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‘Agnus Dei’ usa estupro de freiras para discutir religião

Estrelado por Lou de Laâge, filme faz parte da seleção do Festival Varilux de Cinema Francês de 2016

Por Rafael Aloi Atualizado em 23 jun 2017, 16h23 - Publicado em 14 jun 2016, 16h27

Baseado em fatos reais ocorridos na Polônia em dezembro de 1945, o longa Agnus Dei, um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês 2016, trata do drama de freiras que sofreram estupro durante a II Guerra Mundial para discutir não apenas o horror da guerra, mas também a religião. Nele, a jovem médica da Cruz Vermelha Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge) é chamada para socorrer freiras e, ao chegar ao convento, descobre que várias estão grávidas e prestes a dar à luz, após terem sido violentadas por soldados russos.

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A religião é o tema central do filme. A trama da diretora Anne Fontaine pega aquelas mulheres, que seriam o maior símbolo de pureza e castidade, e exibe como a consciência delas se transformou e desmoronou após o estupro, e o pecado que elas pensam ter cometido. Um exemplo da confusão que se passa dentro da mente de cada uma das personagens fica visível com as mais diversas reações das freiras ao se encontrar com Mathilde. Uma ri quando a médica tenta examiná-la; outra se encolhe de medo, e se recusa a ser tocada. Outras acreditam que o que aconteceu foi um castigo divino, enquanto há as que veem sua crença em Deus ser completamente destruída.

O estupro das freiras, porém, não é mostrado no filme, que se preocupa com as consequências da violência contra aquelas mulheres de crença fervorosa. Ainda assim, Agnus Dei traz um tema forte e atual, principalmente para o Brasil, após o recente caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro. Em entrevista ao site de VEJA, a protagonista afirma que o estupro é um tópico atemporal e que precisa ser discutido. “No filme, o estupro é usado como arma de guerra. Mas, apesar de se tratar de um drama de época, é importante, sim, colocar o dedo nessa questão, pois a humanidade ainda hoje precisa discutir o estupro na nossa sociedade”, diz.

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A própria fotografia e o visual do filme, com cores apáticas e frias, representam o clima pesado e sombrio que se instaurou sobre o convento, um local completamente isolado da cidade e que agora precisa enfrentar diversos conflitos internos e de consciência. O drama é reforçado pelo confronto entre Mathilde e as freiras. Apesar de a médica, ateia, querer ajudar todas as que estão ali, sua racionalidade vai de encontro às crenças fervorosas de suas pacientes. Outra barreira é a linguagem, pois a francesa não entende uma palavra de polonês, e poucas das suas pacientes entendem francês, o que faz com que ela se aproxime muito da irmã Maria (Agata Buzek), que serve como sua intérprete e ajudante, além de conselheira para todas as outras residentes do convento.

Como a produção é franco-polonesa, a própria protagonista enfrentou essa dificuldade de tradução na vida real, ao ter que trabalhar com um elenco cuja maioria falava polonês, uma língua que ela não conhece. “Foram dois meses de gravações longas na Polônia, em uma cidadezinha que não tinha nada. A sorte é que muitas das atrizes polonesas também sabiam falar francês, e assim elas me trouxeram para o universo local, que me ajudou muito”, diz a atriz.

Lou De Laâge conduz o drama com calma e força, mesmo quando sua personagem é forçada a agir sob as mais difíceis circunstâncias, como quando ela mesma quase é estuprada por soldados russos, ou quando tenta impedir os mesmos soldados de entrarem novamente no convento e assim descobrirem os recém-nascidos. A jovem atriz, de 26 anos, já foi indicada ao prêmio César duas vezes e é o grande destaque de Agnus Dei, que lhe garantiu, em maio deste ano, o prêmio Romy Schneider oferecido anualmente a jovens atrizes consideradas expoentes do cinema francês. “Cinema é muito subjetivo, você agrada a uns e desagrada a outros. Não fazemos filmes para ganhar prêmios. Mas eu vi este prêmio como um estímulo das pessoas desse meio e uma forma delas me dizerem ‘seja bem-vinda'”, diz a atriz Lou de Laâge.

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