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‘Acredito na meritocracia’, diz Giancarlo Esposito, no ar em cinco séries

Conhecido pelo vilão Gus Fringe, de 'Breaking Bad', ator estará na segunda temporada de 'Godfather of Harlem' e já foi visto em 'The Boys' e 'Mandalorian'

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 7 dez 2021, 17h17 - Publicado em 7 dez 2021, 16h18

Desde de 2009, quando ganhou notoriedade mundial ao interpretar o antológico narcotraficante Gus Fring na série Breaking Bad, o ator Giancarlo Esposito, de 63 anos, virou um rosto familiar na dramaturgia americana. Nos últimos dois anos, sua presença se tornou ainda mais constante: ele pode ser visto em pelo menos cinco produções diferentes na TV e nos cinemas. Em quase todas elas, Esposito dá vida a vilões ou, no mínimo, personagens de caráter dúbio. Em entrevista exclusiva a VEJA, ele diz que, embora tenha ficado conhecido por interpretar tipos do mal, sempre está em busca de diferentes papeis – e que se considera eminentemente um ator de comédia.

Na próxima quarta-feira, 15, estreia a segunda temporada da série Godfather of Harlem, na plataforma de streaming Star+ – e em que Esposito volta a interpretar um personagem de caráter duvidoso. Baseada em fatos reais, a série conta a história do criminoso Bumpy Johnson (interpretado com brilho por Forest Whitaker), que no início dos anos 60 inicia uma guerra contra a máfia italiana para retomar o controle das vendas de drogas no Harlem, em Nova York. Na série, Esposito dá vida ao político e pastor batista Adam Clayton Powell Jr, que foi o primeiro negro a representar o bairro nova-iorquino no Congresso americano, nas décadas de 50 e 60. Defensor dos direitos civis dos negros, Powell Jr. se envolveu em diversas controvérsias por má administração do dinheiro público e, principalmente, por seu comportamento errático. Numa época de costumes mais rigorosos, o envolvimento de Powell Jr. com diversas mulheres chocou a sociedade. 

Para além de Godfather of Harlem, Esposito também pode ser visto como o maligno Stan Edgar, CEO da misteriosa corporação Vought International, na série The Boys, e como o vilão Moff Gideon, em The Mandalorian. Ele volta a reprisar o papel de vilão também em Better Call Saul, spinoff de Breaking Bad, em que ele interpreta o sensacional Gus Fring. 

Giancarlo Esposito nasceu em Copenhague, na Dinamarca, é descendente de italianos e tem cidadania americana. Segundo o ator, foi graças a essa mistura que ele se sentiu preparado para atuar em papeis tão distintos, mas lamenta por já ter sido reprovado em testes para algum personagem italiano. “Me chamam por causa do meu nome e se surpreendem ao ver um ator negro. Por que um negro não pode interpretar um italiano?”, diz. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

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O que o senhor já sabia sobre Adam Clayton Powell Jr. antes de interpretá-lo e o que descobriu a seu respeito durante as gravações de Godfather of HarlemEu sabia um pouco sobre ele. O conheci pessoalmente quando eu tinha 10 anos de idade. Minha mãe me levou à Igreja Batista Abissínia, onde ele estava pregando. Essa é uma memória fugaz e muito proeminente que tenho. Ao mesmo tempo, eu nunca soube tudo o que ele fez pelos afro-americanos. Ele foi o primeiro negro eleito do Harlem para o Congresso. Ele era um defensor comprometido com a comunidade afro-americana no Harlem. Escreveu mais de 853 projetos de lei naquele tempo. E ele amava as mulheres. Era um mulherengo, que bebia e fumava. Eu senti que ele estava muito confortável em sua própria pele. Ele era muito confiante e corajoso. Meu conhecimento sobre ele mudou conforme comecei a examinar a sua história.

Ele foi também um pastor protestante e um político. Interpretá-lo fez o senhor refletir sobre o embate entre fé e secularismo que permeia a política americana? A série se passa nos anos 60, mas está refletindo um ponto de vista bem contemporâneo do nosso mundo. Algumas daquelas questões, ainda hoje acontecem no movimento dos direitos civis. Politicamente, durante muito tempo, nossas lideranças ditaram nossos costumes com base na religião. Sinceramente, a religião não deveria ser um obstáculo para que aprovássemos leis para todas as pessoas, independentemente da sua filiação religiosa. 

O senhor está em várias séries de TV, e a maioria de seus personagens é de tipos vilanescos. Prefere fazer esse tipo de personagem? Estou cada vez mais cuidadoso em aceitar quaisquer personagens que sejam nefastos ou “bad guys”, porque sou um ator de comédia. Interpreto bons rapazes também, como no filme Star Girl, lançado ano passado na Disney+. O que funciona para mim é escolher papéis em séries em que eu possa fazer diferença, que digam algo diferente. Hoje, tenho fãs mais jovens que não me conheciam antes, de 10 a 15 anos de idade, assim como seus pais, devido a Mandalorian. Em Godfather of Harlem, interpreto um cara bom que gosta de se divertir, e está focado em um esforço justo para trazer igualdade para todas as pessoas. E, claro, tem o Gustavo Fring, de Breaking Bad e Better Call Saul, que é um mestre manipulador da indústria de drogas no Novo México. Antigamente, um programa de TV deixava um ator no ar por dois ou três anos. Agora, mudou. Ao interpretar tantos personagens assim, eu não saio do mercado e isso me permitiu interpretar cinco personagens diferentes nos últimos anos. Eu sinto que eu tenho massa crítica para estar em todos esses lugares e ser diferente em cada um deles.

O senhor disse recentemente que, devido ao seu nome italiano, foi convidado para testes em séries de TV – mas, ao chegar ao estúdio, o diretor se surpreendia em ver uma pessoa negra. Afinal, para interpretar italiano é preciso ser branco? Sim, eu fui a um teste e a pessoa olhou para mim de cima a baixo. Perguntou se eu era o Giancarlo Esposito e, quando eu disse que sim, a resposta foi: “Me desculpe, estamos procurando uma pessoa de outra cor de pele”. Eu respondi: “Por que não eu? Por que não me dar uma chance?”. Enfim, não aconteceu. Mas me permitiu carregar essa experiência comigo. Eu acredito na meritocracia e que devemos ser escolhidos pelo quanto somos bons como atores e atrizes. Isso me afetou por toda a minha vida porque, por muito tempo, eu interpretei afro-americanos, mas até poderia ser espanhol se meu cabelo ficasse liso. Quer dizer, eu poderia me encaixar em diferentes etnias. Tenho orgulho da minha herança multi-italiana e afro-americana. Vou para a Itália todos os anos e falo um pouco de italiano. O mundo está mudando, independentemente da cor da nossa pele.

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