Angela Davis sobre Paraty: ‘Negros da diáspora não só sobreviveram – eles criaram beleza enquanto lutavam’
Autora americana refletiu sobre o passado de escravidão da cidade em entrevista a VEJA; confira como assistir à mesa da ativista no YouTube
No microcosmo intelectual da Festa Literária de Paraty, a Flip, Angela Davis é superlativa. Parte da programação do Sesc RJ, a autora e ativista americana de 82 anos se tornou o nome mais comentado das ruas do evento e a mesa mais cobiçada, extrapolando os limites de Paraty: a palestra de Angela esgotou rapidamente os 700 ingressos gratuitos disponíveis, levando a organização do Sesc a optar por transmitir a mesa ao vivo pelo YouTube do Sesc RJ (@portalsescrio), neste sábado, 25, entre 18h e 19h, para todo o país.
Autora de obras incontornáveis, como Mulheres, Raça e Classe (1981) e Estarão as Prisões Obsoletas? (2003), que discutem os direitos da população negra americana e propõem novas visões sobre os sistemas prisionais, Angela falou a VEJA sobre a participação na Flip e a importância da presença de pensadores como ela em uma cidade contruída pelo trabalho de pessoas escravizadas — foram elas que ergueram as ruas de pedra, igrejas, casarões e o porto que transformou Paraty em um importante entreposto comercial durante o período colonial.
A senhora é a participante mais popular dessa edição da Flip, os 700 ingressos para vê-la falar estão esgotados. Como se sente com isso? Isso não faz muito sentido para mim (risos), mas sei que o fenômeno existe. Estou feliz de ter sido convidada para estar aqui.
Como a senhora analisa a evolução de tudo o que escreveu e defendeu ao longo desses cinquenta anos, como a ideia de antirracismo e abolicionismo penal? É muito emocionante ver a facilidade com que as gerações mais jovens conseguem discutir essas questões. Em muitos aspectos, é estranho lembrar que, no passado, estávamos apenas tateando um caminho em direção a uma compreensão que hoje parece tão sólida. Pense, por exemplo, na ideia de abolicionismo penal, e policiala. Jamais imaginei que viveria para ver essa proposta ganhar tanta ressonância popular. Sempre tive esperança e sempre acreditei que essas ideias encontrariam eco, mas nunca esperei que isso acontecesse durante a minha vida. É realmente notável perceber que aquilo que antes considerávamos uma ideia radical demais para ser debatida hoje inspira tantas pessoas. Isso me dá esperança para o futuro.
E a senhora foi a pioneira. Mas nada disso acontece individualmente. Sempre foi um processo coletivo. Tudo o que escrevi e tudo o que fiz nasceu do diálogo com outras pessoas e de um esforço para desenvolver ideias que sempre foram construídas coletivamente.
Paraty é uma cidade profundamente marcada pela história da escravidão. Acho simbólico ver tantos autores negros, ao seu lado, sendo homenageados aqui hoje. Como é para você estar nesta cidade e no Brasil? Antes de tudo, Paraty é uma cidade linda. Mas também é uma cidade cuja história nos lembra algo essencial. Sabemos que, especialmente nos Estados Unidos, muitos estados aprovaram leis para impedir que as escolas ensinem às crianças determinados aspectos da história da escravidão, sob a justificativa de que isso poderia deixá-las desconfortáveis. O que eu sempre digo é que jamais podemos escapar da nossa história. A história da escravidão é uma história de violência e de todos os horrores associados a esse sistema. Não quero enfatizar apenas a opressão e a violência. Quero destacar que o mais extraordinário sobre os negros — sobre os afro-americanos e sobre as pessoas negras em toda a diáspora — é que eles não apenas sobreviveram. Eles criaram beleza enquanto travavam a luta por um mundo melhor. Essa luta sempre foi, ao mesmo tempo, uma luta pela democracia, por todas as pessoas, independentemente de sua origem racial. É uma história com a qual todos deveriam se identificar e da qual todos deveriam se orgulhar. Por isso, estou muito feliz por estar aqui. Tem sido uma experiência maravilhosa.






