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Argentino ‘Relatos Selvagens’ narra vingança com ironia

É perversamente saboroso acompanhar alguns dos episódios. É por essas características e também pela estética visual que o longa está mais para Almodóvar, seu produtor, que para Hollywood

Por Simone Costa 17 out 2014, 08h56

Diz o ditado que vingança é um prato que se come frio. Em Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, Argentina/Espanha, 2014), ela acontece quase sempre de forma impulsiva, diante de uma total perda de controle ou de uma incapacidade de julgamento moral. Nas duas horas do filme do argentino Damián Szifrón – que tem mais duas sessões na Mostra Internacional de São Paulo, que abriu em sessão para convidados na noite da última quarta, e estreia em todo o país no dia 23 -, desenrolam-se seis curtas unidos pelo tema da vingança, todos estruturados com início, meio e fim, e cada um com ritmo e tensão crescentes que culminam em um final inusitado. Ainda que haja variações entre eles, já que dois são especialmente bem delineados, o resultado do conjunto é algo alegremente criativo.

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Isso mesmo. A violência aqui não tem nada a ver com a de filmes como Um Dia de Fúria (longa de 1993 com Michael Douglas), por exemplo. Por trás dos atos de fúria, ou talvez até se sobressaindo a eles, está a ironia, o sarcasmo e o humor negro. É perversamente saboroso acompanhar alguns dos episódios. É por essas características e também pela estética visual que o longa está mais para Almodóvar que para Hollywood. Aliás, é o diretor espanhol quem, junto com o irmão Agustín, assina a produção do filme que, apesar de não ter sido premiado, foi aplaudido em Cannes e vem batendo recordes de bilheteria na Argentina. Em cartaz no país desde 21 de agosto, levou ao cinema 455 000 pessoas nos primeiros quatro dias. Agora, o público já chegou aos 3 milhões, cifra mais que considerável para o mercado portenho.

Sobre cada um dos episódios, é difícil resumi-los sob o risco de revelar o que cada um reserva. O primeiro, principalmente, é bem curto e se passa dentro de um avião em que os passageiros descobrem que têm algo em comum. O segundo, mais complexo, apresenta uma garçonete de um restaurante de beira de estrada que revê o homem que arruinou sua família. Este e o penúltimo episódio são os mais dramáticos, com menos humor e um certo questionamento sobre injustiças sociais. A penúltima história é sobre um jovem de família rica que atropela e mata alguém – enredo que lembra outro argentino, Sem Retorno (2010), no qual, aliás, está Leonardo Sbaraglia. Este é o ator da terceira parte, que narra algo já ocorrido a quase todos os motoristas: discussão no trânsito. No que essa discussão levará é o que foge do convencional, como o final de cada parte da produção.

Ricardo Darín aparece no meio do filme. Ele é um engenheiro especialista em implosões. Como sempre, o ator tem uma participação marcante. Só por ele, o filme já valeria. Mas não pense que somente ele está bem. Aguarde o final para ver a atriz Erica Rivas, mais conhecida na Argentina por seus trabalhos na TV. Ela interpreta Romina, uma noiva na própria festa de casamento. Durante entrevista coletiva, Erica contou que este não era para ser o último episódio. “Ele estava no meio do filme e tinha outro desfecho. A festa de casamento terminava muito mal. Damián estava insatisfeito com isso e propôs várias saídas. A que ficou mostra uma transformação da personagem, algo distinto dos outros. É como se ela, e o noivo também, se libertassem dos pais, da festa e de todas as convenções”, disse.

Este é o terceiro longa de Damián Szifrón, lançado depois de um intervalo de nove anos. Em seu currículo, outra produção de sucesso é a série de TV Os Simuladores (2002), que no lugar da vingança tem como tema a tentativa de se fazer justiça. “Cada um dos seis contos do filme nasceram de forma independente, nem mesmo pensava que iam terminar juntos. Escrever cada um separadamente, um dia um, outro dia outro, me libertou muito como escritor. Sem me dar conta, muito levado pelo prazer, eu tinha um longa escrito”, disse Szifrón em entrevista coletiva. Para contos que se juntaram por acaso, Relatos Selvagens tem uma conexão que se mantém do início ao fim e um final que dá esperança. Nem toda perda de controle é em vão.

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Serviço:

Na Mostra

Hoje, às 23h45 – Cinesesc

Rua Augusta, 2075 – Cerqueira César, tel: (0/xx/11) 3087-0500

19/10, às 17h40 – Reserva Cultura 1

Avenida Paulista, 900, tel: (0/xx/11) 3287-3529

Nos cinemas

Estreia 23 outubro

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