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Alessandra Negrini vive personagem de Chico Buarque em ‘Abismo Prateado’

Filme de Karim Aïnouz é inspirado em 'Olhos nos Olhos', e se passa em 24 horas na vida de uma mulher abandonada

Por Carlos Helí de Almeida, do Rio de Janeiro 12 out 2011, 12h42

Abismo Prateado é um filme sobre a sensação da perda, na qual a gente vislumbra, de alguma maneira, aquela mulher que escreveu “quando você me deixou, meu bem, me disse para ser feliz e passar bem”.

Karim Aïnouz

A mostra Première Brasil do 13º Festival do Rio exibe na noite desta quarta-feira, dia 12, o seu título mais delicado e radical. Trata-se de Abismo Prateado, de Karim Aïnouz, um road movie íntimo no qual uma dentista, interpretada por Alessandra Negrini, desfila ao longo de 83 minutos pelas ruas do Rio de Janeiro a sua perplexidade diante do repentino abandono amoroso. O filme, inspirado na canção Olhos nos Olhos, consagrada na voz de Maria Bethânia, faz parte de um projeto multimídia do produtor Rodrigo Teixeira, que adquiriu os direitos de adaptação de dez canções do cantor e compositor Chico Buarque. A microssérie Amor em 4 Atos, exibida pela Rede Globo, faz parte do conjunto.

Nas entrevistas a seguir, concedidas em no Festival de Cannes, onde o filme foi exibido na seção Quinzena dos Realizadores, o diretor de Madama Satã e O Céu de Suely, e a atriz da minissérie de TV As Cariocas falam desse reencontro, agora no cinema, com um dos clássicos do cancioneiro popular brasileiro, recriado em uma noite entre Copacabana e o aeroporto Santos Dumont.

O diretor Karim Aïnouz:, de 'Abismo Prateado': filme inspirado em 'Olhos nos Olhos', de Chico Buarque
O diretor Karim Aïnouz:, de ‘Abismo Prateado’: filme inspirado em ‘Olhos nos Olhos’, de Chico Buarque VEJA

KARIM AÏNOUZ

O filme está quase o tempo inteiro no rosto de Violeta, a personagem de Alessandra, desfocando tudo em volta dela. O que você queria dizer com este recurso?

É uma forma de mostrar o ponto de vista da personagem, é assim que ela vê as coisas à sua volta depois que ouve o recado do marido no celular dizendo que foi embora de casa. Então, para ela, tudo está instável, impreciso, fora de foco, nada é claro. Isso também está na fotografia, na montagem e no som, algo estridente em alguns momentos, que é para deixar o espectador meio tonto. Usamos os elementos básicos do cinema para transmitir essa sensação da personagem.

Como você chegou a essa interpretação sobre a música do Chico Buarque?

O básico descobri quando preparei o argumento com a roteirista Beatriz Bracher. A gente se chegou à conclusão de que se a canção falava de amor, claro, mas era um acerto de contas com um certo tom de saudade, misturado com lembranças de algo que já aconteceu. A gente se perguntava se teríamos que fazer um filme sobre um reencontro, já que a canção falava de “olhos nos olhos”. Mas decidimos que não, porque seria uma caminho pouco cinematográfico, pouco cinético. Decidimos investigar quem tinha escrito aquela carta e, apesar de a canção ter sido escrita pelo Chico, um homem, percebemos que o autor da carta seria uma mulher apaixonada, estupefata pelo fato de ter sido abandonada sem aviso prévio. A canção é uma história de separação, então fizemos um retrato sobre a pessoa que sofreu aquele baque.

E quem seria esta mulher abandonada?

Nós não queríamos fazer uma personagem do tipo mulherziha bonitinha e delicada que sofre horrores com a separação. Buscamos um perfil algo mais violento, daí o nome Violeta, que lembra violenta, hematoma, a profissão dela, mas também tem a ver com a flor violeta, com a figura de uma mulher apaixonada, abandonada de maneira súbita. Mas não queríamos explicar as razões pelas quais ela foi deixada pelo marido. Abismo Prateado é um filme sobre a sensação da perda, na qual a gente vislumbra, de alguma maneira, aquela mulher que escreveu “quando você me deixou, meu bem, me disse para ser feliz e passar bem”.

A trama se passa em 24 horas da vida da personagem, mas a maior parte dela é ambientada à noite, em diferentes locações, com um desfecho no Santos Dumont. Como vocês criaram o ambiente para Olhos nos Olhos?

Descubro meus filmes nos ensaios. A primeira versão do roteiro da Beatriz era muito detalhista, tinha até a co r do batom que a personagem da Alessandra tirava da bolsa. Mas é uma das vantagens de trabalhar com alguém como a Beatriz, que vem da literatura, não é só uma roteirista. Ela te oferece cenas literárias e a gente tenta descobrir imagens nelas. Não boto mão em roteiro, destesto escrever, acho uma das coisas mais chatas do mundo! Mas roteiro não se escreve sozinho, é um bate-bola. Levei os atores ao Santos Dumont, e fiquei passeando com eles por ali, para ver como eles se comportavam naquele espaço. A ação é determinada pelos atores também, o roteiro é apenas um ponto de partida.

Seus filmes anteriores, O Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, também falam de personagens em constante movimento, em transição…

Ninguém para nos meus filmes, não é mesmo? Apesar de correr o risco de fazer um road movie na cidade, desta vez eu queria fazer um filme de ação, no qual um traum a, o da separação repentina, não gera apenas contemplação. Queria implodir um pouco essa ideia de que a perda amorosa gera paralisia. É como se disséssemos: “Se ela parar, ela morre”. Violeta está em moto contínuo. E queria também essa relação com a cidade. Adoro cidades.

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Os personagens de seu próximo filme, Praia do Futuro, se movimentam muito também?

É uma viagem transatlântica, sobre um irmão que vai procurar o outro na Europa, para onde foi há dez anos e do qual não se tem notícia. Vai ser rodada em Fortaleza, onde me criei, e em Berlim. Então, terá muita andança também.

ALESSANDRA NEGRINI

Em que circunstâncias aconteceu o convite do Karim? Qual foi sua primeira reação?

Quando o Karim me chamou, ele sequer tinha o roteiro ainda. Existia apenas a ideia de trabalhar sobre a música do Chico. Isso foi uns cinco meses antes de comerçarmos a filmar. Mas aceitei de pronto, porque era o Karim, né? Nessas horas, não importa se há um roteiro ou não, mas a genialidade do diretor envolvido. Karim é muito criativo. Fiquei entusiasmada com a ideia de trabalhar com ele. Pensei: “Vamos nessa!” Só deveria ter me preparado melhor fisicamente para isso…

Vocês tiveram tempo para ensaiar?

O roteiro chegou às minhas mãos um mês antes de começarmos a filmar. Tivemos tempo para ler o roteiro, sim, às vezes em casa mesmo, mas também íamos passear pelas locações, para conhecer os lugares onde íamos filmar. Também fizemos testes de luz com o diretor de fotografia, porque a câmera fica o tempo todo nela, é quase como se estive dentro da cabeça da personagem. O Karim gosta de ver como os atores se movimentam pelos cenários, isso a ajuda a dar visualidade à história. Ele é um diretor muito intuitivo, então a gente vai na dele.

Como você avalia a experiência em Abismo Prateado, em relação aos outros filmes que você fez?

Bom, o filme que rodei imediatamente antes, o Dois Coelhos, no qual interpreto uma promotora da Justiça, era completamente diferente. Foi dirigido por Afonso Poyart, um jovem publicitário, que está estreando na direção de longas-metragens. Não o conhecia, mas achei o roteiro bacana. É um filme de linguagem pop, como muita ação, meio videogame, com referências aos quadrinhos, e que envolve muito trabalho de pós-produção. O diretor era um geniozinhho do departamento de pós produção da produtora em que ele trabalha. Então, não dá nem para comparar são estilos de concepção e realização distintos.

Seu primeiro papel como protagonista foi em Cleópatra (2007), de Julio Bressane, um veterano do cinema não-narrativo. O que você leva em consideração na escolha de um projeto?

Em primeiro lugar, o diretor. Quando conheço a obra de um determinado cineasta, como no caso do Julio ou do Karim, fica mais fácil. No caso desse jovem publicitário de São Paulo, que nunca tinha feito um filme antes, fui pelo roteiro, que achei craitivo e original. Gosto de ir por aí. No Brasil, a gente tem que diversificar, porque a quantidade de cinema produzido aqui ainda é muito pouco, comparado a outros países lá fora. Não me arrependo de minhas escolhas. A minha experiência com o Julio em Cleópatra, que gerou bastante polêmica, foi uma das mais felizes da minha vida profissional.

O filme foi rodado em ordem cronológica. Isso a ajudou de alguma forma na construção do crescendo das emoções da sua personagem?

Isso de facilitar a intepretação não existe, no ponto de vista do ator. Eles tentam facilitar a vida da gente, sim, mas é muito difícil filmar em locações, né? Na verdade, dar continuidade aos sentimentos da personagem era uma questão que me preocupava bastante. A coisa do movimento emocional dela era muito sutil, e havia também havia as diferenças de rítmos; num certo instante ela estava mais agitada, com o coração mais rápido, outras vezes, não. Isso tudo fui muito pensado ainda na fase de leitura, checamos o movimento de cada cena, até estarmos seguros do momento da personagem.

A música do Chico serviu como elemento de inspiração, de alguma forma?

Ah, sim. Já ouvi Olhos nos Olhos milhões de vezes. Ela dá o tom de onde queríamos chegar. O filme dá a entender de que Violeta será capaz de escrever a letra dessa música no final da história, é ela sonhando com o futuro. O filme é o momento anterior à carta da música, até a personagem descobrir que a vida continua, está acima do sofrimento, dos momentos ruins. Achei isso brilhante no roteiro.

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