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Almodóvar fica aquém de si mesmo em ‘Julieta’

Novo filme do espanhol erra já na saída: ele usa contos da canadense Alice Munro que formam história sem vigor sobre mãe apartada da filha

Por Maria Carolina Maia - 8 jul 2016, 08h38

Pense em Pedro Almodóvar. Estupro, pedofilia, perversão e metamorfose compõem algumas das histórias contadas pelo espanhol, que também é fã de cores fortes e de músicas marcantes. Dito isso, você pode esperar tudo de um filme do diretor, menos uma Sessão da Tarde. E é por essa razão que longas como Os Amantes Passageiros (2013) e Julieta, agora em cartaz no país, decepcionam. Falta a eles a contundência de Pedro Almodóvar.

Julieta até começa promissor. Vemos a personagem-título, vivida pela competente Emma Suárez, encaixotar objetos para a mudança que planeja fazer com o namorado, Lorenzo (Darío Grandinetti). Julieta vai deixar Madri e tudo o que ela representa: foi a cidade onde viveu com a filha, Antía (Priscilla Delgado / Blanca Parés), até que ela desaparecesse no mundo sem deixar rastros. É então que esbarra, nas ruas, com uma antiga amiga de Antía, Bea (Michelle Jenner). Ela acaba de voltar da Suíça, onde encontrou por acaso Antía, agora casada e mãe de três filhos. Julieta disfarça e não conta que está há anos sem notícias da filha, as suas se despedem e seguem caminhos diversos. Julieta procura Lorenzo e avisa que não vai mais acompanhá-lo a Portugal. Depois, vai ao prédio onde morou com a filha e aluga um apartamento.

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É daqui para a frente que o filme patina. Instalada no novo-velho endereço, Julieta se aboleta em uma cadeira e começa a escrever uma longa carta para a filha, a partir da qual recorda a sua história, o relacionamento com o pai da menina e a tragédia que se precipitaria sobre a vida das duas. O recurso, batido, ajuda a costurar a história, baseada em três contos – Ocasião, Daqui a Pouco e Silêncio, do livro Fugitiva (Biblioteca Azul) – da canadense Alice Munro, Prêmio Nobel de 2013. Mas a trama, frágil, não se sustenta nem mesmo com essa muleta.

Com algum esforço, é possível fazer leituras de Julieta: a culpa que a protagonista carrega com ela desde a juventude, quando viu um homem se matar no trilho do trem, é uma metáfora para a culpa que toda mãe sente. Quem é mãe sabe: a culpa nasce com o primeiro filho, e o peso que Julieta sente pode ser apenas uma forma amplificada dessa sensação de estar sempre em dívida com o mundo.

Uma metáfora também pode ser vista na cena em que a câmera, focada em uma Julieta que escreve à filha, recua pelo corredor do apartamento, como se percorresse um cordão umbilical. Falta material, porém, para nutrir e expandir essas possibilidades. Falta, sobretudo, uma justificativa sólida – e até plausível – para o sumiço de Antía. A explicação, quando vem, desaponta.

É claro que literatura não precisa de plot. E que o bom cinema prescinde de ação – estão aí os filmes de arte para provar. Mas precisa de sustância, que pode ser poética, de preferência, como na experiência linguística feita por escritores que abrem mão de uma trama forte. Mas a Julieta falta tudo: plot, poesia e, principalmente, Pedro Almodóvar.

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