Adriana Garambone fala de maternidade 40+, feminismo no palco e saída da Record
Aos 56 anos, atriz é a convidada do programa semanal da coluna GENTE
Após uma longa trajetória em novelas da TV Record, já tendo passado também pela Globo, Adriana Garambone estreou Uma Vida de Amizade nos palcos cariocas, ao lado de Silvia Pfeifer e Helena Fernandes. Em cena, três amigas de longa data, hoje na casa dos 50+, se encontram uma vez ao ano para cumprir um ritual. Entre lembranças e questionamentos, acabam fazendo uma revisão crítica e bem-humorada de suas vidas e histórias. Adriana, que se consolidou com uma carreira no teatro musical, recebendo elogios por interpretações em montagens como Chicago, Cabaret e Gypsy, é a convidada do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal VEJA+ no Youtube, no streaming da TV Samsung Plus, LG, TCL e Roku; além da versão podcast no Spotify). Entre outros assuntos, ela fala da decisão de maternidade por barriga de aluguel, sobre a falta de vontade de continuar fazendo novelas e como encara o etarismo no dia a dia. Assista.
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SURGINDO UMA PEÇA. “Fomos assistir a uma peça de teatro com (o diretor) Fernando Filbert, saímos para jantar depois, começamos a conversar sobre histórias femininas e ele falou: ‘Gente, isso dá uma peça’. Não queríamos deixar isso virar só mais uma ideia solta numa mesa de restaurante. Surgiu o texto. Fizemos uma primeira leitura. A história tinha muito a ver com a gente, porque nós três fomos modelos, antes de sermos atrizes. Não é uma comédia rasgada, não é uma comédia do início ao fim; e também não é um drama. A gente fala de etarismo também, da idade em que elas estão se reinventando, sobre o tempo. As mulheres se identificam demais. A gente vê a plateia, o pessoal se escangalha de rir. Percebo como a gente toca em temas sensíveis femininos, que todo mundo se identifica. São três personagens: Renê, Yasmin e Gilda”.
UNIVERSO FEMININO. “Os homens têm falado o quanto está sendo importante adentrar esse tema. É que os homens são resistentes ao tema feminino, não se interessam muito. Nessa peça, eles se interessam e falam no final: ‘Poxa, é importante a gente abordar isso. A gente conhece melhor as mulheres’. É como se tivesse ali no buraquinho da fechadura vendo um papo feminino. Outro dia me perguntaram o que quero que o público saia pensando dessa peça. Quero que pensem na sua potencialidade (…). A gente está num momento fértil para essa reinvenção feminina, para esse novo olhar para mulher. É interessante ser uma mulher ativa nesse momento. A nossa história. Eu, a Silvia e Helena somos essas mulheres ativas. A gente está se inventando, porque a peça também é uma produção nossa. É a primeira vez que estamos produzindo, colocando mão nos bastidores”.
ASSUNTO DE MULHER. “Não quer dizer que eu não vá levantar minhas bandeiras, lutar contra (o machismo), dar a mão para quem ainda está se sentindo cerceado, quem não tem coragem (de denunciar). Não é uma bandeira. É uma peça feminista? Não, é feminina. Fala de mulheres, da fragilidade, do quanto a gente precisa falar (de certos assuntos). Não é ‘assunto de mulher’, não é coisa de ‘mulherzinha’. Assunto de mulher é coisa de 50% da população”.
MÃE POR BARRIGA DE ALUGUEL. “(…) Porque o meu filho, eu passei 6 anos tentando tê-lo. Não consegui engravidar. O meu filho é de barriga de aluguel; eu vinha de uma história onde eu priorizava só a minha carreira, só pensava em trabalho. Nunca pensei em ser mãe e, quando resolvi ser, eu me deparei com a dificuldade de engravidar. Passei por vários processos difíceis, frustrantes. Fiz aquele processo de fertilização in vitro e tal. Mas acabei optando pela barriga de aluguel, e deu certo. Tive meu filho depois de 6 anos de história. Esse momento foi transformador, muito corajoso e potente, porque fui em busca do que eu queria e consegui. Consegui, venci nessa luta. Mas foi muito forte. Tem que ter prudência, tanto financeiramente quanto na responsabilidade da estrutura toda que se dá a uma criança. E, ao mesmo tempo, você recebe um amor muito grande. Essa estrutura também vem desse amor, dessa força, do vínculo. Nossa, é uma transformação muito grande”.
NÃO-MATERNIDADE. “Eu defendo muito as mulheres que optam por não ter filhos; acho que, cada vez mais, é super legítimo. Muitas vezes a gente vê essa discussão: ‘Mas não vai ter filho?’. Essa é uma decisão de cada um. Poderia não ter tido essa vontade e não ter filho hoje em dia, e não acho que seria uma coisa tão (triste). Não seria infeliz por isso. Dou muita força para quem não quer, para que não tenha, para que siga, porque a gente encontra na vida sempre um propósito. É muito cobrado da mulher, como se a mulher fosse obrigada a isso (à maternidade)”.
SAÍDA DA RECORD. “Perdi um pouco o interesse pela novela. Fui noveleira, como o Brasil inteiro. Perdi o interesse porque os temas não me interessam muito, mas, por exemplo, uma coisa que tenho achado interessante é a novela vertical. Tenho certeza que vai ter muita gente querendo ver. Estou pensando nisso demais, em projetos que podem ser não só no teatro, mas na novela vertical ou em outros lugares… Olha, eu trabalhei muito na televisão. [27:08] Antes da Record, fiz novelas na Globo, fiz muitas novelas lá. E tive bons papéis, não posso reclamar disso. Mas agora sinto uma mudança no mercado. Quais são os personagens de 50+ hoje na televisão? São poucos, são raros e tem muitos atores bons aí para fazer. É um mercado que afunilou. Acho que a gente tem que criar esse espaço. E não digo só de atores, não. Produtores, diretores… O mercado ainda é muito etarista”.
AOS OLHOS DO OUTRO. “O jovem tem muito medo de envelhecer. Quando a gente vai envelhecendo, vai ficando mais fácil, vai se adaptando melhor. Ontem mesmo entrei numa conversa sobre chamar a pessoa de ‘velhinha’. Comecei a pensar sobre esse olhar, quando é pejorativo. Porque é sempre sobre o outro, nunca sobre você mesmo. Quando jovem, eu sempre tive uma visão em perspectiva sobre carreira, sobre a vida de um modo geral. Admirava muito as atrizes mais velhas. Tinha uma visão de longevidade na carreira. Nunca tive esse medo da velhice. Tinha a sensação de que estaria mais sábia, mais madura. Hoje percebo que essa questão é externa. É o outro que te vê, não é você que decide. Agora, sem dúvida, a gente sofre o tempo inteiro, na rua, na academia… Quando me chamam de senhora, fico um pouco impressionada”.
CHAMADA DE ‘SENHORA’. “Outro dia fui com um amigo numa loja. Ele tem 10 anos a mais que eu. Nós dois estávamos sentados numa mesa negociando e o vendedor me chamava de ‘senhora’ o tempo todo, já meu amigo era chamado pelo nome. Não falei nada, não me ofendi, mas registrei o etarismo em relação a isso. São pequenos detalhes. Por que não fui chamada pelo nome, mas de ‘senhora’? Existem muitas coisas envolvidas aí. Não só o etarismo em relação à mulher, mas o machismo, a questão da posse. Ele não sabia qual é a relação que tenho com esse homem. Me chamar de senhora já mostra: ‘Olha, não estou com intimidade com a mulher que pode ser sua. Ela já tem uma idade’. São muitos os códigos na frase”.
Captação de imagens e edição: Libário Nogueira / Agradecimento: Hotel Nacional e Elev Comunicação/ Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA+ no Youtube; Samsung TV Plus (canal 2075), LG Channels (canal 126), TCL Channel (canal 10031) e Roku (canal 221); ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.







