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Alcione sobre ataque racista: ‘Não nasci com marca de chibata nas costas’

Em entrevista a VEJA, a cantora discorre sobre novo disco, cultura brasileira e a lamentável fala do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 21 ago 2020, 15h48 - Publicado em 10 jun 2020, 16h49

Aos 72 anos e no grupo de risco, a cantora maranhense Alcione está reclusa dentro de casa para se prevenir do coronavírus. O isolamento, no entanto, não a impediu de lançar o 42º álbum da carreira, Tijolo Por Tijolo, já disponível nas plataformas digitais, em que ela deixa as músicas românticas um pouco de lado para investir no samba. A alegria proveniente do trabalho e da nova aventura no mundo das lives foi interrompida por um episódio desagradável. A cantora sofreu ataques do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que a chamou de “barraqueira” e sua música de “insuportável”, após Alcione criticar a postura dele em relação aos negros e aos movimentos antirracistas, os quais ele afirmou serem uma “escória maldita”. Em um efeito contrário, a maranhense ganhou um forte apoio da classe artística, que lançou uma campanha nas redes para defendê-la, com adeptos como Chico Buarque, Lulu Santos, entre outros. A VEJA, a cantora rebate o episódio e se delicia ao falar sobre o novo disco, a cultura nordestina e a experiência nas redes sociais. Confira a entrevista completa. 

A senhora foi alvo de críticas do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo. Imediatamente a classe artística saiu em sua defesa. Como reage a toda essa controvérsia? Depois de ver e ouvir tantas coisas lindas ditas por amigos e fãs, alguns até meio avessos a exposições e que habitualmente nem se manifestam pelas redes sociais, fiquei emocionada. Foi muito carinho e quando se é reconhecido com amor e respeito como fizeram, a gente pode suportar tudo. Ainda estou impactada por essa nuvem de afeto. E é isso que, agora, importa. Não nasci com marca de chibata nas costas, gosto de respeitar e de ser respeitada. Aliás, o mundo está, finalmente, se dando conta dos males que o racismo traz. Racismo mata! Tomara que estejamos começando uma nova era de paz, solidariedade e respeito. Podemos ser brancos, negros, asiáticos, mas nosso sangue tem a mesma cor.

Além do racismo, outra luta que está sendo travada é pela igualdade de tratamento entre as mulheres no samba. Em seu novo álbum há apenas uma composição escrita por uma mulher, Feito Traça, de Telma Tavares, em parceria com Roque Ferreira. Ainda há muito preconceito contra compositoras, especialmente nas escolas de samba cariocas? Temos boas compositoras de samba. Além da Telma Tavares, eu destaco a Gabby Moura, que também canta e está fazendo muita música legal. A força feminina no samba está se manifestando. Na Mangueira, por exemplo, uma mulher ganhou [Manu Cuíca emplacou por dois anos seguidos os sambas de enredo da escola]. O samba tinha um preconceito muito grande e mulher não podia tocar na bateria. Agora pode. E temos também várias mulheres nas alas de compositoras, que era muito fechada, especialmente na Mangueira. É difícil entrar. Sinto que as coisas estão se flexibilizando mais. Vejo esse movimento com muito bons olhos. 

Não nasci com marca de chibata nas costas, gosto de respeitar e de ser respeitada. Aliás, o mundo está, finalmente, se dando conta dos males que o racismo traz. Racismo mata!

Alcione

Perdemos recentemente um dos maiores compositores do Brasil, Aldir Blanc, que também escreveu sambas inesquecíveis. Que memórias a senhora guarda dele? A morte dele me deixou devastada. Ninguém merece morrer dessa doença [Covid-19]. Vai fazer uma falta muito grande. O Aldir Blanc foi um tremendo poeta e quando se juntou a João Bosco, foi tudo de bom! Ele sabia dizer as coisas. A cultura no Brasil enfrenta vários problemas e é sempre olhada de lado. Em vez de ser um lobby para o país, a cultura é vista como um problema. Agora, então, esse governo não dá pelotas para a cultura. Graças a Deus existe a internet e podemos passar as nossas ideias por lá.

O repertório do novo disco traz a música Lado a Lado, de Arlindo Cruz. Ele ainda está se recuperando do AVC que sofreu. Tem visitado ele? O estado de saúde dele ainda não é o que a gente deseja, mas ele está sendo muito bem tratado por sua esposa e seus filhos. A música chegou até a mim pelo Arlindinho, seu filho, e fiz questão de gravar mais uma obra do nosso poeta. Vou visitá-lo sempre para cantar. Ele está em paz e isso é muito importante. 

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A música O Homem de Três Corações é uma homenagem ao Pelé. Qual é a primeira lembrança que tem dele jogando bola? Ele é um gênio e fez muitas coisas lindas pelo futebol. Eu tinha que cantar essa música, escrita por Altay Veloso e Paulo César Feital. Acompanho o Pelé desde 1958. Minha primeira recordação é ouvir pelo rádio, sentada na rede, no colo do meu pai, o Brasil vencer a Suécia por 5 a 2 na Copa do Mundo. Naquela época não tinha televisão no Maranhão.

Em vez de ser um lobby para o país, a cultura é vista como um problema. Agora, então, esse governo não dá pelotas para a cultura.

Alcione

A senhora está fazendo muito sucesso nas redes sociais. De março para abril, o seu perfil no Instagram superou a marca de 1 milhão de seguidores. Como lida com as redes sociais? Eu sou muito ruim com essas coisas de internet. Tenho uma pessoa formada em publicidade que cuida da minha vida digital. Mas eu gostei muito dessa história de lives porque ela permite que você tenha um encontro com os fãs. É um palco que você tem e refrigera um pouco a nossa alma. 

Recentemente, o rapper americano Snoop Dogg postou um vídeo ouvindo uma música da senhora enquanto fumava maconha. Como se sentiu com a, por assim dizer, homenagem? Jamais poderia pensar que um cara como o Snoop Dogg iria curtir a minha música. Vou te contar uma coisa: lá no Maranhão não é novidade para ninguém a maconha. Minha mãe fazia chá de folha de diamba [uma das formas como a maconha é chamada no Brasil] para voltar o apetite das crianças. Não estou dando a receita para ninguém, até porque a minha mãe não fumava. O que quero te dizer é que eu conheço a diamba de longa data. O Snoop Dogg não está me ensinando nada. Já conheço essa história de loooonge [risos]. Eu não bebo, não fumo, não tenho nenhum costume. Mas não sou contra ninguém fumar seu bom baseado, tomar a sua cerveja e a sua cachacinha. Não é pecado.

Por falar em celebridades, a senhora conheceu Axl Rose pessoalmente, vocalista do Guns ‘n’ Roses, quando ele fez um show no Brasil. Ainda mantém contato com ele? Pois é, menino! Eu saio do hotel e vejo três caras grandões me perguntando se eu poderia tirar uma foto com o Axl. Eu respondi: “Axl, o quê?”. Mas eu gostei demais desse encontro. Depois mandei fazer uma camiseta com a foto do Axl e a usei no Rock in Rio. Eu ainda estou tomando pé do fato que as pessoas gostam de mim.

Do que mais sente falta nesta quarentena? Sinto muita falta do palco. Outro dia o Martinho da Vila me ligou. Conversamos por horas. Ele também sente falta do palco. Aproveitei para parabenizá-lo pela homenagem que ele vai ganhar no enredo da Vila Isabel no próximo Carnaval. Eu ligo muito para os amigos para conversar. Sem falar do cancelamento da brincadeira do São João, que é tudo para o nordestino. O Bumba Meu Boi é tudo para o maranhense. Nossa, se meu pai fosse vivo, ele estaria chorando. Ele era brincante de boi.

Como tem sido esse período vivendo no Rio de Janeiro sem poder visitar o Maranhão? Sinto falta, mas minha irmã está vindo de lá com camarão, cuxá e pescada. É o meu repertório maranhense. Ela vai trazer também Guaraná Jesus e o biscoito Zé Pereira. Quando ela chegar, eu vou cozinhar minha especialidade: bobó de camarão. Mas sou boa também com vatapá. Olha, sem nenhum constrangimento de me elogiar, mas eu sou boa pra caramba na cozinha. Piloto um fogão legal. Meu carro chefe é a torta de caranguejo com cuxá de arroz branco. Minha mãe que me ensinou e meu pai amava.

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