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Após reforma minuciosa, Neue Nationalgalerie está pronta para ser reaberta

Projetada por Mies van der Rohe, a bela galeria em Berlim será retomada em agosto com uma exposição de Alexander Calder, se a pandemia deixar

Por Alessandro Giannini Atualizado em 4 jun 2021, 10h59 - Publicado em 4 jun 2021, 06h00
MENOS É MAIS - A fachada da galeria e o pavilhão principal, além de salas internas: o legado do arquiteto e professor da Bauhaus preservado -
MENOS É MAIS - A fachada da galeria e o pavilhão principal, além de salas internas: o legado do arquiteto e professor da Bauhaus preservado – Fotos Galeria Nacional de Berlim/Bettmann Archive/Getty Images

Frequentemente associada a Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969), a máxima “menos é mais” define com precisão o estilo minimalista desse alemão naturalizado americano, um dos expoentes da arquitetura modernista no século XX e conhecido por criar, entre outros, o Edifício Seagram, em Nova York, e a Casa Farnsworth, em Chicago. A expressão, cuja origem remonta a um poema romântico do século XIX, colou em Mies porque resume em apenas três palavras o conceito que guiou projetos como o da Neue Nationalgalerie, em Berlim. Parte do circuito Kulturforum, um conjunto de edifícios dedicados à cultura e às artes plásticas na capital alemã, a galeria nas imediações do parque Tiergarten é caracterizada por formas retas e simples, pela economia de elementos e pelo uso de materiais como vidro e aço. Inaugurada em 1968, a construção chamada popularmente de “templo de luz e de vidro” estava fechada desde 2015 em razão de uma ampla reforma. Conduzidas pelo escritório David Chipperfield Architects, com sede em Londres, as obras terminaram em abril. A reabertura ocorrerá em agosto, com uma exposição de Alexander Calder.

Quando foi planejada, a Neue Nationalgalerie tinha como objetivos revitalizar o bairro de Mitte, onde seria erguida, e hospedar a coleção de arte moderna de Berlim. O projeto de Mies sugeriu uma nova forma de pensar e entender os museus, afastando-se do modelo tradicional fechado, com várias salas temáticas. Em contraposição, o arquiteto imaginou um espaço livre, envidraçado e versátil. Com isso, o prédio se tornou um dos mais relevantes do conjunto urbano formado com a Biblioteca de Artes e a filarmônica. Porém, após mais de cinquenta anos de uso intensivo, reparos esporádicos e manutenção irregular, o edifício precisava passar por renovação e modernização. A estrutura foi preservada e os serviços, atualizados, sem mudanças radicais na aparência original. O britânico Chipperfield, que supervisionou as obras e tem em seu currículo o projeto da Galeria James Simon, na Ilha dos Museus de Berlim, manteve postura respeitosa em relação ao trabalho do mestre. Para Chipperfield, só havia espaço para as ideias de um arquiteto ali. E não eram as dele.

Ex-professor da escola de arte Bauhaus, Mies via a Neue como um templo. Sobre um enorme promontório imaginou uma estrutura de vidro coberta por uma tampa quadrada de aço, sustentada por oito pilares. Do pavilhão envidraçado seria possível contemplar o exterior, e vice-versa. Tanta simplicidade, no entanto, engana: “Deus está nos detalhes”, costumava dizer o arquiteto. Talvez por isso a reforma tenha durado seis anos e custado aos cofres alemães 140 milhões de euros (ou 890 milhões de reais). Esse tempo e dinheiro foram necessários por causa da minúcia envolvida, entre outras coisas, na retirada de todos os elementos que cobriam o concreto armado da estrutura. Um total de 35 000 itens foram removidos, incluindo lajes de granito, luminárias, grades, vidros e painéis de madeira. Placas de mármore foram cuidadosamente numeradas e agrupadas para poder voltar às suas posições originais. Peças quebradas foram substituídas por outras com as mesmas especificações. Houve um esforço também para atender aos padrões contemporâneos de ar-condicionado, proteção contra incêndio e segurança.

Único projeto de Mies na Europa depois de ir para os EUA, em 1937, a Neue foi também o canto do cisne do arquiteto. Ele morreu em Chicago, aos 83 anos, meses depois de ver a galeria pronta. O acervo permanente reúne obras contemporâneas de artistas europeus e americanos, como Edvard Munch, Pablo Picasso, Francis Bacon, Gerhard Richter e Andy Warhol. Para o arquiteto Fernando Viegas, professor da Escola da Cidade, preservar a construção é uma necessidade e uma obrigação. “Trata-se de um patrimônio universal”, diz ele. “Nós temos, no Brasil, edifícios que estão no mesmo patamar e que vêm se deteriorando por falta de cuidado. Deveríamos tratá-los da mesma maneira que os alemães.” Falta muito, sem dúvida, para chegarmos lá.

Publicado em VEJA de 9 de junho de 2021, edição nº 2741

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