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Amor, músculos e cifras: Lucas Lucco e o novo sertanejo

Cantor de 23 anos faz mais de 20 shows ao mês com cachê em torno de 100.000 reais, resultado da equação que combina corpo malhado, canções sobre festas e paquera, e mistura de ritmos que vão do rock ao funk

Por Raquel Carneiro 8 set 2014, 10h55

No princípio era a moda de viola, a camisa xadrez, a bota com espora e a fivela. Depois veio o drama, a idealização do amor, a dor-de-cotovelo e as duplas com segunda voz apagada. Agora, a música sertaneja vive uma fase de autoestima elevada, por assim dizer. Cantores solo apostam no rebolado ensaiado e no jeito cafajeste e são os melhores amigos do whey protein, aquele suplemento usado por boa parte dos marombeiros de plantão na musculação. Dessa leva faz parte o cantor mineiro de corpo esculpido Lucas Lucco, dono do hit mais tocado no rádio no primeiro semestre deste ano, a brega Mozão, executada nada menos que 27 713 vezes de janeiro a junho, segundo a empresa especializada Crowley. Aos 23 anos, e apenas dois de carreira, o cantor já acumula números dignos de veterano: faz mais de vinte shows por mês, com cachê na faixa dos 100.000 reais, e na internet contabiliza um séquito de milhões de seguidores, grupo que só faz crescer desde que o cantor estreou no quadro Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão, da Globo, em agosto.

“A internet foi onde tudo começou. Foi lá que divulguei minhas primeiras músicas”, diz Lucco. Foi também lá, no mundo virtual, que ele foi descoberto pelo empresário Rodrigo Byça, em 2012. Byça ouviu uma canção postada por Lucco no Facebook e o procurou com a promessa de levá-lo à fama. Na época, o aspirante a cantor, que já tinha sido office boy e vendedor de shopping, cursava o quarto semestre de publicidade e propaganda e trabalhava como modelo e promoter de balada em Patos de Minas, a 400 km de Belo Horizonte.

A primeira ação do empresário foi pedir que Lucco retirasse a música da rede social. “Não queria que mais ninguém ouvisse e tentasse contratá-lo”, diz. Em seguida, convenceu o pai de Lucas, o radialista Paulo Lucco, de que o filho tinha boas chances de ser uma estrela do sertanejo. “Ele é um artista que canta, compõe e toca, e tem uma imagem comercial, é um homem bonito. Esse estilo era muito raro quando o descobri.” O estilo, difícil de definir até hoje, é uma mistureba de sertanejo, rock, arrocha e até funk. “Meu objetivo sempre foi fazer a música que as pessoas querem ouvir. Não algo que seja rotulado. Se acham que é sertanejo, tudo bem. Se é pop, tranquilo. Só quero que gostem do meu trabalho”, defende Lucco.

Byça e Lucco fizeram as malas e se mudaram para Goiânia, em Goiás, celeiro de muitos precursores do ritmo. Lá alugaram um apartamento e se aliaram a uma agência de talentos. Pouco depois, ainda sem ter um CD promocional, mas com a ajuda do YouTube, ele já fazia uma média de 13 shows por mês. Ainda em 2012, após um show em Tocantins, Lucco caiu nas graças de Sorocaba, segunda voz da dupla Fernando & Sorocaba e sócio da agência FS Produções, que passou a cuidar da carreira do rapaz ao lado de Byça.

Sertanejo raiz – Tonico e Tinoco

Acredita-se que a música sertaneja nasceu na década de 1910, a partir de gravações feitas pelo escritor Cornélio Pires, que contava seus “causos” do interior paulista. Na década de 1930, o gênero já tinha representantes populares, como os irmãos paulistas Tonico e Tinoco, que cantavam a vida da roça ao som de violas. Durante a carreira, a dupla gravou 83 álbuns, vendeu mais de 150 milhões de cópias e lançou sucessos como Tristeza do Jeca, Chico Mineiro e Pinga Ni Mim. A parceria acabou com a morte de Tonico, em 1993, aos 73 anos, vítima da queda de uma escada. Tinoco seguiu carreira-solo até o final da vida, apesar de o sucesso ter diminuído ao longo dos anos.

https://youtube.com/watch?v=rSd2NGpT62Q

Sertanejo raiz – Pena Branca e Xavantinho

Mesmo depois de duplas como Palmeira e Biá, Cascatinha e Inhana e Milionário e José Rico incorporarem ao sertanejo outros estilos de música ou instrumentos como o acordeão, o trompete e o violino, nas décadas de 1950 e 60, a dupla Pena Branca e Xavantinho continuou seguindo a linha do sertanejo de raiz, para felicidade de boa parte da MPB, que abraçou suas composições. A dupla lançou seu primeiro LP em 1980, com sucessos como Cio da Terra e Velha Morada, e permaneceu unida até 1999, ano da morte de Xavantinho. Assim como Tinoco, Pena Branca continuou cantando sozinho até morrer, em 2010, por infarto.

 

Duplas românticas – Chitãozinho e Xororó

O interesse dos irmãos Chitãozinho e Xororó pela música sertaneja nasceu em casa, onde ouviam o pai Marinho e a mãe Araci cantando juntos. Ainda crianças, os irmãos começaram a fazer shows em festas, interpretando músicas de duplas como Tonico e Tinoco. Mas o sucesso só veio em 1982, com a canção Fio de Cabelo. A música é um dos marcos do início da fase romântica — e brega — do sertanejo, com letras repletas de referências à mulher amada, muitas vezes distante, e a inserção da guitarra elétrica junto à viola. A parceria de Chitãozinho e Xororó, que também aderiu ao modelo de calças justas, chapéu e bota, já soma 40 anos e 34 álbuns.

https://youtube.com/watch?v=tiSbRoU1dQQ

Duplas românticas – Leandro e Leonardo

A carreira da dupla Leandro e Leonardo começou no início da década de 1980, sob influência do então já existente sertanejo romântico feito por duplas como Chitãozinho e Xororó. Os irmãos deixaram o trabalho na plantação de tomates da família e saíram atrás de gravadoras para registrar suas músicas. O sucesso só veio com Entre Tapas e Beijos, um dos maiores hits da dupla. A música fala sobre o relacionamento com uma mulher, tema recorrente para os irmãos chegados numa dor de cotovelo — vide os sucessos Desculpe, Mas eu Vou Chorar e Não Aprendi Dizer Adeus. A parceria foi interrompida com a morte de Leandro, em 1998, vítima de um câncer raro de pulmão. Leonardo segue cantando sozinho.

Duplas românticas – Zezé Di Camargo e Luciano

A música de estreia de Zezé Di Camargo e Luciano, É o Amor, já mostrava a linha que a dupla seguiria na carreira, iniciada em 1991. Com letras de amor cantadas pela voz forte de Zezé e o apoio vocal de Luciano, a dupla completou 20 anos. A parceria dos irmãos nasceu a partir do sonho de seu pai, Francisco, em formar uma dupla sertaneja. Depois de a primeira tentativa ser interrompida pela morte de Emival, o segundo integrante de Camargo e Camarguinho, Zezé se uniu a Luciano e começou a lançar composições próprias, que deram origem a 21 álbuns.

Sertanejo universitário – Luan Santana

Depois da era do sertanejo romântico, teve início, entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2000, o “sertanejo universitário” ou breganejo, com duplas como Guilherme & Santiago, João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano e Victor & Leo. Hoje, porém, o modelo dominante deixou de ser o de dupla e passou a ser a carreira-solo. Foi o cantor sul-matogrossense Luan Santana que iniciou a moda de cantores “universitários”, cantando sobre festas e mulheres em um clima de “pegação” para jovens, em vez de entoar uma voz chorosa para fãs de meia-idade a fim de lamentar um amor perdido ou imaginado. Instrumentos como a sanfona tornaram-se mais eletrônicos, e o ritmo também ficou mais acelerado e próprio para dançar.

Sertanejo universitário – Michel Teló

Seguindo o mesmo modelo que primeiro projetou Luan Santana, o paranaense Michel Teló se tornou fenômeno internacional com a música Ai Se Eu te Pego. Mesclando sertanejo, pop e forró com uma letra inicialmente gravada no gênero axé, Teló estourou no Brasil e no mundo, fazendo o breganejo se tornar o principal estilo de exportação do país hoje. Depois de Teló e Luan, foram abertas as portas para que os músicos, antes oriundos especialmente do interior de São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, viessem de localidades distintas, sem um “celeiro” fixo.

Sertanejo amor e músculos – Lucas Lucco

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Em 2014, uma das músicas mais tocada nas rádios brasileiras foi a brega Mozão, hit entoado pelo musculoso mineiro Lucas Lucco. O cantor é um dos representantes da nova leva do sertanejo universitário, que ostenta uma autoestima elevada, por assim dizer. Em carreira solo, os jovens sertanejos apostam no rebolado ensaiado, no jeito cafajeste e são os melhores amigos do whey protein, aquele suplemento usado por boa parte dos marombeiros de plantão na musculação. As roupas são mais urbanas, o cabelo inspirado no corte de Elvis Presley e as canções misturam forró, funk, pop e, lá no fundo, a alma romântica dos sertanejos. 

 

Sorocaba deu o empurrão que faltava para Lucco deixar de ser promessa. Em 2013, ele lançou seu primeiro disco, Nem Te Conto, de forma independente e gravou o clipe do funknejo (sim, isso existe) Princesinha, parceria do cantor com o funkeiro Mr. Catra. Logo ele conseguiu um contrato com a gravadora Sony Music, pela qual lançou, este ano, os CDs Tá Diferente e O Destino. Hoje, na internet, Lucco soma 9 milhões de curtidas no Facebook, cerca de 1,3 milhão de seguidores no Instagram e mais de 161 milhões de visualizações no YouTube. Daí para a TV foram poucos, bem poucos passos.

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Malhação e fé – A combinação de corpos malhados e discursos que coadunam, ao mesmo tempo, o amor eterno, a fé em Deus e a safadeza, pode parecer um pouco incoerente para quem tem mais neurônios que músculos, mas atinge em cheio o imaginário de muitos, especialmente do mulherio. Durante o show de lançamento do DVD Tá Diferente na casa de shows Wood’s Bar, em São Paulo, em agosto deste ano, que aliás pertence a Sorocaba, a composição do público era no mínimo confusa. Garotas tatuadas com pinta de roqueiras se embrenhavam entre típicas periguetes e outras com estilo mais recatado. Antes de o cantor subir ao palco, a maior parte das moças já era alvo do também mesclado público masculino, com uma grande presença de playboys que provavelmente nunca usaram um chapéu de caubói na vida. A paquera rolava solta, como pregam as letras do cantor.

O show foi um dos mais de vinte que ele faz por mês. Para lidar com a agenda apertada, recheada ainda de ensaios e gravações do Domingão do Faustão, Lucco conta com a ajuda de uma equipe de cerca de quarenta pessoas, que viajam em seu ônibus ou em jatinhos locados, em situações extremas. “Viajo com o que for mais rápido, mas sempre penso no bolso”, diz o cantor que, apesar do cachê médio estimado em 100.000 reais por apresentação, ainda se preocupa com as finanças. “Ele ajuda na administração da carreira. É um rapaz econômico”, diz o empresário Byça.

Para resistir ao ritmo puxado, Lucco é acompanhado por um nutricionista. Sua alimentação é dividida em porções que andam com ele em uma mochila térmica. O rapaz não come doces e bebe cerca de 5 litros de água por dia. Outro profissional em sua cola é um personal trainer exclusivo, com quem malha todos os dias. “A musculação é uma válvula de escape. A estrada é cansativa. Gosto de cuidar do corpo e da saúde, pois sobrevivo disso, uso a minha imagem”, diz o cantor de 1,87m de altura e 93 quilos.

Além da malhação, outro meio de sobreviver à rotina de shows é a decoração de seu camarim. Na penteadeira, uma Bíblia com um terço, ao lado de uma imagem de São Jorge, e porta-retratos com fotos da família compõem o que ele chama de “pedaço de casa”. “A fé é importante para mim. Há um ano e meio eu era um universitário. Hoje estou aqui.”

‘Mozão’

A balada romântica Mozão é o principal hit da carreira de Lucas Lucco até o momento. Parte do segundo disco do cantor, Tá Diferente, de 2014, a música foi a mais executada nas rádios brasileiras no primeiro semestre, e o clipe no YouTube acumula mais de 80 milhões de visualizações. Nas imagens, Lucas vive um romance com uma jovem que descobre ter câncer de mama e passa pelo tratamento para lutar contra a doença. O casal permanece firme até o final feliz. 

’11 Vidas’

Lucas compôs 11 Vidas para homenagear o pai, o radialista Paulinho Lucco. A canção ganhou força com o lançamento do videoclipe, publicado no canal do cantor no YouTube em agosto de 2013. Um ano depois, a produção totaliza mais de 35 milhões de visualizações. “Um herói pronto pra me salvar/ E com você eu aprendi todas as lições/ Eu enfrentei os meus dragões/ E só depois me deixou voar”, diz um trecho da música. 

‘Pra te Fazer Lembrar’

O sertanejo aposta no vozeirão na música romântica Pra te Fazer Lembrar. No clipe, é seu lado ator que domina. O roteiro, também escrito por ele, mostra um casal que vive diversos desencontros, até o momento em que uma reviravolta muda para sempre os planos dos dois. Publicado em julho de 2013 no YouTube, o vídeo acumula mais de 45 milhões de visualizações. 

‘Princesinha’

Mistura de arrocha com sertanejo e funk, a canção foi composta por Lucas Lucco em parceria com funkeiro Mr. Catra. Na letra, o cantor fala sobre uma garota sem limites na balada. “Chega princesinha e sai mendiga”, diz parte do refrão. A música faz parte do disco de estreia de Lucco, Nem te Conto, de 2013, e foi eleita para embalar seu primeiro clipe. No vídeo, ele dança em um fundo com luzes e reforça as comparações com Ricky Martin. Publicado no YouTube em março de 2013, o clipe tem 40 milhões de views. 

‘Pac Man’

Antes de chegar ao Domingão do Faustão, Lucas já era famoso na internet e no circuito de shows sertanejos. E foi em 2012 no Caldas Country, em Caldas Novas, Goiás, que o cantor gravou o clipe de Pac Man, canção que está longe de ser um clássico da música nacional, mas tem uma letra no mínimo engraçada. “Antes de ficar comigo/ Nunca me deu moral/ Agora conhecido/ Eu tô lindo, pegando geral”, se gaba o cantor em um trecho da canção, antes de se comparar ao Pac Man, personagem do jogo de videogame com um grande apetite. O vídeo no YouTube tem mais de 6 milhões de visualizações. 

Sertanejo por opção – Lucco faz parte de uma nova fase da música sertaneja. Eclético e conectado, o rapaz escuta de tudo e é fã de bandas como Blink 182 e Charlie Brown Jr., mas também idolatra Chitãozinho e Xororó. Antes de eleger o sertanejo como profissão, ele teve uma banda de rock e tocou pop e MPB em barzinhos.

A escolha de ritmo, pelos olhos comerciais, não poderia ser mais acertada. Historicamente popular no Brasil, o sertanejo ganhou um novo fôlego nos últimos anos. Boa parte do crescimento é devido a essa geração atual de ídolos do estilo, com cantores como Michel Teló e seu indefectível rebolado, o romântico Luan Santana e os baladeiros Gusttavo Lima e Cristiano Araújo.

“O sertanejo voltou a crescer porque o estilo passou por uma repaginada”, diz Sorocaba. “O ritmo está mais acelerado, mais parecido com o country americano, e as letras tratam de assuntos que estão presentes no cotidiano dos jovens, como balada e paquera, o que faz com que o público se identifique.”

O crescimento é fácil de ser identificado nas rádios. Segundo levantamento feito pela Crowley Broadcast Analysis, empresa especializada em monitoração eletrônica de rádio, em 2009, apenas quinze das cinquenta músicas mais tocadas nas rádios no Brasil eram de sertanejos. No ano passado, o número saltou para 29, com Bruno & Marrone e Luan Santana ocupando a primeira e a segunda posições, respectivamente.

Por enquanto, a única preocupação que tira o sono do rapaz é permanecer, ou quem sabe até ganhar, o Dança dos Famosos. “Eu sempre acredito na vitória. Tenho muito foco e determinação para conseguir o que quero.” Vindo de quem elegeu o sertanejo como ganha-pão, não se deve duvidar. Determinação para vencer é que não falta a Lucas Lucco, o novo “mozão” das rádios.

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