sendo uma verdadeira negação. Ok. Até aqui, nenhuma novidade boa, mas uma brilhante atração do artista alemão Thomas Demand na Villa Paloma, um dos novos museus, compensa. Ele foi convidado por Marie-Claude Beaud, a excepcional diretora do Museu Nacional, para montar a exposição de inauguração do Villa. Decidiu então, junto a alguns de seus trabalhos, expor uma gama de artistas, atuais e alguns já falecidos, começando por Magritte, que inclui dois fotógrafos que deverão ser revelações para a maioria do público. A Villa, uma antiga casa no alto na cidade, foi renovada há pouco tempo, junto com a Villa Sauber, próxima à costa. Lá, uma exposição de trajes do artista negro britânico Yinka Shonibare mostra uma coleção permanente de relíquias teatrais que datam do glorioso tempo de Charles Garnier e Serge Diaghilev. Não é à toa que os surrealistas adoram Mônaco. É irreal. Com quase metade de tamanho do Central Park, o lugar se vangloria de ser um dos paraísos fiscais mais espetaculares fora de Seichelles, junto ao cheiro de jasmim que paira nas brisas mediterrâneas de bangalôs e palacetes cercados de palmeiras, o Sol banhando os rochedos do mar repleto de iates. As únicas coisas selvagens aqui são os porsches de fibra de carbono estacionados no Hotel Hermitage e as “alegres” ricaças russas com óculos de titânio e seus Manolo Blahniks tropeçando nos pugs de estimação no Allee des Boulingrins. Com tantos imóveis preciosos, cada metro quadrado aqui está à venda. Dessa forma, a natureza – na terra e no mar – ou compete com o comodismo humano ou, na melhor das hipóteses, junta-se a ele, como o Jardin Exotique, um dos mais estranhos jardins botânicos da Europa, que se acomoda sobre a baía à frente dos rochedos e a sinuosa camada de pedras com cactos raros e outras mostras florais exóticas. Demand utilizou o jardim como seu ponto de partida conceitual, abordando natureza e o artificial, ou como ele mesmo prefere, a “natureza domesticada.” Suas próprias fotografias feitas em cartolina em tamanho real, baseada em coisas e lugares reais, incluindo paisagens, por si só já são um enigma. São coisas difusas entre o que é real e o que é arte, que ajudam a explicar sua preferência eterna por Magritte, um pintor agora considerado cafona. Demand, um artista conhecido por saber o que está sempre acontecendo no momento, intitula seu trabalho em homenagem a uma revista feita por Magritte, La Carte d’Apres Nature (O mapa por trás da natureza). Henrik Hakansson, artista suíço que faz gravações de sons de pássaros, também foi convocado para gravar pássaros da região que acabam se complicando com o barulho das ruas de Mônaco. O artista alemão Ger van Elk foi representado por um curto vídeo produzido para a TV alemã no início dos anos 70 em que aparece podando um cacto com um barbeador elétrico. Quanto aos fotógrafos revelações, o primeiro, August Kotzsch, é um paisagista alemão do século 19 excluído da maioria dos livros tradicionais de história porque suas opiniões sobre arbustos, árvores e gramados – lugares atemporais e difíceis de identificar com precisão – não serviam para a narrativa clássica de história da arte. Uma pena para as narrativas. Ele é uma espécie de Atget alemão do campo. A outra revelação é Luigi Ghirri. Querido por sua expertise agora, mas geralmente desconhecido do público, foi um revolucionário italiano nos anos 70 e 80. (Ele morreu aos 49 anos, em 1992.) Enigmas e pedras, suas fotos instantâneas com impressão em verniz um tanto sem cor de esquinas abandonadas da região de Emília-Romanha exalam o superficial. Demand criou ambientes combinando as fotografias em cada cômodo. Ele inclui ainda algumas dúzias de Ghirris na exposição, que termina sendo acima de tudo uma comemoração a Ghirri.

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